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Um romance policial recheado de mistério e registros históricos do Rio de Janeiro de 1900

Alberto Mussa transforma casa da Marquesa de Santos em prostíbulo para deflagrar a trama de seu novo livro, 'O senhor do lado esquerdo'

Por Álvaro Costa e Silva, do Rio de Janeiro 29 Maio 2011, 17h33

“As personagens negras da literatura brasileira não costumam se distinguir por qualidades intelectuais. Faço questão de inverter essa tendência nos meus livros. O fundamento de todos os racismos, em todo o mundo, é esse: a ideia de que a cultura europeia representa um estágio mais avançado, superior, em relação às aquisições culturais das demais etnias”

Rio de Janeiro, 1913. O secretário do presidente da República é esganado numa das dependências da antiga casa da Marquesa de Santos, no bairro de São Cristóvão, onde então funciona um sofisticado prostíbulo. Durante a investigação, um perito criminal se depara com um malandro do cais do porto, e entre os dois trava-se um estranho duelo para saber quem é capaz de seduzir mais mulheres. É a partir desse enredo que Alberto Mussa constrói o romance O senhor do lado esquerdo (Editora Record, 288 páginas, R$ 32,90), que acaba de chegar às livrarias. Deliberadamente policial, a obra marca uma nova fase em sua premiada carreira de romancista (O trono da rainha Jinga, O enigma de Qaf, O movimento pendular) e ensaísta (Meu destino é ser onça e Samba de enredo: história e arte). “Foi um livro que fiz pensando em atingir um público maior”, confessa Mussa, conhecido por fazer ficção a partir do estudo das mitologias.

Em entrevista ao site de VEJA, o escritor comenta seu método de trabalho, questiona valores da literatura brasileira atual e volta à polêmica em torno do suposto racismo na obra de Monteiro Lobato. “Minha posição não tem nada a ver com o julgamento moral de Lobato nem com a defesa da supressão de expressões e pensamentos racistas contidos em livros para adultos. O que dá para perceber é que o tema ainda gera muita passionalidade. E não está sendo discutido de maneira objetiva”, diz o escritor.

– Como surgiu a ideia de que o palacete da marquesa de Santos, hoje Museu do Primeiro Reinado, poderia ser a cena de um assassinato e ainda que, ali, funcionava no início do século passado um prostíbulo, chamado de a Casa das Trocas?

– Quando imaginei a Casa das Trocas como cena do crime principal, pensei em criar ficcionalmente um prédio qualquer, e situá-lo em algum bairro não muito habitado na cidade, à época. Mas, durante o processo de imersão na história do Rio de Janeiro, me deparei com a casa da marquesa. E aí não tive dúvida: seria o meu cenário, até por conta da lenda sobre a passagem secreta, e por estar carregado de uma atmosfera de adultério. Fui depois visitar a casa, para estudar com calma o desenrolar da cena.

– Paralelamente à trama policial, são narrados episódios de crimes passados no Rio. O que caracteriza tais crimes?

– Aqueles que chamei de “crimes antecedentes” têm a mesma natureza do crime narrado na história principal: decorrem dos conflitos pela supremacia sexual, pelo controle do orgasmo. São esses crimes eróticos que fundam o Rio de Janeiro, como cidade. Essa é a sua profunda natureza.

– Algumas informações surpreendem, como a descoberta de que o Rio surgiu de um cemitério profanado. Foi sua intenção apresentar histórias diferentes da oficial ou mesmo ficcionais?

– A referência a esse primeiro cemitério profanado é ficcional. É uma invenção minha. Gosto muito desse tipo de jogo literário: embaralhar verdades com mentiras, ficção e história. No caso, talvez o fato de eu ter inventado uma carta e citado o texto dela (imitando o estilo da época) tenha reforçado a sensação de que se tratava de um fato histórico. Mas em outros momentos da narrativa procuro mesmo apresentar uma história que não seja a oficial. Uma das funções da literatura é essa: provocar, criar instabilidades e inseguranças em relação às verdades estabelecidas.

– Como explicar antagonismo sexual entre o perito Sebastião Baeta e o capoeira Aniceto?

– Eu pus os dois em polos sociais distintos para intensificar o antagonismo de fundo sexual. E que é potencialmente o que existe entre todos os homens: a condição viril. A masculinidade é excludente por natureza, o homem quer sempre eliminar qualquer oponente. As leis das sociedades, das pré-históricas às contemporâneas, regulam, é claro, essa convivência. Mas no nível do instinto a violência entre homens, entre os concorrentes sexuais, está sempre ativa.

– Você pesquisou para escrever o romance?

– Não diria pesquisa, porque não tinha um objeto determinado de investigação. Mas fiz inúmeras leituras e releituras de livros sobre o Rio de Janeiro, além de romances clássicos passados na cidade. É uma coisa que faço sempre: uma imersão no universo onde vou ambientar uma narrativa, para me impregnar dele, depurar minha sensibilidade em relação àquele espaço. Só que, dessa vez, ao contrário do que aconteceu com outros livros, dei um mergulho tão grande, investi tanto no universo carioca que decidi retomar um projeto antigo: o de escrever cinco novelas, cinco romances policiais passados cada um num século da história da cidade. Uma espécie de pentalogia, que começou com O trono da rainha Jinga. O senhor do lado esquerdo é o segundo. Faltam só mais três.

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– Como você classifica O senhor do lado esquerdo dentro da sua trajetória como escritor?

