A cultura da cooperação faz Cerquilho liderar entre as pequenas cidades do Sudeste
O diálogo entre empresários e poder público ajudou a diversificar a economia, atrair investimentos e melhorar a qualidade de vida da população
Há cidades que crescem impulsionadas por um grande investimento. Outras dependem da chegada de uma empresa ou de um ciclo econômico favorável. Cerquilho, no interior paulista, seguiu um caminho diferente. Ao longo de décadas, construiu um ambiente em que empresários, poder público e comunidade passaram a atuar de forma coordenada, criando as bases para um desenvolvimento contínuo. O resultado aparece novamente no ranking elaborado pela Austin Rating para a VEJA NEGÓCIOS: o município voltou a ocupar a primeira colocação entre as pequenas cidades do Sudeste.
Se durante muitos anos a indústria e o comércio concentraram a maior parte da atividade econômica, os serviços ganharam força nos últimos anos, impulsionados pelos microempreendedores individuais. “O crescimento dos MEIs, especialmente nas áreas de beleza e bem-estar, ampliou a diversificação da economia local”, diz Elizandra Soares, presidente da Associação Comercial e Industrial de Cerquilho (Acic). “O empreendedorismo feminino também ganhou espaço nesse movimento.”
A vocação industrial de Cerquilho, porém, antecede esse novo ciclo. Com forte influência da imigração italiana e pouca aptidão para a agricultura, a cidade apostou cedo na indústria e no comércio. Ao longo das décadas, esse perfil formou um empresariado que reinvestiu na própria cidade e manteve uma relação próxima com a administração pública. Um dos símbolos dessa vocação é o polo de confecção infantil e infantojuvenil, que continua entre os principais motores da economia local. O setor, entretanto, enfrenta um desafio comum à indústria brasileira: a escassez de mão de obra qualificada. À frente da confecção La Moretta, Débora Moretti afirma que o problema se agravou após a pandemia. “Muitas costureiras deixaram a atividade nesse período e venderam suas máquinas, reduzindo a oferta de profissionais experientes”, diz ela. Para enfrentar esse gargalo, a Acic mantém parcerias com a prefeitura, o Sebrae, o Senai e empresas da região com o objetivo de ampliar a oferta de cursos técnicos e programas de qualificação.
A colaboração entre o setor produtivo e a administração municipal também ajuda a explicar a expansão de empresas locais. Fundada há 32 anos em Cerquilho, a fabricante de equipamentos para churrasco Artmill cresceu até ocupar uma área de quase 7 000 metros quadrados. Segundo o diretor Felipe Roberto dos Santos, a localização do município — a apenas 140 quilômetros da capital paulista — reduz custos logísticos e facilita a distribuição da produção. “Conseguimos fretes mais baratos”, afirma. O apoio do poder público também contribuiu para esse crescimento. Em linha com a política municipal de incentivo à expansão industrial, o terreno onde a empresa está instalada foi doado pela prefeitura. A estratégia permanece em curso. “Novos empreendimentos chegaram à cidade, empresas locais ampliaram suas operações e seguimos atraindo investimentos que fortalecem a economia de Cerquilho”, diz o prefeito Paulo Roberto Pilon (MDB).
Mas a cooperação entre empresas e a administração municipal vai além da atividade econômica. Companhias locais participam de projetos nas áreas de saúde, educação e esporte, criando uma rede de colaboração que, na avaliação dos empresários, ajuda a explicar os bons indicadores sociais do município. O conjunto de economia diversificada, contas públicas equilibradas e relações de confiança entre empresários, poder público e moradores justifica o fato de Cerquilho se manter no topo do ranking das pequenas cidades do Sudeste.
Publicado em VEJA, julho de 2026, edição VEJA Negócios nº 28







