A ciência que dá lucro: Fundação Butantan transforma a receita de vacinas e soros em novas pesquisas,
Com resultado líquido de 723 milhões de reais em 2025, empresa reverte lucro em fábricas e produtos voltados para a saúde pública
Vencedora do setor de saúde no ranking TOP30, a Fundação Butantan vem ampliando a capacidade de financiar pesquisas, produzir imunobiológicos e desenvolver terapias avançadas. Criada em 1989, é uma entidade privada sem fins lucrativos que administra recursos, contratos, compras, obras e parcerias para dar suporte ao Instituto Butantan, órgão público ligado ao governo de São Paulo. A receita obtida principalmente com a venda de vacinas e soros é reinvestida nas atividades e na infraestrutura do Instituto. Em 2025, a Fundação registrou receita líquida de 3,6 bilhões de reais e resultado líquido de 723 milhões. Parte desses recursos é destinada à expansão da infraestrutura. Em 2025, foram concluídas três unidades bioindustriais e iniciados ou licitados outros sete projetos, com entregas previstas de 2027 até 2029. As obras contratadas somam 2,8 bilhões de reais, divididos entre o caixa gerado pelas atividades produtivas da Fundação e o Novo PAC, do governo federal. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, por sua vez, superaram 370 milhões de reais.
No ano passado, o Butantan entregou 109 milhões de doses de imunobiológicos e obteve da Agência Nacional de Vigilância Sanitária o registro de duas vacinas, contra a dengue e contra a chikungunya. Desenvolvido ao longo de mais de duas décadas, o imunizante contra a dengue apresentou eficácia de 91,6% na prevenção de casos graves. O primeiro contrato com o Programa Nacional de Imunizações prevê 3,9 milhões de doses. Com a transferência de tecnologia para a chinesa WuXi Biologics, a capacidade poderá alcançar 25 milhões de unidades por ano. Criada em parceria com a franco-austríaca Valneva, a vacina contra a chikungunya amplia a atuação do Instituto no combate a doenças que atingem sobretudo países de renda baixa e média. Outra frente é uma vacina de RNA contra a raiva, desenvolvida com a startup californiana Replicate Bioscience. “Nossa fábrica de vacinas de RNA vai nos permitir absorver a manufatura de produtos emergenciais”, afirma Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan.
A Fundação ocupa papel decisivo na ciência brasileira ao reverter para o Instituto os recursos gerados pela venda de seus produtos. “O Butantan é um dos principais fornecedores do Ministério da Saúde e tem como missão ampliar a capacidade de produção para diminuir a dependência em relação a outros países”, diz Kallás. Além dos ganhos para a saúde pública, esse esforço reduz a vulnerabilidade tecnológica brasileira e fortalece uma cadeia capaz de transformar conhecimento científico em produtos fabricados em escala. Para Luis Fernando Joaquim, da consultoria Deloitte, pesquisa e inovação são essenciais não apenas para criar terapias, mas também para ampliar o acesso da população a tratamentos eficientes. No Butantan, esse trabalho une as duas instituições: o Instituto desenvolve os produtos, enquanto a Fundação financia a estrutura necessária para fabricá-los.
Publicado em VEJA, agosto de 2026, edição VEJA Negócios nº 29







