A agenda do consenso: o cenário apresentado no VEJA Fórum de Infraestrutura 2026
Aumento de parcerias entre governos e empresas pode levar o país a um novo recorde de investimentos em obras, segundo participantes do evento
No ano passado, os investimentos em infraestrutura alcançaram a cifra recorde de 280 bilhões de reais — em 2026, a previsão é de 300 bilhões. O boom é liderado pelas empresas privadas, que há anos respondem pela maior fatia dos recursos e aportaram 70% do capital em 2025, podendo chegar a 72% neste ano. Na base dessa arrancada, está uma profunda mudança de mentalidade do poder público, que passou a enxergar o capital privado como um forte aliado no desenvolvimento nacional. A boa vontade supera divergências ideológicas e se espalha inclusive por governos de esquerda, historicamente avessos à ideia. “Graças às parcerias público-privadas, o PIB do nosso estado cresce acima da média nacional”, afirma Elmano de Freitas, do PT, governador do Ceará. “Buscamos sinergias com o setor privado.” A nova atitude favorece também a resolução de conflitos por meio do diálogo entre governos e empresas, o que melhora a segurança jurídica dos contratos de concessão, reduz custos e amplia o interesse dos investidores. Esse é o novo — e promissor — cenário apresentado no VEJA Fórum de Infraestrutura 2026: Uma Agenda para o Futuro, promovido no fim de março, em São Paulo, por VEJA e VEJA NEGÓCIOS, reunindo autoridades, empresários e especialistas do setor.
Uma das iniciativas destacadas pelos participantes é a Secretaria de Controle Externo de Solução Consensual e Prevenção de Conflitos, do Tribunal de Contas da União. Criado em 2022 pelo ministro Bruno Dantas, quando ainda presidia a Corte, o órgão caiu no gosto de entes públicos e privados por oferecer uma via rápida e segura de resolução de divergências para reequilibrar contratos de concessão encrencados. “Os auditores não podem se limitar a apontar problemas”, disse Dantas. “Eles devem buscar soluções.” Um êxito recente da secretaria foi o acordo entre o Ministério de Portos e Aeroportos, a Agência Nacional de Aviação Civil e a RIOgaleão, concessionária que administrava desde 2013 o Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro. O acordo viabilizou a relicitação do Galeão, realizada na segunda-feira 30 e vencida pela espanhola Aena (leia a reportagem na pág. 46). “A cultura de consensualismo contribui para a solução de problemas históricos dos contratos, o que favorece novos investimentos”, disse Tomé Franca, então secretário-executivo do Ministério de Portos e Aeroportos e depois confirmado como novo titular da pasta.
O potencial destravado é imenso. Em São Paulo, os recursos destinados a infraestrutura saltaram de 8 bilhões de reais para mais de 30 bilhões por ano. “É o maior nível de investimentos da história, equivalente a 12% da receita corrente”, destacou o governador Tarcísio de Freitas, citando que os projetos contratados somam 394 bilhões de reais. “Temos um programa vigoroso de concessões e privatizações que gera muito resultado.” É o caso da Sabesp, concessionária de saneamento em 375 municípios paulistas, incluindo a capital. Privatizada em 2024, ela investirá 70 bilhões de reais até 2029 para universalizar os serviços. “A governança agora foca em resultados”, disse Samanta Souza, diretora de relações institucionais.
O cenário mais amigável anima as empresas. “Houve uma evolução grande nos contratos de concessões e PPPs”, disse André De Angelo, presidente da Acciona, responsável por projetos de mobilidade como a construção e operação da Linha 6 do Metrô de São Paulo. “Com isso, os investidores vêm em peso para os leilões.” É claro que ainda há muitos desafios de infraestrutura, tais como a expansão das hidrovias. “Promover a intermodalidade logística é crucial para o país”, afirmou André Hachem, diretor financeiro da Hidrovias do Brasil. Segundo os especialistas, o país deveria investir 500 bilhões de reais por ano em infraestrutura para crescer mais. O fórum de VEJA mostrou o caminho para alcançar essa desejável marca.
Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989







