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A nova onda dos museus: por que centros culturais brasileiros batem recordes de público

Modelos de gestão permitem agilidade e independência

Por Redação VEJA Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 jul 2026, 09h10 | Atualizado em 3 jul 2026, 16h20
A nova onda dos museus: por que centros culturais brasileiros batem recordes de público Priorizar nos meus resultados Google

Em uma década de operação, o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, atingiu uma marca surpreendente: recebeu 1,2 milhão de visitantes no ano passado. Se comparado aos números mundiais, parece pouco. O Museu do Louvre, em Paris, o mais visitado do mundo, atrai 9 milhões de pessoas por ano. Para os padrões brasileiros, porém, trata-se de um feito e tanto. O Museu de Arte de São Paulo (Masp), um dos mais importantes da América Latina, só atingiu esse público aos 78 anos de existência, também em 2025. Na Pinacoteca de São Paulo, que figura no ranking dos mais visitados do Brasil, o número foi de 800 000 pessoas.

A visitação não é o único sinal de sucesso de um museu, mas é o mais evidente. Trata-se da prova do interesse que a sociedade tem por aquele lugar, o que ele conserva e, sobretudo, o que oferece ao público. No caso do Museu do Amanhã, as atrações começam muito antes da bilheteria. Construído sobre um píer desativado na zona portuária carioca, o edifício foi erguido com o propósito claro de se tornar um point instagramável. “É uma escultura implantada na Baía de Guanabara”, diz Ricardo Piquet, diretor do Instituto de Desenvolvimento e Gestão, que administra o museu. O projeto tem a assinatura do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, que também assina o Hemisférico (Valência, Espanha), o Complexo Olímpico de Atenas (Grécia) e a Gare do Oriente (Lisboa, Portugal), entre outros ícones da arquitetura mundial. Há quem circule apenas pela área externa para observar a fachada, fazer fotos ou mesmo interagir com artistas de rua e comprar bugigangas de vendedores ambulantes.

Depois das catracas, o que o público encontra é um museu de ciência diferentão. Em exposição, não tem nada de plantinhas, esqueletos ou fósseis. O acervo é principalmente digital, composto de fotografias, vídeos e instalações audiovisuais. Apesar do nome, que remete ao futuro, as questões levantadas ali têm tudo a ver com os desafios que enfrentamos no presente para nos manter como espécie: o colapso ambiental, os problemas urbanos (mobilidade, segurança, acesso a recursos naturais), a preservação das florestas, as crises sociais e econômicas, e por aí vai. Apresentados hoje, esses temas podem soar comuns. Mas, há dez anos, quando foi fundado, não era bem assim. “Os museus concentravam principalmente evidências do passado. O Museu do Amanhã foi uma provocação para que outros pudessem debater o presente e projetar futuros possíveis”, diz Piquet, que não esconde o orgulho quando afirma que o carioca inspirou outros pelo mundo a fazer coisa parecida. É o caso do Futurium, em Berlim, do Museu do Futuro de Dubai, do Climate Museum, de Nova York, e do Museu das Nações Unidas, de Copenhague.

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Responsável pelos louros do museu carioca, o IDG é uma organização não governamental que administra projetos públicos nas áreas de cultura e meio ambiente. Em algumas das cidades onde atua — Recife, São Paulo e Rio de Janeiro —, o instituto conquistou o status de organização social. “Receber um atestado como esse pressupõe um arcabouço de governança que dá segurança para o poder público aportar recursos com a garantia de resultados”, afirma Piquet. Na prática, isso permite que a organização receba recursos públicos para a gestão de projetos culturais. O modelo oferece, assim, a agilidade contratual do setor privado com a finalidade pública exigida pelo Estado, protegendo o equipamento da descontinuidade da política. “Independência e agilidade são palavras-chave para fazer um museu ou uma exposição funcionar de verdade”, afirma Sérgio Santos, diretor da Primeira Opção, produtora que está por trás de exibições em alguns dos maiores centros culturais do Brasil e do mundo.

