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A cidade que é a face mais visível da rápida multiplicação de trabalhadores chineses no Brasil

Nos últimos anos, a baiana Camaçari passou a receber engenheiros e técnicos chineses envolvidos na implantação do complexo da BYD

Por Ligia Moraes, de Camaçari 28 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 28 ago 2026, 10h41
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Em uma noite de sexta-feira, o futebol era brasileiro, mas o idioma em campo misturava português e mandarim. Sob os refletores da Epic Arena Boulevard, em Camaçari, cidade a 50 quilômetros de Salvador, funcionários da BYD, montadora de carros elétricos, disputavam um “baba”, como os baianos chamam a pelada entre amigos. Dos 22 jogadores, sete eram chineses. De meiões e chuteiras, eles não exibiam a mesma intimidade dos colegas brasileiros com a bola, mas compensavam com disposição. Entre os que aguardavam para entrar em campo estava Yang Zuopeng, de 40 anos, responsável por treinamento e inspeção de qualidade na montadora. Yang joga ali toda semana, mas a conversa com os brasileiros exige ajuda tecnológica. No celular, ele digita em mandarim e mostra na tela a tradução para o português. Foi assim que descreveu Camaçari como uma cidade “muito boa” e de gente acolhedora.

DIVERSIDADE - Funcionário chinês na BYD: cerca de 10% da força de trabalho
DIVERSIDADE - Funcionário chinês na BYD: cerca de 10% da força de trabalho (Claudio Gatti/.)

A cena no gramado sintético resume uma transformação maior. Nos últimos anos, a baiana Camaçari passou a receber engenheiros, técnicos e trabalhadores chineses envolvidos na implantação do complexo da BYD. Eles já ocupam quadras, restaurantes, supermercados, hotéis e condomínios. Aos poucos, integram-se à rotina local e ajudam a modificá-la. Os profissionais geralmente permanecem na cidade por dois ou três meses, em sistema de rodízio. A missão é transferir conhecimento e capacitar as equipes locais. O intercâmbio funciona também no sentido oposto: grupos de brasileiros viajam para a sede da BYD, em Shenzhen, onde passam por treinamentos de até sessenta dias.

A chegada da companhia chinesa encerrou um período de incerteza aberto em janeiro de 2021, quando a Ford fechou sua fábrica no município. No mesmo terreno, a BYD decidiu erguer sua principal operação industrial no Brasil. Anunciado em julho de 2023, o projeto prevê investimentos de 5,5 bilhões de reais e instalações que deverão alcançar 1 milhão de metros quadrados. Inaugurada oficialmente em outubro de 2025, a unidade já produziu mais de 110 000 veículos, e pode atingir uma capacidade de até 600 000 por ano. É a maior fábrica da BYD fora de seu país. Já foram contratados 6 700 funcionários. Cerca de 10% da força de trabalho é formada por chineses.

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Infográfico sobre o impacto econômico da fábrica BYD em Camaçari, Bahia. Inclui um gráfico de barras mostrando o número de trabalhadores chineses na Bahia de 2023 a 2026, com 115 em 2023, 2502 em 2024, 2707 em 2025 e 3437 em 2026. Um mapa da Bahia com um marcador vermelho em Camaçari. E dados sobre o impacto na cidade: 600 trabalhadores chineses moram na cidade, 3600 empregos formais criados no primeiro semestre de 2026, aumento de 17,5% na abertura de vagas, 4454 novas empresas abertas, 71,6% são MEIs, e aumento de 5% a 10% na arrecadação de tributos municipais

Camaçari é a face mais visível de um fenômeno que se espalha por outros polos industriais do país. Em 2025, foram concedidas 10 131 autorizações de trabalho a cidadãos chineses no Brasil, mais do que o triplo de 2023. Neste ano, as autorizações emitidas já somam 8 206. Impulsionada pela BYD, a Bahia assumiu a liderança nacional nos pedidos, com 3 736 registros, ou 45,5% do total, seguida por São Paulo, com 3 176. O movimento acompanha a expansão de companhias chinesas que trazem engenheiros, técnicos e gestores para instalar equipamentos e treinar brasileiros. Estão nesse mapa a montadora GWM, em Iracemápolis, no interior paulista, e as marcas XCMG, fabricante de máquinas para construção civil, mineração e agronegócio, e Midea, de eletrodomésticos, em Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais.

