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UFRJ concede título de Doutora Honoris Causa a Carolina Maria de Jesus

Escritora, que morreu em 1977, aos 62 anos, é autora do livro "Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada" (1960)

Por Alessandro Giannini Atualizado em 26 fev 2021, 16h53 - Publicado em 26 fev 2021, 15h39

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu na quinta-feira o título de Doutora Honoris Causa a Carolina Maria de Jesus (1914-1977), escritora cujo trabalho mais conhecido é “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada” (1960). O livro, cujo lançamento completa anos 61 anos em agosto, traz relatos da vida da autora, uma catadora de lixo negra, mãe solteira de três filhos, sobre o mundo que a circundava, a favela do Canindé, na Zona Norte da capital paulista, e o centro da cidade.

O Conselho Universitário da UFRJ aprovou a concessão do título por unanimidade e por aclamação. A distinção, cujo nome em latim significa “por causa de honra”, é concedida independentemente do grau de instrução do agraciado, que se destaca por suas virtudes, méritos ou atitudes. De acordo com justificativa da universidade, Carolina deixou uma obra literária que a colocou como peça fundamental na luta antirracista. Nos últimos seis anos, segundo levantamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a autora foi tema de 58 teses e dissertações.

Carolina nasceu em 14 de março de 1914, em Sacramento, cidade próxima de Araxá e da região do Triângulo Mineiro. Após a morte da mãe, ela troca Minas Gerais por São Paulo. Em 1937, aos 33 anos e grávida, passou a viver na favela do Canindé e a se sustentar como catadora de papel. Ela foi descoberta em 1958 pelo jornalista Audálio Dantas (1929-2018), durante a apuração de uma reportagem para mostrar como era e como funcionava a comunidade da zona norte. Após a publicação da reportagem, ela lançou “Quarto de despejo” e outros livros, como “Casa de alvenaria” (1961) e “Pedaços de fome” (1963). Depois de sua morte, mais obras foram editadas.

Traduzido para 13 línguas, “Quarto de Despejo” vendeu cerca de um milhão de exemplares ao redor do mundo. Em uma prosa poética e lúcida, Carolina descreve sua rotina doméstica, seu trabalho nas ruas e faz comentários sobre o estado de coisas em que vivia e no qual sofria toda sorte de preconceitos – cenário muito parecido com o atual, com exceção, claro, da pandemia. “Há de existir alguém que lendo o que eu escrevo dirá… isto é mentira! Mas as misérias são reais”, escreveu ela há mais de seis décadas.

Para a professora Sirlene Barbosa, mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e coautora com o ilustrador João Pinheiro da graphic novel “Carolina“, o reconhecimento é de suma importância para a literatura e mostra a força da autora: “Ela publicou ‘Quarto de Despejo’ em um momento que não era propício para aquele tipo de literatura. Ela estava desdizendo o que até então se dizia do nosso país, porque apontava para a miséria, para tudo de horroroso que vivia. Tantos anos depois, estamos passando por algo semelhante e esse título, embora tardio, veio para nos lembrar de um passado que insiste em nos assombrar e que não traz dignidade para nenhum ser humano”.

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