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‘Vida Selvagem’ investiga como convicções separam pessoas

Baseado na história real da família de Xavier Fortin, que sequestrou os filhos e os criou longe da mãe – e da sociedade de consumo – por onze anos, na França, longa de Cédric Kahn está em cartaz em SP, Vitória e Porto Alegre

Por Maria Carolina Maia 23 jun 2016, 16h59

Quando o francês Xavier Fortin sequestrou os próprios filhos para brigar pela guarda dos meninos e ensiná-los a viver dentro de um estilo mais natural, apartado da sociedade de consumo, não podia imaginar que a sua decisão se estenderia por tanto tempo, afetaria de maneira tão drástica a relação dos garotos com a mãe e contribuiria para uma discussão sobre a voz das crianças em um litígio como o que teve com Catherine Martin, sua companheira de ideologia por pelo menos sete anos – Shahi’Yena e Okwari tinham seis e cinco anos, respectivamente, quando Katia, como é chamada, decidiu voltar para a vida urbana. A história, bastante conhecida na França, é tão complexa que o diretor Cédric Kahn teve de deixar muito de fora para finalizar Vida Selvagem, já em cartaz no país (mais abaixo), com quase duas horas de duração. Ainda assim, com uma história das mais incríveis e prenhe de questões cósmicas e morais, quase uma anti-fábula, é um filme que vale a pena assistir.

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O longa tem início com a fuga de Catherine, aqui rebatizada de Nora (a ótima Céline Sallette), da Normandia para a Riviera Francesa, onde moram os pais, com os três filhos. Além de Shahi’Yena e Okwari, Katia tem Nicolas (no filme, Thomas), de um relacionamento anterior a Xavier, aqui Phillipe, ou Paco (o fabuloso Mathieu Kassovitz). Ele aparece em seguida para carregar todos de volta para a vida seminômade que levavam. Mas Nora é irredutível: para ela, o sonho acabou, as crianças estão mal alimentadas e devem receber uma educação convencional, na escola, e não com o pai, um ex-professor de ciência natural que faz as vezes de mestre polivalente dos meninos, em casa. O filme dá um salto e, um ano depois, vemos as crianças em um apartamento com a mãe, onde o pai vai buscá-las para passar o Natal com ele. Thomas, cansado da “guerra”, prefere ficar.

A “guerra” a que se refere Thomas é a batalha judicial que teve início com a separação do casal, em 1996. Primeiro, os meninos ficaram com o pai, por alguns meses, o que Kahn não mostra, talvez para ir direto ao sequestro principal — em entrevista concedida ao site Europe 1 por ocasião do lançamento do filme na França, Xavier disse que Katia foi a primeira a raptar os filhos, ao partir com eles da Normandia, sem avisar. Catherine conseguiu reverter a decisão judicial a seu favor e Xavier teve restrito o seu acesso às crianças. Foi por isso que, ao buscá-los no final de 1997, para passar o Natal, resolveu tomá-los para si. A ideia era passar um tempo maior com os garotos e dar uma lição em Katia e na justiça, como Paco diz no longa, aliás, escrito com base no livro em que Xavier e os dois filhos escreveram a sua história. Que lição seria essa, é difícil precisar. Xavier, que vive sob as próprias regras, tem leis particulares.

Shahi'Yena e Okwari em cartazes como procurados, quando crianças
Shahi’Yena e Okwari em cartazes como procurados, quando crianças VEJA

​Uma justificativa articulada é deitada em uma carta que Paco remete ao juiz do caso, quando se vê perseguido por policiais. A perseguição, aliás, seria uma constante pelos próximos onze anos, período em que Xavier e os filhos trocariam de endereço e de nome várias vezes — e mentiriam, dizendo que a mãe dos garotos estava morta, para não levantar suspeitas. Cédric Kahn consome o restante do roteiro, em parte, com essa fuga, mas também com os benefícios e os reveses de uma vida tão natural e à margem da lei. No começo dessa fase, veem-se cenas de traços idílicos, em que os meninos aprendem a produzir queijo, a pescar truta com a mão e a fazer fogo, e se abrigam da chuva com o pai, debaixo de uma árvore.

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Há também diálogos interessantes, como quando Paco é confrontado por outro homem, que questiona o fato de as crianças não irem à escola. “A lei diz que a educação é obrigatória, não a escola”, responde. E, de fato, Shahi’Yena e Okwari mais tarde defenderiam o pai, dizendo que, além de seguir todo o currículo escolar francês, pelas manhãs, à tarde Paco ensinava a eles jardinagem, marcenaria e cuidados com os animais, entre outras atividades.

Depois, como no lado B de um disco, há uma sucessão de conflitos. Paco pega no pé dos meninos, já com 17 e 18 anos, porque eles querem namorar e cortar o cabelo para cortejar garotas, aderindo a padrões burgueses de beleza e se expondo ao risco de serem encontrados. “Se você for pego, seu irmão vai para o reformatório”, diz ao mais velho. Os garotos reclamam do autoritarismo do pai e da sujeira onipresente: os animais soltam penas e pelos, para não falar de urina e de fezes. Há também conflitos com outras pessoas com que dividem espaço, como um grupo de punks, em um certo momento.

A situação, que piora quando o filho mais velho leva uma namoradinha para casa e o pai surge carregado de galinhas, desemboca em um rompimento entre eles. É aí, pelo que mostra o filme, que os garotos tomam conhecimento do drama da mãe – e também o espectador, já que Nora desaparece no meio do filme e retorna apenas no final. Ao pedir ao pai que os deixe partir para trabalhar em outro lugar, o filho mais novo pede o dinheiro que Paco sempre disse ter reservado para o dia em que eles pedissem para ver a mãe. Amargurado, o pai consente e diz ao garoto onde está escondido o valor. Ele vai até o celeiro e encontra, dentro de uma pasta, não apenas um envelope com dinheiro vivo, mas recortes de jornais e revistas em que Catherine aparece segurando as fotos dos filhos, em uma luta sem trégua para encontrá-los.

Falar mais seria contar o final do filme, que não acompanha os personagens para além do momento em que voltam à legalidade. Dos spoilers da vida real, pode-se dizer que o caso impactou sobremaneira o direito de família na França, ao dar voz aos filhos, que conseguiram tirar o pai da prisão depois de apenas dois meses de detenção. Colaborou para isso também, sem dúvida, a disposição de Catherine de abrir mão de uma nova briga judicial com Xavier para tentar se reaproximar dos garotos, que defendiam ferrenhamente a libertação do pai. Essa reaproximação, no entanto, não havia se dado até 2014, quando o filme chegou aos cinemas franceses. Shahi’Yena e Okwari moravam sozinhos, então, e pouco falavam com a mãe.

O filme, infelizmente, está em cartaz apenas em São Paulo (Reserva Cultural), em Porto Alegre (Cine Guion) e em Vitória no (Cine Jardins).

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