O Paço do Frevo, no Recife: gestão confere agilidade e independência
O Paço do Frevo, no Recife: gestão confere agilidade e independência (Hugo Muniz/Acervo Paço do Frevo/.)
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Embaixo do guarda-chuva da instituição estão outros quatro museus brasileiros. Um deles, o Paço Frevo, no Recife (PE), foi inaugurado em 2014 com a missão de resguardar a dança, reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 2007, e como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco, em 2012. O mais recente é o Museu das Amazônias, em Belém, inaugurado no ano passado, às vésperas da COP30, a Conferência das Partes da ONU. Em 2025, o IDG movimentou 200 milhões de reais para gerir os museus e outros projetos culturais. Um quarto desse montante foi consumido só pelo Museu do Amanhã.

Problemas de gestão e agilidade já sucatearam alguns dos museus mais importantes do país. Foi o caso do Museu do Ipiranga, um museu de história com acervo riquíssimo — obras de arte, mobiliário, documentos, objetos, entre outros — que pertence à Universidade de São Paulo (USP). Fica instalado em um prédio de 1890, construído na comemoração da Independência do Brasil. De 2013 até 2022, ele chegou a fechar para reformas. A situação era precária. O acervo — e os visitantes — padeciam com a falta de manutenção. Sem sistema de climatização adequado, o calor ficava insuportável nos dias mais quentes. E bastava uma chuva mais forte para as portas serem fechadas, por causa da falta de energia elétrica.

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Infográfico O IDG hoje detalhando o perfil da organização que administra cinco museus no Brasil. Finanças: 200 milhões de reais de verba administrada em 2025, com 50 milhões para o Museu do Amanhã. Fontes de arrecadação incluem repasses, patrocínios, bilheteria, receitas de permissionários e locação de espaços. Museus administrados: Museu do Amanhã, Paço do Frevo, Museu das Favelas, Museu do Jardim Botânico e Museu das Amazônias. Total de 500 colaboradores

Além da revitalização predial, que hoje inclui um sistema de ventilação natural em alguns dos ambientes, o equipamento agora é administrado de um jeito diferente. “Funcionamos em um modelo híbrido”, explica Paulo César Garcez Marins, diretor do Museu do Ipiranga. Tudo aquilo que é perene, como o corpo de colaboradores de quem o acervo depende diretamente, continua sob o comando da USP. Já as operações que requerem agilidade, como zeladoria do prédio, comunicação ou programação de atividades temporárias, estão nas mãos da Fundação de Apoio ao Museu Paulista. Trata-se de uma entidade privada, sem fins lucrativos, criada para flexibilizar, agilizar e contribuir para a eficiência das atividades. “Nos três anos desde a reinauguração, dobramos o número de visitantes, chegando a 650 000 pessoas no ano passado”, diz Marins.

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Outro que já viveu altos e baixos é o Masp. Construído para receber o “povo”, para “ver exposições ao ar livre e discutir, escutar música”, como escreveu a arquiteta que o concebeu, Lina Bo Bardi, o museu sobreviveu a um longo período de negligência. Por dez anos (de 1997 a 2006), ficou sem curador, acumulando dívidas, problemas de manutenção predial e programação precária. Com isso, a visitação despencou para 120 500 pessoas no ano 2000. Em meados da década passada, as dívidas do museu chegaram a 40 milhões de reais. Foram sanadas na gestão do empresário Heitor Martins. Depois de assumir, em 2014, ele encabeçou um plano para ganhar apoio privado, que acabou demandando uma reformulação da instituição, com mudanças no conselho. Desde então, a situação mudou bastante. Em 2024, assumiu de vez a administração do Vão Livre, que agora oferece uma programação diversa, com atrações gratuitas e em horários alternativos, muito mais próxima dos desejos de Lina. No ano passado, também foi inaugurado o novo edifício, vizinho do principal. Tudo isso resultou no recorde de público, que passou da marca de 1 milhão e neste ano deve ir além.

Resgatando o passado ou vislumbrando o futuro, museus bem administrados mostram que há muito público interessado na cultura.

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Publicado em VEJA, junho de 2026, edição VEJA Negócios nº 27

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