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A falsa confissão do FMI

Para ex-economista do Fundo, pedido de desculpas de Lagarde ao primeiro-ministro britânico foi um erro

Por Ashoka Mody - 25 jun 2014, 07h26

“Eu preciso me ajoelhar?”, disse a diretora-executiva do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, em resposta a uma pergunta feita pelo jornalista Andrew Marr, da BBC. Lagarde estava se desculpando pelos erros do FMI em suas previsões de desempenho econômico recente do Reino Unido e, mais seriamente, por suas críticas anteriores ao programa de austeridade fiscal do governo do primeiro-ministro David Cameron. Agora que essas críticas se transformaram em apoio à austeridade britânica, Lagarde afirmou que o programa de austeridade, ao gerar mais confiança no futuro da economia do Reino Unido, foi um estímulo à recuperação recente.

O pedido de desculpas de Lagarde é um fato sem precedentes, corajoso e equivocado. Ao pronunciá-lo, o FMI comprometeu-se com um princípio econômico que goza de um enorme respaldo acadêmico: de que a “Fada Confiança” não existe. E, cedendo à pressão do Reino Unido, o Fundo prejudicou seu único verdadeiro ativo – sua independência.

O FMI se esquivou da responsabilidade por erros de previsão muito mais graves, incluindo sua incapacidade de antecipar todas as grandes crises de última geração, desde a do México em 1994-1995 ao quase colapso do sistema financeiro global em 2008. De fato, durante os 6 a 12 meses que precederam cada crise, o FMI não havia anunciado nenhuma mudança significativa.

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Há quem diga que o Fundo aconselha países em privado, para não desencadear com as advertências públicas a mesma crise que procuram evitar. No entanto, o veterano historiador residente do FMI, James Boughton, encontrou pouca evidência a favor dessa tese nos documentos internos do FMI (com possível exceção da Tailândia, em 1997). E o parecer do gabinete de avaliação Interna do FMI ao analisa por que o Fundo não advertiu o surgimento o surgimento da crise das hipotecas de risco nos Estados Unidos é diretamente mais crítico.

Em seu caráter de guardião designado a velar pela estabilidade financeira mundial, a incapacidade do FMI em advertir e antecipar essas crises implica em um erro muito mais grave do que a sua postura com relação ao programa de austeridade britânico, um erro ao qual se derivam custos enormes para muitas pessoas, especialmente para as mais vulneráveis. Por esses erros, o FMI jamais pediu desculpas, menos ainda com a humildade da recente declaração de Lagarde.

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O FMI faz bem em refletir sobre seus erros. Em seu discurso pronunciado em setembro de 2003, em Kuala Lumpur, o então diretor-geral do Fundo Monetário Internacional, Horst Köhler, admitiu que as aplicações temporárias sobre os controles de capitais podem ajudar um país a mitigar os efeitos do fluxo de capital volátil do resto do mundo. Aparentemente ele reconheceu que o Fundo estava errado ao criticar a Malásia pela imposição de tais controles no pior momento da crise asiática. Entre os países afetados por essa crise, a Malásia optou por não pedir a ajuda do Fundo e saiu da crise pelo menos tão bem quanto os outros que o fizeram.

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A imposição de controles sobre a saída de capitais adotados pela Malásia foi uma decisão política controversa. O FMI se opôs, mas economistas proeminentes – entre eles Paul Krugman – aprovaram a medida. Em seu discurso, Köhler declarou que o Fundo havia tomado nota dessa experiência e irá incorporá-la em suas recomendações futuras.

No entanto, no contexto da crise atual, a evidência acadêmica esmagadoramente mostrou que a austeridade fiscal provoca exatamente o que os manuais de economia dizem: quanto mais severa a austeridade, maior o freio sobre o crescimento. Há uma série de estudos que confirmam essa proposta, entre eles um formulado pelo economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, que esses trabalhos resistiram à crítica considerável e deixaram pouco espaço para ambiguidade.

As duas vozes públicas que defendem as propriedades mágicas de austeridade são organismos oficiais, com base na Europa: a OCDE e a Comissão Europeia. A postura da Comissão, em particular, obedece a um compromisso institucional de um ponto de vista em matéria fiscal que não deixa espaço para provas.

Entre as economias do G-7, a Itália é a única que foi pior que o Reino Unido desde o inicio Grande Recessão. De fato, o Reino Unido levou todos esses anos para recuperar o PIB de 2008, ficando ainda atrás até da França.

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O mais marcante do caso é que no Reino Unido, a crise foi relativamente suave. A queda dos preços no mercado imobiliário foi modesta em relação à Irlanda e Espanha, e, como não havia nenhum boom de construção, tampouco houve uma queda abrupta. Embora no início o governo britânico tenha ignorado os sinais de alerta do banco Northern Rock, que teve de resgar após uma corrida aos depósitos em setembro de 2007, logo atuou rapidamente para proteger os bancos locais com problemas, ao contrário de seus homólogos na zona euro. Por estas razões, o Reino Unido deveria ter tido uma recuperação rápida, mas frearam as desnecessárias medidas de austeridade do governo de Cameron.

O pedido de desculpas do FMI foi um erro por dois motivos. O primeiro é que nunca é uma boa ideia depreciar as evidências acadêmicas, mas especialmente no caso de uma instituição que como o FMI depende tão fortemente da credibilidade em sua capacidade técnica e sua neutralidade. Se as ideias econômicas do Fundo são confusas, com que argumentos defenderá as políticas que recomenda?

Além disso, escolher bajular a política errônea do Reino Unido, o Fundo confirmou sua preferência aos seus principais acionistas. Durante muitos anos acreditou-se que o FMI é apenas um instrumento da política externa dos Estados Unidos e também é notória sua tolerância na avaliação anual das políticas econômicas do Reino Unido.

Mas levando em conta esse último passo, o FMI prejudicou – talvez fatalmente – sua capacidade de dizer “a verdade a quem detém o poder”. Talvez, então seja inevitável fazer uma pergunta básica: Por que e para quem existe o FMI?

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Ashoka Mody, ex-chefe de Missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a Alemanha e Irlanda, atualmente é professor visitante de Economia e Política Internacional na Woodrow Wilson School of Public and International Affairs, da Universidade de Princeton.

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate 2014

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