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A corrida da IA: ‘desafio do Brasil é preparar milhões para a nova economia’, diz ex-Oracle

CEO SoulCode Academy, Carmela Borst alerta que tecnologia só reduzirá desigualdades se vier acompanhada de educação digital em larga escala

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 jul 2026, 14h42 | Atualizado em 15 jul 2026, 14h46
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A inteligência artificial pode criar uma nova fronteira de desigualdade no Brasil: a distância entre quem sabe usar a tecnologia para estudar, trabalhar e empreender e quem ficará excluído da transformação digital.

O alerta é de Carmela Borst, CEO e cofundadora da SoulCode Academy, que participa da edição de 2026 do SP2B (São Paulo Beyond Business), encontro internacional de inovação, negócios e tecnologia realizado em São Paulo, que reunirá líderes empresariais, pensadores e especialistas para discutir os desafios da economia do futuro entre os dias 9 e 16 de agosto.

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Com mais de duas décadas de experiência em multinacionais como a Oracle antes de fundar a SoulCode, Carmela deixou o universo corporativo para empreender na área de educação digital. Ela define sua trajetória atual como a de uma “empreendedora social” — alguém que busca combinar sustentabilidade financeira com impacto.

“É muito importante que as empresas aprendam a devolver para a sociedade. O propósito é importante de onde você vem”, afirma. Para ela, negócios não precisam escolher entre lucro e transformação social, mas devem encontrar modelos capazes de gerar valor econômico enquanto ampliam oportunidades.

A executiva aponta que o maior desafio brasileiro diante da inteligência artificial não é apenas a eventual substituição de empregos, mas a falta de preparação da população para utilizar essas ferramentas. Segundo Carmela, o país ainda enfrenta um déficit grave de competências digitais, o que pode aprofundar desigualdades históricas.

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“A nova desigualdade é essa desigualdade com inteligência artificial”, diz. Para ela, o debate evoluiu: se antes a inclusão digital significava garantir acesso à internet e a dispositivos, agora envolve ensinar as pessoas a usar a tecnologia para melhorar suas vidas. “A inteligência artificial é como a internet: é um caminho sem volta. Mas precisamos criar programas para que ela seja para todos e todas. E isso só acontece pela educação.”

A CEO defende que a requalificação profissional será determinante para o futuro do trabalho. Na sua avaliação, a tecnologia não necessariamente eliminará empregos, mas transformará profundamente as competências exigidas. O risco está em deixar milhões de pessoas sem acesso ao conhecimento necessário para acompanhar a mudança.

Carmela compara o momento atual ao processo de automação dos supermercados décadas atrás, quando sistemas informatizados substituíram tarefas, mas também criaram novas funções para trabalhadores capacitados. “Se a gente requalificar as pessoas, elas vão conseguir fazer mais rápido, diferente e usar a inteligência artificial a seu favor”, afirma.

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A transformação, segundo ela, atingirá praticamente todos os setores. Áreas como marketing, comunicação, agronegócio e serviços terão novas profissões associadas ao uso de dados e inteligência artificial. No campo, por exemplo, drones já coletam informações que precisam ser interpretadas por profissionais preparados para transformar dados em decisões.

A executiva também critica a distância entre o investimento das empresas em tecnologia e o investimento em pessoas. “A gente sabe quanto as empresas investem em infraestrutura, em nuvem, em inteligência artificial. Mas não temos claro quanto é investido em capacitação”, afirma.

Para Carmela, o caminho passa por uma visão mais ampla de educação, conectada à empregabilidade. A SoulCode mede seu impacto não apenas pelo número de alunos formados, mas pela quantidade de pessoas que conseguem gerar renda depois da formação. “A educação é importante, mas ela precisa ser convertida em geração de renda.”

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Essa lógica também vale para grupos tradicionalmente afastados do mercado de tecnologia. A empresa atua com jovens, pessoas com deficiência, profissionais acima de 50 anos e empreendedores em regiões fora dos grandes centros. Entre os exemplos citados por Carmela estão mulheres produtoras de biojoias na Amazônia e quebradeiras de coco babaçu que receberam treinamento digital para vender seus produtos em plataformas online.

Para quem está entrando agora no mercado de trabalho, a recomendação da executiva é desenvolver três capacidades: aprendizado contínuo, criatividade e disposição para devolver conhecimento à sociedade. “Estude, estude, estude. A inovação acontece constantemente”, afirma.

Apesar dos avanços, Carmela também chama atenção para outro desafio: a baixa presença feminina na tecnologia. Segundo ela, a mudança ainda depende de mais mulheres ocupando posições de liderança, investimento e empreendedorismo. “Eu precisei fazer isso a minha vida inteira como executiva: encontrar outras mulheres. E vou continuar fazendo.”

O objetivo para o Brasil, segundo a executiva, é ambicioso: deixar de estar entre os últimos países da América Latina em competências digitais para se tornar referência global. “Em 2035, sucesso seria estar entre os países do mundo com altas competências digitais”, afirma. “Esse deveria ser um projeto que todos nós deveríamos buscar juntos.”

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