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Uma maravilha de cenário: Nova York desponta como a nova Hollywood

Embalada pela demanda dos serviços de 'streaming', a cidade ganha novos estúdios e se torna locação de ainda mais filmes e séries

Por Maria Clara Vieira, de Nova York Atualizado em 6 dez 2019, 18h59 - Publicado em 6 dez 2019, 06h00

Em um casarão de Greenwich Village, charmoso recanto no sul de Manhattan, o Doutor Estranho guardou a Joia do Tempo até ter de (alerta de spoiler) entregá-la ao vilão Thanos. No mesmo Village fica o enfumaçado The Gaslight Cafe, antigo reduto da música folk (lá Bob Dylan fez as primeiras apresentações) recriado como palco da estreia em monólogos humorísticos da maravilhosa Mrs. Maisel. Todas as chuvosas cenas do novo filme de Woody Allen se passam nos arredores do Central Park — inclusive uma visita do protagonista, Timothée Chalamet, aos tesouros do The Metropolitan Museum. Parte de O Irlandês, a superprodução da Netflix dirigida por Martin Scorsese, percorre Queens, Little Italy e outros pontos frequentados por mafiosos tempos atrás. A cidade de Nova York sempre foi cenário de filmes e séries de sucesso, mas recentemente está se superando, no esforço para tirar proveito de uma conjunção de fatores a seu favor: de um lado, a demanda por novas produções, que explodiu desde o advento dos serviços de streaming, e, de outro, a saturação dos estúdios de Los Angeles, a meca do audiovisual. Resultado: 332 filmes rodados em cenários nova-iorquinos no ano passado e setenta séries em produção.

WASHINGTON SQUARE – ‘Vingadores — Guerra Infinita’: nesta praça no sul de Manhattan, Doutor Estranho conhece o Homem de Ferro, no início do filme Marvel Studios/.

Uma consequência desse renovado protagonismo de Nova York nas telas foi a intensa proliferação de estúdios locais. Robert De Niro, ator (é o irlandês que dá título ao filme de Scorsese) e produtor, anunciou neste ano a construção do Wild­flower Studios, um conjunto de 198 000 metros quadrados a ser erguido em Queens com a infraestrutura necessária para abrigar toda a cadeia produtiva de séries, filmes e o que mais o mundo do audiovisual quiser inventar. No Brooklyn, a todo-­poderosa Netflix projeta inaugurar em breve um novo complexo que inclui um gigantesco estúdio de som. Em Yonkers, na Grande NYC, a veterana Lionsgate investe em um conglomerado de cinco sets de filmagem e produção. Esses projetos se encaixam em um mercado em frenética expansão. Segundo o departamento municipal de mídia e entretenimento, o número de filmes rodados na cidade aumentou 70% desde 2013 (veja o quadro) e o de séries quase triplicou nos últimos cinco anos. Um estudo da agência FilmLA, especializada em pesquisa do mercado cinematográfico, mostra que, no mesmo 2013, das 100 maiores bilheterias do cinema, dezesseis eram da Califórnia e apenas quatro de Nova York. Em 2017, o placar foi de dez a seis (com outras locações também ganhando espaço).

THE METROPOLITAN MUSEUM – ‘Um Dia de Chuva em Nova York’: Timothée Chalamet e Selena Gomez na frente do museu, onde passeiam entre pinturas e relíquias egípcias Jessica Miglio/Mars Distribution/.

The Marvelous Mrs. Maisel, a premiada série nascida e criada em Nova York e exibida pela Amazon Prime Video, foi produzida pelo Steiner Studio, um conglomerado de trinta sets que detém o título de maior estúdio americano fora de Hollywood. “Quando divulgamos que íamos abrir uma grande estrutura no Brooklyn, todo mundo achou loucura”, disse a VEJA um dos proprietários, Doug Steiner. Os cinco estúdios que deram origem à produtora foram erguidos em 2004, ano em que a cidade aprovou as primeiras leis de incentivo fiscal para cinema e séries de TV: o estado se comprometia a restituir até 10% do valor das produções e o município, outros 5%. “Nova York é famosa pelos custos de produção altíssimos. Sem esse abatimento, teríamos ido à falência”, destaca Steiner. Em 2011, o reembolso estadual saltou para até 40% e o municipal foi extinto. Em contrapartida, ficou determinado que a cidade iria reinvestir uma quantia equivalente em programas relacionados ao setor de audiovisual. Esse círculo virtuoso de mais incentivos e mais produções injeta cerca de 9 bilhões de dólares por ano na economia nova-iorquina.

PASSADO – ‘Playball’, curta-metragem em preto e branco de 1925: antes de Hollywood, a meca do cinema era Nova York Underwood Archives/Getty Images

A Califórnia tem leis próprias em benefício do audiovisual e continua a ser, de longe, a maior provedora de novos títulos, mas lá falta espaço para crescer. “Estamos operando com capacidade máxima. Se quiser se manter na dianteira, Hollywood precisará investir em novas estruturas, o que deve acirrar a competição”, destaca Philip Sokoloski, vice-presidente da FilmLA. Ele lembra que, além de Nova York, novos estúdios estão sendo abertos na Georgia e Louisiana, nos Estados Unidos, bem como em Toronto, no Canadá, e em cidades britânicas. “Continuamos a falar em cinema e TV, mas o streaming revolucionou tudo”, ressalta Anne del Castillo, chefe do setor de entretenimento da prefeitura de Nova York, referindo-se à demanda gigantesca por conteúdo original imposta por plataformas como HBO, Netflix, Amazon e as recém-chegadas Disney+ e Apple TV+.

‘BONEQUINHA’ –  Audrey Hepburn: o café da manhã em frente à vitrine da Tiffany’s ./.

Cenário inesquecível de clássicos como Bonequinha de Luxo, com Audrey Hepburn, e os filmes de Woody Allen, com destaque para Manhattan, Nova York atinge agora outro patamar nas telas. “A cidade sempre foi pano de fundo natural para boas histórias. Com os novos estúdios, será mais vista ainda”, destaca Steiner. Por tabela, vai aumentar a oferta de tours por locações que todo mundo reconhece, como as das séries Sex and the City e Gossip Girl. A empresa On Location inventou um passeio pelo universo dos super-heróis, passando pela estação Grand Central, quase destruída no primeiro Vingadores, e por Wall Street, que fez as vezes de Gotham City em Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge. O turista animado pode pegar o metrô para Queens, lar do Homem-Aranha, ou para o distante Bronx, onde fica a escadaria do filme Coringa — novíssimo cartão-postal da Nova York do cinema. Lá, vida e arte são a mesma coisa.

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Publicado em VEJA de 11 de dezembro de 2019, edição nº 2664

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The Marvelous Mrs. Maisel

Bonequinha De Luxo

Manhattan

Sex and the City

Vingadores. Guerra Infinita

Batman: o Cavaleiro das Trevas Ressurge

*A Editora Abril tem uma parceria com a Amazon, em que recebe uma porcentagem das vendas feitas por meio de seus sites. Isso não altera, de forma alguma, a avaliação realizada pela VEJA sobre os produtos ou serviços em questão, os quais os preços e estoque referem-se ao momento da publicação deste conteúdo.

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