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A ilusão dos tecnocratas no Brasil

Governo ‘técnico’ de Dilma Rousseff não passou de crença esperançosa num Brasil mais eficiente, mas que jamais se concretizou

Por Ana Clara Costa e Gabriel Castro 24 ago 2014, 16h54

O ano de 2011 foi marcado por uma crise sem precedentes na Europa. Foi o período em que o peso das dívidas públicas de países como Grécia, Irlanda, Portugal e até mesmo a Itália chegou a ameaçar a existência do próprio euro. Com a missão de recobrar a confiança externa e a saúde de suas contas, alguns governos europeus – em especial Itália e Grécia – dispensaram grandes oligarcas da política, como Silvio Berlusconi, e colocaram no poder os chamados tecnocratas. Com perfil técnico e pouca paixão pela política, esse estrato da elite do capitalismo tende a propor saídas pragmáticas para problemas de gestão pública. Naquele ano, tecnocracia era o jargão da vez no mundo econômico – e a chanceler alemã Angela Merkel era sua principal expoente. Por obra da máquina de propaganda petista, não demorou para que Dilma Rousseff, antes mesmo de ser eleita, fosse alçada ao posto de técnica exímia. Nove entre dez artigos sobre a presidente em seus primeiros meses de mandato retratavam-na como gestora experiente e “gerentona” – características que a distanciavam de Lula, que nada sabia de gestão, mas mantinha notório apreço pela arte do conchavo. Após a “faxina ministerial” que Dilma se viu forçada a empreender no início de seu governo, além de tecnocrata, também passou a ser vista como “pouco tolerante” com a corrupção. Quase quatro anos depois, inúmeros são os fatos que mostram que a avaliação que se tinha não passava de ilusão.

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Ao acomodar todos os aliados nos 39 Ministérios da Esplanada, Dilma escolheu um time restrito que deveria cercá-la – e no qual concentraria todas as suas ordens. Trata-se de um perfil específico de petista que lhe permitiria seu papel de “gestora” sem grandes protestos. Miriam Belchior, ex-secretária do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), e Gleisi Hoffmann, que assumiu a Casa Civil após a queda de Antonio Palocci, se tornaram os dois nomes de confiança da presidente. Mais técnicas que políticas, reforçaram a imagem de um “novo” governo eficiente e livre (ou quase) de nomes perniciosos ligados ao mensalão. O problema é que, ano após ano, houve uma deterioração em praticamente todas as fronteiras do Executivo – sobretudo nas pastas ligadas à economia. O Planejamento, responsável pelo Orçamento engessado da União, foi praticamente reduzido a uma secretaria. A Casa Civil, departamento que outrora guardava poderes equivalentes aos da Presidência, como nos temos do mensaleiro José Dirceu, de Erenice Guerra ou da própria Dilma, tornou-se mera antessala. As decisões econômicas, discutidas em gabinete diretamente entre Dilma, Guido Mantega e Arno Augustin, passavam à margem de qualquer interferência técnica. Os próprios ministros, diante da palavra da gestora, funcionavam como executores de ordens. Por fim, o pragmatismo e a tecnocracia que se imaginava reinar por ali deram lugar a um emaranhado de decisões de cunho ideológico que fariam Angela Merkel desfalecer.

Não por acaso, a economia se encontra em seu pior momento dos últimos 15 anos. Se, até meses atrás, os dados econômicos apontavam para o pior cenário fiscal e industrial desde 2009, período da crise financeira internacional, agora a régua está mais baixa. A criação de emprego de julho foi a pior desde 1999, apontou o Caged. Já o resultado primário de junho, que consiste na economia do governo para pagar os juros da dívida, foi o pior desde 2000, mostram os dados do Tesouro Nacional. O governo atribui os problemas domésticos à crise internacional – o que fica difícil de provar diante do crescimento da economia americana, que foi de 4% no segundo trimestre e deve fechar o ano com avanço de 3,5%. No caso do Brasil, como resultado das trapalhadas de gestão, o PIB não deve crescer mais que 0,5% – os analistas mais realistas apontam, na verdade, a recessão.

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Faxina – No cenário político, a “pouca tolerância” com a corrupção também é contestável. É verdade que sete ministros (nomeados por Dilma) caíram. Em julho de 2011, VEJA revelou como o PR havia transformado o Ministério dos Transportes em uma fonte de recursos para abastecer o caixa dois do partido. A presidente acabou demitindo o ministro Alfredo Nascimento. Antes disso, Palocci já havia caído por não conseguir explicar um espantoso e repentino aumento patrimonial. Outros cinco ministros seriam demitidos por causa de denúncias de corrupção em menos de um ano.

Mas, quatro anos depois, o nível de exigência da presidente se arrefece. Neste ano, ela demitiu César Borges do Ministério dos Transportes unicamente para agradar o PR, que pedia a volta de Paulo Sérgio Passos. O próprio Alfredo Nascimento deu o recado a Dilma, ou seja, o mesmo partido que havia sido retirado do comando da pasta pressionou – de forma bem sucedida – para que a presidente nomeasse alguém de seu interesse. Antes disso, Dilma havia negociado com o demitido da pasta do Trabalho, Carlos Lupi, do PDT, a indicação de Manoel Dias para o comando do Ministério. Em junho, no Rio de Janeiro, ela subiu no palanque do pedetista e fez elogios a seu ex-ministro, que disputa uma vaga no Senado. Em entrevista ao Jornal Nacional, no início da semana, a presidente se negou a opinar sobre a postura acolhedora do PT em relação aos mensaleiros presos – tratados como heróis pelo partido.

Ombro-amigo – Quando é a Petrobras quem está no centro de graves denúncias, Dilma também tem se mostrado um ombro-amigo. A presidente da estatal, Graça Foster, pode ter os bens bloqueados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por causa de irregularidades na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Além disso, a executiva se encontra na delicada posição de ter de explicar porque doou seus bens aos filhos logo depois que o escândalo de Pasadena deu indícios de que acabaria no Congresso. Contudo, para Dilma, está tudo bem. “A presidente Graça Foster respondeu perfeitamente sobre a questão dos seus bens numa nota oficial. Eu repudio completamente a tentativa de fazer com que a Graça se torne uma pessoa que não possa exercer a presidência da Petrobras”, afirmou a petista, na quinta-feira. À defesa quase fraterna da presidente soma-se seu silêncio sobre a farsa da CPI da estatal, revelada por VEJA, que mostrou a articulação de nomes do alto escalão do Palácio do Planalto e da estatal para combinar com os investigados as respostas às perguntas dos parlamentares.

As imagens vendidas nas eleições de 2010 se perderam ao longo do caminho. Os números declinantes do cenário econômico, as más escolhas para postos-chave de sua equipe, o inchaço proposital da máquina pública e o fracasso na missão de dinamizar a economia tiraram de Dilma – que nunca foi uma boa política – um de seus principais trunfos de quatro anos atrás. Não há indícios, até o momento, de que um segundo mandato traga mudanças.

Com reportagem de Luís Lima

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