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O intenso fluxo de trabalhadores sazonais da China não ocorre sem percalços. Em 2024, uma fiscalização identificou mais de 160 chineses atuando em condições degradantes na construção da fábrica da BYD em Camaçari. Posteriormente, as empresas terceirizadas responsáveis pelos trabalhadores fecharam um acordo de indenização de 40 milhões de reais, tendo a BYD como fiadora. Neste ano, a montadora ficou de fora da “lista suja” de trabalho escravo do governo federal, com o argumento de que seu contrato com a empresa envolvida foi encerrado logo após as denúncias. Vez ou outra, surgem reclamações de trabalhadores brasileiros sobre a forma como alguns gestores chineses tratam as equipes. “Existe um choque grande de cultura trabalhista, mas isso está sendo ajustado aos poucos. A BYD chega ao Brasil com práticas adotadas na China e precisa se adaptar à nossa realidade. É uma questão de tempo”, diz Júlio Bonfim, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari.

BOAS-VINDAS - Supermercado Novo Mix: cartazes e promoções bilíngues
BOAS-VINDAS – Supermercado Novo Mix: cartazes e promoções bilíngues (Ricardo Borges/.)
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Pelo lado positivo, há reflexos econômicos da chegada da BYD que ultrapassam os portões da fábrica, com o aumento na geração de empregos formais, a abertura de novas empresas e o incremento na arrecadação de impostos municipais. O setor imobiliário também está aquecido. No Jardim Limoeiro e na região do Ponto Certo, apartamentos antes alugados por 700 reais mensais passaram a custar cerca de 1 500 reais. Pela manhã, grupos de trabalhadores deixam esses bairros em ônibus com destino ao complexo industrial da montadora. O aluguel de imóveis de alto padrão também dobrou. Engenheiros chineses costumam compartilhar casas mobiliadas por até 15 000 reais mensais em condomínios fechados. Para resolver o gargalo da moradia, a própria BYD constrói, a 3,5 quilômetros da fábrica, um conjunto residencial destinado a seus funcionários. Inspirado em um modelo adotado em Shenzhen, o projeto ocupa 81 000 metros quadrados e terá capacidade para acolher um total de até 4 200 pessoas. No canteiro, avisos como “homens trabalhando” e “risco de queda de material” aparecem em português e mandarim.

A necessidade de se comunicar com os novos moradores da cidade baiana se estende ao comércio. No Boulevard Shopping Camaçari, a mudança está impressa no cardápio do Spoleto. Inaugurado no fim de julho, o restaurante se tornou o primeiro da rede de massas a oferecer um menu em mandarim. Contudo, há o desafio de encontrar mão de obra. Leandro Caribé, dono do estabelecimento, conta que entrevistou 120 candidatos para formar sua equipe de doze pessoas, mas muitos desistiram diante da possibilidade de conseguir uma vaga na montadora.

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PORTUGUÊS COMO META - Yang Zuopeng, de 40 anos, trabalha com gestão e treinamento de inspeção de qualidade na BYD. Ele costuma jogar futebol com os amigos e correr diariamente. “Pretendo intensificar os estudos de português para melhorar a comunicação com as pessoas daqui, que são muito legais”, diz Yang, que define Camaçari como uma cidade muito boa de viver.
PORTUGUÊS COMO META – Yang Zuopeng, de 40 anos, trabalha com gestão e treinamento de inspeção de qualidade na BYD. Ele costuma jogar futebol com os amigos e correr diariamente. “Pretendo intensificar os estudos de português para melhorar a comunicação com as pessoas daqui, que são muito legais”, diz Yang, que define Camaçari como uma cidade muito boa de viver. (Ricardo Borges/.)

O supermercado Novo Mix também passou a exibir placas na língua dos recém-chegados. As compras muitas vezes se destinam a cozinhas coletivas que atendem os trabalhadores chineses. “Em um único pedido, podem sair dez porcos ou vinte caixas de repolho”, diz Cheila Vieira, presidente da rede Novo Mix. De olho nas oportunidades abertas pela chegada da BYD, também os moradores de Camaçari passaram a se aventurar no mandarim. A primeira turma do Centro de Artes, Idiomas e Saberes, inaugurado em novembro passado, reúne dezoito alunos, entre engenheiros, funcionários de companhias chinesas e jovens que esperam conquistar uma vaga nesse mercado.

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A prefeitura, por sua vez, pretende aproveitar a tecnologia trazida pela montadora para modernizar os serviços públicos. Os planos incluem semáforos inteligentes, ampliação do sistema de câmeras, novas ferramentas para saúde e educação e uma frota de ônibus elétricos, em parceria com a BYD e o governo estadual. Historicamente associado às indústrias petroquímica e automobilística, o município busca se consolidar como polo de mobilidade elétrica e transição energética. “Queremos transformar Camaçari na cidade mais elétrica do Brasil”, diz o prefeito Luiz Carlos Caetano. Elétrica e diversa — como se pode comprovar pelo fim de tarde do bairro Inocoop, onde chineses se reúnem nos bares para beber cerveja e comer petiscos tipicamente brasileiros. Entre partidas animadas de futebol, passeios no shopping e a mesa de bar, eles descobrem uma cidade que também aprende a recebê-los.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

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