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Visitamos o set de ‘Delegacia de Homicídios’, 1ª série policial brasileira do Disney+

Projeto foi idealizado pela AfroReggae, produtora que elevou o realismo do gênero ao dissecar as peculiaridades do combate ao crime no Rio

Por Kelly Miyashiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 set 2026, 06h00 | Atualizado em 11 set 2026, 11h32
Visitamos o set de ‘Delegacia de Homicídios’, 1ª série policial brasileira do Disney+ Priorize VEJA no Google

Das janelas de suas casas, moradores do Morro do Cantagalo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, testemunham um tiroteio brutal. A cena se tornou corriqueira — não se trata, contudo, da violência que assola comunidades cariocas e se repete nos noticiários criminais, mas, sim, da gravação de Delegacia de Homicídios, a primeira série policial brasileira do Disney+. Marcada para estrear em 2027, a superprodução promete altas doses de realismo. Para isso, transitam no set um curioso grupo de pessoas: durante um dia de filmagem, a reportagem de VEJA conheceu no local egressos do sistema prisional, talentos das periferias e autoridades policiais, como tenentes e investigadores. Para atingir a precisão do cotidiano policial carioca, a série foi além dos estereótipos, lançando um olhar de dentro para fora. “Contamos histórias através de quem deve contá-las, dos que vivem aqui”, disse o diretor Lucas Villamarim.

AÇÃO - Júnior (à esq.) e Lucas Villamarim: criador e diretor atentos aos detalhes
AÇÃO - Júnior (à esq.) e Lucas Villamarim: criador e diretor atentos aos detalhes (./Disney+)

O feito está ligado ao trabalho da AfroReggae. Nascida em 1993 como uma ONG que promovia atividades socioculturais a jovens periféricos do Rio, hoje se tornou uma produtora com forte atuação na indústria do audiovisual, sendo responsável por títulos de sucesso como as séries A Divisão e Arcanjo Renegado, ambos no Globoplay. Nesses projetos seu idealizador, José Júnior, mantém o DNA do grupo voltado para a ressocialização. “Aquele papel que a ONU deveria ter de mediar conflitos e não faz, nós fazemos no Rio”, disse ele a VEJA. “Conseguimos criar uma convivência entre ex-detentos e policiais.” Essa política da boa vizinhança ajuda, ainda, no acesso às comunidades, onde as produções são rodadas. “Eu não faço acordo com chefes do crime. Eu comunico que vou gravar, e é isso”, garante Júnior.

CONTRAPONTO - Vanessa Giacomo interpreta a investigadora Marina: casos a serem desvendados
CONTRAPONTO - Vanessa Giacomo interpreta a investigadora Marina: casos a serem desvendados (./Disney+)
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O fascínio sobre a vida no morro é antigo. O Cinema Novo observou o cotidiano local de forma romantizada, entre os anos 1950 e 1960, antes do tráfico de drogas transformar as comunidades em cenários de guerra. Em 2002, Cidade de Deus, filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, virou o jogo estabelecendo o marco zero do que a crítica batizou de favela movie, expressão cunhada para definir as produções que têm as comunidades e periferias urbanas como cenário principal — e até como personagem. O longa indicado ao Oscar expôs a crueza sedutora do crime para jovens sem perspectivas, com estética visceral, ágil e pop, transformando a complexidade social da capital fluminense em força motriz de entretenimento — mas sem perder a pegada crítica. Boa parte do elenco de Cidade de Deus era composta de moradores da comunidade — revelando talentos ainda hoje em atividade, como Seu Jorge, Alexandre Rodrigues e Leandro Firmino.

AÇÃO - Melo Jr. em Arcanjo Renegado, do Globoplay: milícias vistas por dentro
AÇÃO - Melo Jr. em Arcanjo Renegado, do Globoplay: milícias vistas por dentro (Globoplay/.)
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Duas décadas depois, a televisão e as plataformas de streaming herdam esse legado, mas com uma camada extra de sofisticação e ambição. Delegacia de Homicídios, por exemplo, vai explorar o âmbito da investigação criminal em um ambiente no qual um delito se sobrepõe a outro. Em uma sequência de ação, o policial Patrício, papel de Marcello Melo Jr., busca uma testemunha vivida por Juliane Araújo para depor. A missão é afetada por um confronto com bandidos fortemente armados no meio do caminho. A série marca a boa parceria de Melo Jr. com a AfroReggae — ele também protagoniza Arcanjo Renegado, que chega a sua quinta temporada neste ano, na pele de um agente do Bope que se revolta contra a corrupção dentro das instituições policiais e de suas conexões com milicianos. “O Patrício de Delegacia é mais solar, enquanto o Mikhael de Arcanjo é mais traumatizado pelo que viveu”, disse ele, distinguindo os dois mocinhos.

INÍCIO - Cidade de Deus: o filme de Fernando Meirelles moldou o favela movie
INÍCIO - Cidade de Deus: o filme de Fernando Meirelles moldou o favela movie (./Divulgação)
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Agora, o ator divide o protagonismo com Vanessa Giacomo, que interpreta a investigadora Marina. “Ele vem da Polícia Militar, do confronto, já a Marina é o oposto, protocolar. Vira uma briga de gato e rato entre eles”, explica a atriz sobre a dinâmica do duo, um dos temperos do roteiro. Também no elenco está Marcelo Serrado, como o chefe dos agentes. “Entramos na comunidade e precisamos respeitar quem está aqui”, disse sobre a experiência. Ao ganhar entretenimento de qualidade, o público terá também a chance de abrir os olhos para a realidade de pessoas comuns, seus desejos e possibilidades longe de filmes estereotipados. “Ao nos aproximarmos da realidade, espero criar um novo entendimento sobre o morro”, diz Villamarim. O resultado é uma indústria fervilhante de ideias e talentos, pronta para dissecar a vida como ela é.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012

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