Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Uma nova onda de música soul desperta a rivalidade entre EUA e Inglaterra

O estilo criado no fim dos anos 1950 e que se tornou ícone da canção americana vive uma fase de renovação e consolidação de nomes esquecidos. Alguns deles farão shows no Brasil até junho

Por Rodrigo Levino 27 mar 2011, 16h23

Sharon Jones e Charles Bradley são veteranos tardiamente reconhecidos que lideram um grupo de jovens e eletrizantes músicos de soul nos EUA

Entre os próximos meses de abril e junho, os americanos Cee Lo Green, Sharon Jones, John Legend, The Roots e The Dap-Kings farão shows no Brasil. Todos eles têm em comum a influência da música soul (quando não a reverência a ela), fusão de gospel e rhythm and blues forjada por Ray Charles no fim dos anos 1950.

Junte-se a esses nomes as apresentações recentes de Janelle Monáe e Mayer Hawthorne e dá-se um bom recorte do que já é chamado “novo soul” ou “revival do soul”. O movimento é composto por um punhado de artistas que tem retomado melodias, letras, arranjos e timbres de voz e de instrumentos típicos de quando o estilo viveu o seu auge, sob a égide da gravadora Motown, sediada em Detroit.

Na Motown, nomes como Marvin Gaye, Smokey Robinson, Diana Ross e Stevie Wonder viveram os melhores momentos da carreira. Com a falência da gravadora, que entre 1961 e 1971 pôs mais de 100 músicas na lista das mais tocadas nos Estados Unidos, o gênero alternou períodos de vacas magras e sucessos pontuais.

A revigoração do gênero ganhou força em 2010 com o lançamento do disco Wake Up!, parceria entre o cantor John Legend e a banda The Roots, com repertório calcado em músicas de cunho político de Marvin Gaye, Curtis Mayfield e Donny Hathaway, e com a consagração tardia de Sharon Jones, que vive o melhor momento da sua carreira aos 54 anos. Há quem ouça nisso uma resposta à invasão que artistas britânicos, principalmente mulheres, promovem nos Estados Unidos desde o começo dos anos 2000.

Continua após a publicidade

Invasão britânica – Cantoras como Adele, Estelle, Duffy, Kate Nash e Joss Stone se lançaram no início da década passada emulando as vozes e os arranjos de divas do soul como Aretha Franklin, Diana Ross e Irma Thomas e foram bem recebidas no mercado americano.

Dentre elas, a que mais se aproximou da sonoridade genuína do soul foi Amy Winehouse. Guiada pelo produtor Mark Ronson, Amy deve grande parte do sucesso do seu disco Back to Black, de 2006, à banda novaiorquina The Dap-Kings, que criou os arranjos e a acompanhou nas gravações. Os Dap-Kings tocavam com Sharon Jones. Assim, de uma só tacada, Amy fez um bom disco, lançou luz sobre a carreira de uma veterana que andava meio esquecida e ajudou novos nomes do soul americano a emergir.

Cee Lo Green
Cee Lo Green VEJA

Entre esses novos expoentes do soul encontram-se Eli “Paperboy” Reed, Raphael Saadiq, Kings Go Forth, Mayer Hawthorne, Aloe Blacc e Fitz & The Tantrums, influenciados por James Brown, Otis Redding, Prince, Michael Jackson e dispostos a reavivar o gênero alimentando-o com influências de rock, funk, rap e R&B. O cenário é alentador por causa dos shows eletrizantes e os discos impecáveis que cada um deles faz e tem lançado.

Celeiro do novo soul – É na gravadora Daptone Records, criada por Gabriel Roth e Neil Sugarman em Nova York, que boa parte desses nomes encontrou abrigo. Ao passo que lança artistas ainda frescos do gênero, a Daptone dá chance aos esquecidos.

Sharon Jones, por exemplo, trabalhou como guarda penitenciária e cantava em casamentos para ganhar uns trocados. Gravou o primeiro disco aos 40 anos. Nada muito diferente de Charles Bradley, que depois de se lançar como cantor nos anos 1960 sobreviveu cantando músicas de James Brown e trabalhando em cozinhas infectas de Nova York.

A Daptone, claro, não é a reencarnação da Motown. É pouco provável que os novos nomes da música soul americana vivam algo parecido com o auge do gênero. O mercado e o consumo de música mudaram drasticamente desde então. Nada disso, no entanto, parece frear o talento e o gosto que cada um deles investe na criação de músicas contagiantes.

Continua após a publicidade
Publicidade