Valter Hugo Mãe alfineta a ignorância de outrora (e a atual) no livro ‘O Século dos Imbecis’
Sátira cruel e engraçada é o testemunho de um autor que entende sua sociedade, mas não se dobra ao paupérrimo espírito do tempo
Imagine uma sociedade em que as pessoas veneram suas celebridades, criticam-nas abertamente, mas também as invejam profundamente — e onde toda informação que circula é atravessada por boato, fé, espetáculo e julgamento. O ambiente deveras familiar na era das redes sociais é palco de O Século dos Imbecis, novo romance do escritor português Valter Hugo Mãe. Fábula cômica e também perturbadora, o livro se passa em uma vila fictícia em torno do Palácio da Malandrinha, num tempo sem data precisa, mas onde há menção a discos, a uma finada ditadura e à república.
Nesse local imaginário reinam o Marquês Agilulfo e sua esposa, nomeada apenas como Marquesa. Em torno deles, uma galeria de personagens com nomes deliciosamente extravagantes: Paciasso, Martinbon, Pier Paciugo, Omobon, Omobestia, Pestanzul. O Marquês tem uma característica insólita e filosófica: quanto mais sobe as montanhas, mais se ilumina, fala frases bonitas e profundas; mas quanto mais desce a montanha, mais emburrece. Esse microcosmo funciona como metáfora simples e poderosa dos tempos atuais, em que problemas complexos são simplificados numa opinião mal embasada, num post — e, como o próprio autor disse em entrevista, “é um circuito de redes sociais”, em que tudo é tratado sem reflexão e sem ponderação. Há uma terceira figura que habita o palácio, a Criada. Sem nome, mas prestativa e com um enorme espírito prático, ela é a única que compartilha a verdadeira intimidade do casal, os silêncios, as fraquezas, os segredos da casa. Ao longo da trama, sua presença cresce de forma vertiginosa e inevitável. Ela representa, segundo o autor, “a cultura das mãos” — aquela que, ao contrário dos nobres e da Vila, trabalha e faz, por isso carrega em si um futuro possível.
O romance é também um mea-culpa sobre o violento passado português, fiel à inflexão decolonial que atravessa hoje as artes e as ciências humanas, com uma nova interpretação do passado para explicar os dias atuais. Essa tendência já aparecia com força em As Doenças do Brasil (2021), outro de Mãe, obra que explora com linguagem lírica o violento impacto dos colonizadores sobre os povos originários e escravizados na formação do Brasil, um processo traumático que ainda não se resolveu. No livro atual, o escritor não poupa seus aristocratas. “O trabalho do Marquês era só sentar-se no varandim a pasmar. Os nobres herdavam tudo sem esforço. Eram descendentes dos grandes ladrões do reino, dos que mataram e escravizaram, dos que trouxeram o ouro do Brasil.” A decadência dessa elite sem futuro, mas ainda com pose, é retratada com ironia impiedosa, com nobres falidos numa república, esvaziados de função e de sentido, mas apegados à memória de uma grandeza que nunca foi sua, mas de seus antepassados distantes.
A escrita é um prazer à parte. A prosa lusitana evoca grafias deliciosas — húmidas, indemnizações, objectividade — e apresenta para os leitores brasileiros regionalismos portugueses como badagaio (piripaque), fanico (chilique), mealheiro (cofrinho) e morcão (otário). Numa era de emojis e comunicação pasteurizada, essa opção é literária e política. Um dos escritores em língua portuguesa mais celebrados da atualidade, Mãe faz, aqui, um diagnóstico acurado e amargo dos tempos atuais: “Somos do século da informação, mas não do século da felicidade. Não somos sequer do século do conhecimento. Porque mantemos o que há a saber fora de nossa cabeça e, pior, fora de nossa conduta”. Em um mundo inundado por comunicações instantâneas e celulares sempre à mão, a literatura filosófica e reflexiva é um antídoto ao brain rot. Essa sátira cruel e engraçada é o testemunho de um autor que entende sua sociedade, mas não se dobra ao paupérrimo espírito do tempo.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004