– Acho que ele inicia uma terceira fase, que é num certo sentido a fusão das duas primeiras: Elegbara e O trono da rainha Jinga representam uma linha narrativa fundada na falsificação ou recriação ficcional da história do Brasil, com ênfase nas experiências culturais indígenas e africanas. O enigma de Qaf e O movimento pendular (talvez deva incluir Meu destino é ser onça) são de uma fase mais borgeana, mais preocupada com a narrativa em si, e ao mesmo tempo mais universal, no que tange aos temas e aos ambientes (embora o Brasil permaneça). O senhor do lado esquerdo tem algo dessa preocupação com a narrativa (daí as histórias paralelas que se interpolam na história principal), mas numa linguagem mais solta e numa estrutura mais fluente e menos esquemática. Foi um livro que fiz pensando em atingir um público maior, sem abrir mão de uma sofisticação especificamente literária. Mas essa divisão em fases talvez seja até questionável, porque me mantenho preso ao mesmo princípio: fazer ficção a partir das mitologias – que considero o gênero supremo de literatura.

– Você deliberadamente quis escrever um romance policial?

– Quis. Romances policiais têm uma componente racional, intelectual, que me atrai. A ficção excessivamente subjetiva tende a me aborrecer. As pessoas em geral dissociam emoção e pensamento. Desde que me interessei por matemática, ao assistir à demonstração puramente geométrica do teorema de Pitágoras, percebi que pode haver beleza e poesia no raciocínio lógico.

– Você é leitor de policiais? Quais seus autores prediletos no gênero?

– Adoro policiais. Comecei por Agatha Christie (que tem pelo menos três obras-primas: O caso dos dez negrinhos, Assassinato no expresso do oriente e o quase insuperável O assassinato de Roger Ackroyd) e logo em seguida conheci Conan Doyle e Maurice Leblanc. Eentre os autores policiais em sentido estrito, aprecio muito Durrenmatt e Sciascia. E também Simenon, Chandler, Hammett. Mas o que há de melhor são aquelas obras que seguem certas regras fundamentais do gênero, mas nem sempre são assim classificadas, porque acrescentam outras dimensões literárias: Crime e castigo, de Dostoievski; Estranha confissão, de Tchekhov; Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo; O nome da rosa, de Umberto Eco. Sem esquecer, é claro, a dupla Borges e Bioy Casares, individualmente ou sob o pseudônimo de Bustos Domecq.

– Que aproximação você faz do romance com certa literatura carioca e, em especial, com a obra de Lima Barreto, citado algumas vezes no livro?

– O Rio de Janeiro é um dos cenários mais recorrentes e mais tradicionais da literatura brasileira. Mas nem toda narrativa ambientada na cidade explora sua geografia física e humana. São histórias que poderiam se passar em qualquer lugar, sem serem afetadas na sua essência literária (e poderia citar obras como Senhora, de José Alencar, ou Eurídice, de José Lins do Rego). O que aproxima O senhor do lado esquerdo da obra de Lima Barreto (e o velho Lima é um dos escritores que mais releio) é que o cenário, a cidade, está na essência literária da narrativa, é a própria literariedade do livro. Este não existiria se o enredo se passasse em outro lugar. Como no caso das obras de Manuel Antonio de Almeida, Nelson Rodrigues ou Machado de Assis.

– Alguns dos personagens são pretos e mulatos. Também têm nome e sobrenome, e papéis de destaque na narrativa. Nesse sentido, O Senhor do Lado Esquerdo é um romance que foge à regra?

– Talvez. Particularmente porque as personagens negras da literatura brasileira não costumam se distinguir por qualidades intelectuais. Faço questão de inverter essa tendência nos meus livros. O fundamento de todos os racismos, em todo o mundo, é esse: a ideia de que a cultura europeia representa um estágio mais avançado, superior, em relação às aquisições culturais das demais etnias. Creio que a índole confessional da ficção brasileira é outro fator importante para esse estado de coisas. Quase toda a ficção contemporânea é de fundo autobiográfico e acentuadamente realista (o que não é necessariamente nem bom, nem mau). Mas, como os autores são geralmente brancos, ou se identificam intelectualmente apenas com a cultura europeia, as personagens negras acabam sendo secundárias ou construídas de um ponto de vista exótico. Isso só vai mudar, me parece, no caso especificamente da literatura brasileira, quando o patrimônio cultural africano e ameríndio for considerado equivalente, em valor humanístico, à cultura de origem europeia. Ou seja, quando pertencer ao patrimônio intelectual de todos os brasileiros. Embora haja um discurso que defenda, teoricamente, esse ideal, na prática nada acontece.

– Recentemente você se envolveu na polêmica sobre Monteiro Lobato e o racismo. Que conclusão se pode tirar de tudo que foi discutido e comentado? Sua opinião mudou?

– O que eu disse é simples: o Estado brasileiro não pode distribuir gratuitamente, sem a anuência dos pais, livros infantis com expressões racistas, que ferem os direitos da criança, conforme definidos em lei, a não ser que tais expressões sejam suprimidas ou reescritas. Se não forem, que não se distribuam os referidos livros. Minha posição não tem nada a ver com a volta da censura, com o julgamento moral de Monteiro Lobato, com a defesa da supressão das expressões e pensamentos racistas contidos em livros para adultos, com o que alguns chamam “racismo ao contrário”, com a importância do Lobato para a história da literatura brasileira, com antipatriotismo, com a tentativa de destruir os mitos da nacionalidade. O que dá para perceber é que o tema ainda incomoda muito, gera muita passionalidade. E não está sendo discutido de maneira objetiva.

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