A injeção de inovação da EMS: altas taxas de crescimento e investimento em pesquisa
Uma das maiores farmacêuticas brasileiras e líder em genéricos é a grande vencedora da edição 2026 do ranking TOP30
Quando Carlos Sanchez, o empresário paulista de 64 anos que comanda a EMS, uma das maiores farmacêuticas brasileiras, tomou conhecimento das pesquisas internacionais em torno das moléculas chamadas GLP-1, ainda no início dos anos de 2010, teve a intuição de que algo grande podia nascer dali. Semelhante à insulina, o GLP-1 (sigla em inglês para peptídeo similar ao glucagon-1) é o hormônio da saciedade que o intestino libera após as refeições. A EMS vinha de anos de crescimento exponencial, embalada pelo enorme mercado aberto no Brasil pela Lei dos Genéricos, em 1999, vendendo rótulos alternativos de nichos bilionários como o do Lípitor, para colesterol, e do Viagra, para impotência. Ainda assim, Sanchez já buscava o que poderia ser o ganha-pão da empresa na década seguinte, ciente do mote que rege a indústria farmacêutica: quem não inova fica para trás.
A EMS desembolsou mais de 1,2 bilhão de reais ao longo dos últimos dez anos para replicar em seus laboratórios em Hortolândia, no interior de São Paulo, as suas próprias versões do GLP-1, mesmo quando ninguém ainda sabia bem se a tecnologia daria certo. Pois foi dela que saíram os tratamentos injetáveis que simulam o GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, usados no combate ao diabetes e à obesidade — as populares “canetas emagrecedoras”, como o Ozempic, da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, e o Mounjaro, da americana Eli Lilly. Trata-se de uma das maiores revoluções da indústria farmacêutica desde o Viagra, seja pelo sucesso gigantesco, seja por abrir um novo mercado inteiro de bilhões de dólares.
Assim, com antecedência, a EMS já sabia sintetizar a semaglutida e tinha até uma fábrica nova pronta só para isso, inaugurada em 2024 em Hortolândia, quando a patente do Ozempic caiu no Brasil, em março de 2026. Foi o que lhe permitiu ser a primeira companhia a receber a licença oficial e a vender um análogo do Ozempic produzido no Brasil — o Ozivy, nas farmácias desde junho por um terço do preço do original. É um marco que corrobora o DNA ousado da empresa e que contribuiu para que a EMS se tornasse não só a vencedora do setor farmacêutico, pelo segundo ano seguido, como também a Empresa do Ano do ranking TOP30 de VEJA NEGÓCIOS. “Na nossa indústria, a inovação não acontece de um dia para o outro”, diz Sanchez. “Esperar o fim da patente para começar o trabalho significa chegar tarde ao mercado.”
As métricas da EMS, que começou como uma pequena farmácia fundada por Emiliano Sanchez, o pai de Carlos, em 1950 em Santo André (SP), são, de fato, impressionantes. Antes mesmo do lançamento de sua caneta emagrecedora, de 2022 a 2025, a receita líquida da farmacêutica cresceu 69% e o lucro saltou 75%, de acordo com os dados compilados pela Austin Rating. E, com o avanço garantido do setor farmacêutico, que cresce ao ritmo de 10% ao ano, mais o impulso que as canetas proporcionam — suas vendas no Brasil cresceram 40% só em 2025, segundo a consultoria Iqvia —, a continuidade do crescimento para a EMS é dada como certa.
A expectativa, segundo o vice-presidente da companhia, Marcus Sanchez, é que as vendas totais avancem 25% em 2026, para 13,5 bilhões de reais, considerando todo o Grupo EMS, que, além da EMS em si, engloba outros laboratórios, como Nova Química, Legrand e Multilab. Só com o Ozivy, a sua versão do Ozempic, que mal completou dois meses nas farmácias, a conta é passar dos 500 milhões de reais ainda neste ano. “Esta era a nossa projeção para os primeiros doze meses de comercialização, mas as vendas surpreenderam tanto que devemos realizar esse resultado em um semestre”, diz Sanchez, que é neto de Emiliano, o fundador, e sobrinho de Carlos. Nem a chegada de concorrentes na corrida de cópias do Ozempic assusta a EMS, a farmacêutica que mais vende no Brasil, de acordo com a consultoria em saúde Close-Up International. No fim de julho, a Anvisa aprovou de uma só vez o registro de cinco novas marcas que vão, como o Ozivy, mimetizar o Ozempic. “A EMS tem a vantagem de ter sido a primeira”, diz Leonardo Albuquerque, analista do setor farmacêutico da agência Moody’s no Brasil. “Os preços das canetas já caíram bastante e podem se achatar mais, mas as que chegam antes conseguem surfar com preços maiores por um tempo e vão reajustando conforme os outros chegam.” A proteção de patente do Mounjaro, uma geração mais jovem e mais eficiente dos medicamentos emagrecedores, acabará só em 2036 no Brasil — mas a EMS, de toda forma, já tem as pesquisas com a tirzepatida, o princípio ativo dele, prontas também.
Enquanto isso, o segredo é continuar inovando e diversificar. “Não é difícil fazer um genérico, e os competidores chegam rápido”, diz Nelson Mussolini, presidente do Sindusfarma, sindicato da indústria farmacêutica no Brasil. “As empresas brasileiras já perceberam isso e não querem só fazer cópia, todas estão de alguma maneira investindo em inovação e produtos exclusivos.” A EMS sabe disso e busca se garantir tanto no volume dos genéricos quanto em pesquisa de novas soluções. São 90 milhões de caixinhas e 1,8 bilhão de comprimidos produzidos anualmente, que vão desde a dipirona, o segundo genérico mais fabricado do Brasil, até o Toragesic, uma versão mais potente e de alívio imediato de analgésico criada e patenteada por ela. Todo ano, 6% do faturamento é reservado para pesquisa e desenvolvimento, numa estrutura de laboratórios próprios que conta com 1 500 cientistas. “A indústria farmacêutica em todo o mundo costuma ter empresas ou com muita ciência e baixo volume de produção, ou muito volume e pouca ciência”, diz Sanchez. A EMS se esforça para ter os dois.
Publicado em VEJA, agosto de 2026, edição VEJA Negócios nº 29







