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‘Todas as Flores’: as novelas chegam de vez à era digital

João Emanuel Carneiro mostra que a era dos folhetins da Globo no streaming faz um bem danado ao gênero — e à inteligência do público

Por Marcelo Marthe Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 4 nov 2022, 10h27 - Publicado em 4 nov 2022, 06h00

Na infância, João Emanuel Carneiro ficou marcado pela história de superação de sua tia-avó Naray, que era deficiente visual — mas, a despeito disso, educou vários filhos graças ao dinheirinho que ganhava dando aulas de canto. “Ela me tocou muito”, disse o autor de folhetins a VEJA (leia a entrevista). As lições da parente agora rendem frutos na ficção: ela é uma das inspirações de Todas as Flores, novo melodrama do criador de Avenida Brasil. A protagonista é a deficiente visual Maíra, uma espécie de “gata-­borralheira pós-moderna”: ela foi abandonada na infância, amarga a pobreza e, tempos depois, a mãe aparece do nada a título de “resgatá-la”. Na verdade, a intenção é usar a medula da garota para salvar a irmã megera dela.

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A história alcançou repercussão invejável sem estar na vitrine do horário nobre da Globo: Todas as Flores é a primeira novela concebida para o horário das 9 a ser lançada diretamente na plataforma Globoplay — e, mais que isso, formatada dentro do espírito do streaming. A migração da TV aberta para a lógica maratonável é um caminho que a emissora já vinha testando com séries e inaugurou em suas novelas no ano passado, com a segunda temporada de Verdades Secretas, sucesso da faixa das 11 do autor e colunista de VEJA Walcyr Carrasco. Meses atrás, quando veio a notícia de que Todas as Flores não mais seria exibida na televisão, e sim na plataforma da Globo, os mais afoitos viram a decisão como uma forma de rebaixamento. Não é: se há um lugar onde está o futuro das novelas, esse lugar é o streaming.

A mudança de perspectiva acarretou um banho de loja providencial. Todas as Flores tem metade dos capítulos de uma novela das 9 normal (são 85, ante 180 da TV aberta) e elenco enxuto — medidas que reduzem a famigerada “encheção de linguiça”. Além disso, emulando a tática das séries, a história tem blocos de cinco capítulos liberados a cada semana — e será dividida em duas temporadas.

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HEROÍNA CEGA - Sophie como Maíra: uma gata-borralheira pós-moderna -
HEROÍNA CEGA - Sophie como Maíra: uma gata-borralheira pós-moderna – (Estevam Avellar/TV Globo)

Um dado irônico ajuda a iluminar as novas possibilidades abertas pela chegada das novelas ao streaming: agora, é possível comparar em tempo real os erros e acertos de diferentes autores. Ao viralizar no boca a boca, Todas as Flores se tornou carro-chefe do Globoplay. Enquanto a trama de Carneiro ganha elogios e empolga, sua contraparte na velha tela da TV, Travessia, de Gloria Perez, angaria críticas à trama desconjuntada e pena com sofríveis 23,1 pontos de audiência.

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Mas não pense que a mera substituição de Travessia por Todas as Flores no horário nobre, como já há torcida nas redes, teria grande efeito. O maior ganho do streaming é, afinal, uma liberdade criativa impensável na TV aberta. Livre das amarras da classificação indicativa, Carneiro pode investir em cenas de sexo realistas, personagens dúbios e falas amorais. Além da mocinha cega a que Sophie Charlotte dá vida, a trama subverte expectativas ao colocar Regina Casé, conhecida por papéis de pessoa humilde do bem, como dondoca dissimulada. A história também põe o espectador diante de um paradoxo: Vanessa, a irmã vivida por Letícia Colin, deveria inspirar consternação por ser doente — mas se revela uma vilã. Todas as Flores é, ao mesmo tempo, um exemplar da modernidade do gênero e um novelão desbragado, digno dos tempos de uma Janete Clair.

Publicado em VEJA de 9 de novembro de 2022, edição nº 2814

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