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A política arriscada do euro

Para o ex-ministro chileno Andrés Velasco, resultado político da moeda comum já está dado: o total fracasso

Por Andrés Velasco - 6 abr 2015, 15h32

Nenhuma decisão foi tomada ainda sobre se a Grécia será capaz de evitar a moratória, permanecer na zona euro e reverter a contração brutal da sua economia. Mas qualquer painel justo já teria emitido um veredito sobre as consequências políticas da moeda comum: total fracasso.

Obviamente, o caso do euro sempre foi político e veio em duas maneiras: mundano e sublime. O caso mundano, quase nunca de forma transparente na sociedade refinada, foi que os países do Sul da Europa gastaram demais, tributaram muito pouco e, assim, emprestaram em excesso. Enquanto eles podiam financiar os déficits por meio de impressão de moeda local e promover uma desvalorização de vez em quando, eles sustentavam seus meios de livre despesa. Só a camisa de força do euro e uma política monetária governada a partir de Frankfurt poderia discipliná-los.

Essa era a teoria. O resultado prático foi precisamente o contrário. Sem o risco de desvalorização, os spreads das taxa de juros caíram vertiginosamente, e igualmente os custos dos empréstimos obtidos. Dinheiro barato do exterior inundou países de baixa renda da Europa. Em alguns lugares – Grécia, Itália e Portugal – o dinheiro financiou uma farra insustentável de gastos públicos. Em outros – Espanha e Irlanda – financiou os delírios de desenvolvedores imobiliários privados. As dívidas inflaram em todos os lugares.

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O caso político sublime para o euro foi pronunciado de forma mais charmosa em francês. Ele prometeu paz, prosperidade e crescimento de respeito mútuo, com união política como o objetivo final. Não importava que ninguém parecesse saber como chegar lá. Como ouvi em inúmeras conferências ao longo dos anos, a vontade e determinação europeias vão arrumar a casa. Como um não-europeu, foi-me dito (às vezes educadamente, às vezes nem tanto) que eu possivelmente poderia não entender isso.

Bem, os resultados são visíveis, e até mesmo os não-europeus podem entender o que aconteceu. A legitimidade das instituições europeias está em baixa e movimentos neofascistas aumentaram. Preconceitos contra imigrantes e clichês sobre o povo do norte avarento e o povo do sul preguiçoso proliferam. Até jornais respeitáveis baixaram o nível e estão retratando os políticos alemães vestindo roupas típicas (lederhosen) e bigode hitleriano. Pode haver um resultado pior para o projeto de construção de uma Europa integrada e tolerante, mas tenho dificuldades em imaginar.

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Não precisava ser assim. A união monetária foi sempre uma aposta arriscada, mas não necessariamente tinha de produzir o desemprego em massa (mais da metade de todos os jovens na Grécia e em Espanha não têm emprego). Uma parte significativa do problema reflete o projeto falho da zona do euro, e que o fracasso, é também político.

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Sim, muitos dos problemas da Grécia foram de sua própria autoria. Aconteceram enormes abusos dos benefícios de pensão, a cobrança de impostos é uma bagunça, e (além de belas praias), o país oferece alguns bens e serviços que o resto do mundo quer comprar.

Mas a depressão – agora de meia década – também tem causas externas. Outros países europeus não estão apenas comprando muito pouco da Grécia. Eles estão comprando muito pouco de todos os lugares. Como Martin Wolf, do Financial Times, não se cansa de apontar, existe um enorme desequilíbrio na Europa, e não é aquele que você pensa.

Desde que a atual crise eclodiu, a conta corrente da zona euro passou de um pequeno déficit para um excedente de quase 2,5% do PIB. Enquanto países como a Grécia têm cortado seus gastos, outros, como a Alemanha, não expandiram os deles. Os europeus do Norte são orgulhosos de viver dentro de suas possibilidades – não importa que ao fazê-lo, eles estão ajudando a sustentar uma crise regional.

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Este tipo de problema já preocupava John Maynard Keynes na época das negociações de Bretton Woods do pós-II Guerra Mundial. Estrangeiros podem forçar um país a gastar menos, recusando-se a emprestar a ele. Mas como é que forçamos um país ou grupo de países a gastar mais? A zona do euro não tem uma resposta para este dilema inerentemente político – e aí reside uma das suas falhas fundamentais.

A zona do euro tampouco tem os elementos automáticos capazes de absorver choque fiscais – como é amplamente sabido agora – que são essenciais para estabilizar a renda em toda a comunidade. Quando o preço do petróleo cai e o Texas e Oklahoma entram em recessão, o dinheiro flui seu caminho naquele momento e sem qualquer efeito político corrosivo. Mas esse círculo de transferência não acontecerá enquanto um único cidadão europeu do norte ficar estagnado. Assim, a zona euro vai estar eternamente atormentada por desequilíbrios econômicos e tensões políticas.

E, falando de tensões políticas, as negociações da Grécia com a UE abriram novos caminhos. O novo governo de Syriza cedeu depois de quase duas semanas, quando confrontado com a ameaça nuclear final: com mau comportamento, o Banco Central Europeu vai parar de financiar seus bancos. Nem mesmo ministros das finanças usando jaquetas de couro estão dispostos a tolerar uma corrida aos bancos e o caos financeiro que segue.

Bancos centrais independentes são uma grande coisa, e o presidente do BCE Mario Draghi é um grande banqueiro central. Mas tal independência tem como objetivo aplicar a política monetária (levantar taxas de juros, se necessário, por mais impopular que isso seja) e não a política fiscal (forçando um país a cortar gastos e aumentar os impostos para pagar a dívida). Alguém disse “déficit democrático”?.

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Sem dúvida, isso não significa que a saída da Grécia da zona euro seja desejável. Como diz a velha piada, se você quer chegar lá, eu não começaria aqui. Mas aqui – na união monetária – é onde se encontra a Grécia, e deixá-la de repente, sem um plano B, seria desastroso.

Economia ruim transforma-se facilmente em política ruim. Devido à sua concepção defeituosa, a moeda comum agora corre o risco de abortar o projeto completo de uma união política que foi destinada a avançar. Isso seria uma tragédia grega.

Andrés Velasco, ex-ministro das finanças do Chile, é Professor de Prática Profissional em Desenvolvimento Internacional na Universidade de Columbia.

Project Syndicate, 2015

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