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‘To The Wonder’, de Terrence Malick, divide o público em Veneza

Por Da Redação
3 set 2012, 16h16

Não se pode dizer que a primeira sessão de To the Wonder, o novo Terrence Malick, tenha sido um grande sucesso em Veneza. Um dos filmes mais esperados do festival, foi acolhido com reservas e ouviram-se mesmo alguns “buuuus”, a forma italiana de vaiar. Naturalmente, na sessão de gala deve ser diferente. Mas estas foram criadas para a consagração e, nelas, o mais ínfimo dos competidores é agraciado com pelo menos cinco minutos de aplauso. O que vale é a sessão da manhã, com público selvagem, de jornalistas do mundo inteiro, que não se sentem obrigados a badalar ninguém. Muitos consideram essas sessões verdadeiras carnificinas. Podem ter até razão. Mas é nelas que se fala a verdade, não nas oficiais.

Ou, pelo menos, a verdade parcial, já que um filme de Malick não é um produto qualquer, plastificado, como aqueles aos quais nos estamos habituando neste mundo descartável. A preocupação do cineasta parece ir em sentido radicalmente oposto. Ao efêmero, ele contrapõe uma reflexão sobre o absoluto. Deve ter consciência de que esse tipo de coisa não é exatamente popular nos tempos que correm. É um risco assumido. Sua obra merece decantação. Meditação. Paciência e tempo. Isto é, tudo o que não temos.

Dito isso, Malick adota uma narrativa porosa, muito lacunar, que convida a acompanhar a vida de um homem, Neil (Ben Affleck) e duas mulheres com as quais se relaciona, a americana Jane (Rachel MacAdams) e a europeia Marina (vivida pela beldade russa Olga Kurylenko). Há encontros e desencontros pelo caminho. Filhos deixados de lado ou mortos. Paisagens que se contrapõem entre a França e os EUA. O registro visual, contrastado, oscila entre o deslumbrante e o inquietante. Esparso entre várias locações, To the Wonder é também falado em diversos idiomas. Inglês, claro, mas também francês, italiano e espanhol. Este último é falado, ou melhor, monologado pelo padre vivido por Javier Bardem. Ele próprio um expatriado, como Marina, em busca de um Deus que não lhe responde.

Em To the Wonder há, por um lado, a inquietação humana diante de sua incompletude. E há, nas imagens sempre recorrentes da natureza, com suas plantas, pedras e animais, uma visão do todo, da relação com o universo, já muito presente em A Árvore da Vida, seu trabalho anterior. Portanto, prossegue, com uma história diferente, essa busca do cineasta pela dimensão espiritual. Que não se deve confundir com religião, embora haja muitas cenas em igrejas.

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A aspiração de Malick parece muito mais de cunho filosófico. Uma busca panteísta, de fusão com o eterno, do qual o amor terreno seria uma das vertentes, aquela à qual mais nos atemos porque, quando amamos, somos um. Unos, mesmo que esse estado de euforia tranquila poucas vezes dure para sempre. Malick pensa e o seu pensamento vem se desenvolvendo, como uma meditação continuada, de filme para filme. Gostar deles é questão pessoal e ninguém está apto a fornecer regras do gosto alheio. Mas é preciso tentar compreender o projeto de um artista. Em especial quando ele, sabiamente, não concede entrevistas. Como de hábito, não veio ao festival.

(Com Agência Estado)

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