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A equação entre inflação e juros atrapalha plano eleitoral de Bolsonaro

Alta nos preços pode diminuir espaço no Orçamento; controle da inflação está nas mãos do BC independente, que impede uso eleitoreiro da política monetária

Por Victor Irajá Atualizado em 24 ago 2021, 15h27 - Publicado em 24 ago 2021, 15h04

O presidente Jair Bolsonaro está incomodado. A inflação, que elevou o custo de vida, consome a sua popularidade e o ministro da Economia, Paulo Guedes, vira-se o quanto consegue para aplainar o terreno para o capitão para as eleições do ano que vem, mas a conta não é simples.  A Lei de Diretrizes Orçamentárias, publicada na segunda-feira, 23, no Diário Oficial da União (DOU) utilizou a meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano, de inflação a 3,5%. É sabido, entretanto, que a realidade está bem distante da meta: depois de atingir o pico de 8,99% em julho, o mercado financeiro projeta que o Índice Geral de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrará o ano em 7,11%. Logo, a inflação, que corrige gastos do governo, deve ser maior que as diretrizes, diminuindo espaço para que projetos de caráter eleitoreiro saiam do papel.

Além disso, o controle inflacionário está mais nas mãos do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, do que no Ministério da Economia. Para segurar a inflação, o BC deve continuar subindo juros, às custas ao crescimento econômico. “Com os juros altos, o custo do capital e do crédito vão estar elevados, o que significa redução da produção”, explica Ernesto Lozardo, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Os setores não conseguirão repassar esse preço, porque a sociedade está empobrecida. Portanto, corta produção, desemprega, porque não tem como. É possível atingir o teto da meta, mantendo uma taxa de juros alta”, afirma.

É um caminho tortuoso, mas provável depois de o BC estar formalmente descolado da Presidência da República. É sabido que Bolsonaro toma café da manhã, almoça e janta pensando em eleições e que presidentes em busca de recondução ao cargo gostam de juros baixos e de estímulos artificiais para a economia. No entanto, a autonomia do BC, sancionada em fevereiro, impede que o presidente use a autarquia como ferramenta eleitoral. Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal deve analisar a constitucionalidade da autonomia do BC.

Durante a gestão de Dilma Rousseff, o então presidente do BC, Alexandre Tombini, foi acusado de curvar-se à presidente e segurar a taxa de juros, para mantê-la em patamares mais baixos, uma das muitas razões para a crise econômica e o pico inflacionário vistos entre 2015 e 2016. Aliados garantem que Bolsonaro nunca debruçou-se como devia sobre o projeto de autonomia do BC e não tem apreço pela aprovação.

O BC pode ser criticado pelo atraso na subida das taxas para controlar a inflação, seguindo a cartilha de Guedes de juros baixos para fomentar o crescimento e as exportações. Mas a responsabilidade não pode ser despejada exclusivamente na autoridade monetária. “A inflação tem componentes importantes. A crise hídrica, a descontinuidade da cadeia produtiva no mundo, graças à pandemia. Combustível subindo, chegando a sete reais, também pelo preço internacional do petróleo”, afirma Lozardo. “As empresas não entregam por não ter insumo ou produtos. Não tendo, sobra inflação”, diz.

Mesmo nesse cenário, o Ministério da Economia deu uma sinalização importante. A LDO se compromete pela manutenção do teto de gastos e por conter despesas mesmo frente a gastos almejados pelo Palácio do Planalto. Antes da inflação sair do controle, porém, técnicos da pasta comandada por Guedes imaginavam que teriam um espaço maior para gastos não discricionários, as despesas que não são obrigatórias, no ano que vem. O crescimento do limite do teto de gastos é calculado pela inflação do meio do ano, mas os reajustes a serem pagos em custos de grande impacto, como a Previdência, são definidos pela inflação do fim do ano. Assim, haveria uma sobra. O governo esperava um pico inflacionário entre junho e julho e um arrefecimento até dezembro, o que não vem acontecendo.

A pressão por aumento de gastos é bola cantada. Restam a Guedes a resistência ou, como tem indicado, trabalhar para que o presidente seja reeleito, mesmo que as consequências sejam prejudiciais para a economia. “Estávamos realmente decolando e agora há uma espécie de antecipação das eleições, que, evidentemente, tem impacto sobre as expectativas. Essa antecipação naturalmente prejudica. Causa muito barulho”, afirmou o ministro nesta segunda-feira 23. Não se sabe para quem foi o recado.

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