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‘Uma revolução’, diz cantora que ajudou a romper tabu no Carnaval

Tiana dos Santos, de 73 anos, integrou coro feminino da Leandro de Itaquera, em 1992, puxado por Eliana de Lima

Por Alex Xavier Atualizado em 10 fev 2018, 13h15 - Publicado em 10 fev 2018, 13h11

O Carnaval paulistano de 1992 foi um marco para as mulheres do samba. Quando entrou no Sambódromo, a Leandro de Itaquera empolgou as arquibancadas conduzida apenas por vozes femininas. Atrás da puxadora Eliana de Lima, que, desde o fim da década de 80, ganhou o microfone em um ambiente ainda muito machista, faziam história a cantora Sebastiana Antônio dos Santos e sua sobrinha Luciana. Tal feito, que rompeu com a domínio masculino na avenida, só foi reconhecido no fim de 2017, quando finalmente Sebastiana, mais conhecida como Tiana, ganhou aos 73 anos o título de “imperatriz do samba” concedido pelo governo do Estado.

“Não estou acostumada a usar faixa”, diverte-se a artista, que conta já ter esquecido o apetrecho em casa ao comparecer a um evento oficial da Liga das Escolas de Samba. Integrante da Velha-Guarda da Mocidade Alegre, ela conta que o convite para fazer o coro da Leandro surgiu de última hora, graças a um amigo em comum, porque Eliana ficou rouca e precisaria de apoio. “Eu nem sabia o samba-enredo. Ela nos ensinou dentro do carro, durante uma viagem para um show, na quinta-feira antes do desfile.” A correria valeu a pena e as três mudaram o panorama, abrindo caminho nas escolas para outras cantoras.

Tiana Santos
Tiana relembra como foi parar no coro revolucionário de Eliana de Lima, em 1992 Heitor Feitosa/VEJA.com

Na época, Tiana já era bastante experiente, dentro e fora do ambiente carnavalesco. Desde a infância, em Londrina, no norte do Paraná, ela cantava. A princípio, sertanejo, fazendo dupla com o irmão, Adauto Santos, que mais tarde ficaria conhecido na noite paulistana ao entoar Triste Berrante, de Pena Branca e Xavantinho. Juntos, interpretavam os sucessos de Cascatinha e Inhana, casal de músicos que acabaram conhecendo e os convidou para abrir para eles em shows pelo país. “A gente chegou a passar dois meses fora viajando. Nossa mãe achava que iam nos roubar dela e mandou gente atrás”, lembra.

  • Em 1962, aos 18 anos, casou-se e se afastou dos palcos para se dedicar ao casal de filhos, que também vieram cedo. Mas não deu as costas à música. Na mesma época, começou a sair no Carnaval londrinense, na escola Chão de Estrela, criada pelo seu marido, o músico Osmar Novaes, e seu cunhado, Paulo Novais. “Antes, eu era louca para desfilar e meu pai não deixava. Então, no primeiro ano de casada, fui com tudo para a avenida”, comemora.

    Tinha um dogma que só homem podia cantar. Então, a Eliana entra puxando com duas mulheres no coro, foi uma revolução. Agora mudou, tem muita mulher envolvida em todas as áreas, aqui e no Rio.

    Mesmo depois de 1965, quando a família se mudou para São Paulo, eles voltavam todo Carnaval ao Paraná para defender a agremiação. “O Osmar era amigo do grupo Originais do Samba, que nos levou para a Mocidade Alegre. A nossa turma ensaiava junto com eles e o Juarez da Cruz (que fundou a escola em 1967) também emprestava as fantasias, a gente adaptava e levava para Londrina”.

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    Tiana dos Santos
    A cantora tornou-se imperatriz do samba, mas ainda não se acostumou à faixa Heitor Feitosa/VEJA.com

    Cansada de vencer o Carnaval londrinense quase todos os anos, em 1984, adotou de vez a Mocidade. Já havia se estabelecido como crooner, quando veio a experiência inovadora na Leandro de Itaquera. “Tinha um dogma que só homem podia cantar”, lembra. “Então, a Eliana entra puxando com duas mulheres no coro, foi uma revolução. Agora mudou, tem muita mulher envolvida em todas as áreas, aqui e no Rio.”

    Apesar de tudo, só em 2005 ela cantou pela primeira vez para a escola do coração. Naquele ano, eles homenagearam Clara Nunes e Tiana entrou vestida como a artista para fazer a abertura de enredo com uma música dela. “Até hoje, a Solange (presidente da escola) me deve o vídeo desse dia”, cobra, rindo.

    Ela havia voltado a cantar profissionalmente no início dos anos 1970. Primeiro, apresentando-se semanalmente no Chacrinha. “No começo, falei para o meu irmão: ‘Se ele vier com aquelas palhaçadas de abacaxi para o meu lado, jogo na cabeça dele’”, disse, desconfiada, ao receber o convite. “Mas ele era um pai para a gente. Eu ia ao Rio gravar e a produção me hospedava no Copacabana Palace. Nem vou ver o filme que estão fazendo sobre ele porque acho que só vou chorar.” Também fez outros programas de auditório, como Silvio Santos, Bolinha e Moacyr Franco.

    Tiana dos Santos
    A cantora tornou-se imperatriz do samba, mas ainda não se acostumou à faixa Heitor Feitosa/VEJA.com

    Antes de se estabelecer no Limão, Tiana chegou a ter, como vizinho, o clássico grupo Demônios da Garoa, na Casa Verde. Ouviu muita serenata deles e conheceu Adoniran Barbosa. O samba a rodeava. Encontrou seu lugar, porém, na noite de São Paulo, interpretando MPB em bares como o Teleco Teco e o III Whisky, ambos no Bixiga, e o Jogral, na Consolação.

    “No passado, o artista era muito valorizado, as pessoas iam lá só para nos ouvir, não como agora, que quase ninguém presta atenção”, constata, saudosa. “Às vezes, a gente fazia até três entradas em dois bares diferentes na mesma noite, com as casas lotadas.” Ela ainda canta em bares, quase sempre, às quintas, soltando seu repertório favorito com Clara Nunes, Beth Carvalho e Alcione. Esta última é a homenageada do samba-enredo da Mocidade nesse Carnaval.

    Na escola, Tiana prefere se afastar do microfone um pouco e apenas acompanhar a evolução das novas gerações. Como duas netas que coordenam, há cinco anos, a ala Chão de Estrela – homenagem à antiga escola paranaense dos avós. Até bisneto, ainda miúdo, já está desfilando. Também tem filho na Vai-Vai e gosta de manter uma boa relação com as agremiações rivais. “Antes de tudo, sou sambista”, defende. “Tem que fazer amizade em todos os lugares”. Onde quer que vá, vai sempre ouvir pedido para cantar. Mas, na Velha Guarda, preserva a garganta e só puxa um samba-enredo por amizade. “Não canto, sou imperatriz, tenho até faixa agora”, brinca.

    Tiana dos Santos
    Tiana dos Santos, interprete e integrante da Velha Guarda da Mocidade Alegre Heitor Feitosa/VEJA.com
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