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Thiago Lacerda faz ‘Hamlet’ com seriedade

Ator entrou de cabeça no processo de encarnar um dos personagens mais clássicos de Shakespeare e não deixou a dever

Por Maria Carolina Maia 4 nov 2012, 17h06

Thiago Lacerda se propôs um ritual para encarnar Hamlet, o perturbado príncipe da Dinamarca criado por Shakespeare que está em cartaz no Tuca, em São Paulo. Como o personagem entra em uma espiral de tormenta após a morte do pai, assassinado pelo tio que em menos de um mês desposa a sua mãe e lhe toma o trono, o ator entendeu precisava fazer algo para, metaforicamente, também se mutilar. Lacerda cortou o próprio cabelo, que ganhou forma assimétrica. A iniciativa, contada em entrevista ao site de VEJA, é prova de seu investimento no papel. Lacerda abraça Hamlet com seriedade.

Este é o terceiro personagem clássico do ator, que já viveu Calígula e Jesus Cristo – tanto na adaptação do romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, quanto na Paixão de Cristo. Em todos, teve a mesma postura. Um posicionamento que se reflete no palco. Lacerda vai bem como Hamlet, especialmente nos momentos em que o personagem parece delirar, enlouquecendo ou fingindo enlouquecer para enganar a todos enquanto bola um plano para desmascarar o tio traidor e homicida. É quando ele mais se solta, alternando tons e impostações de voz e usando o corpo com desembaraço para dar contorno às aflições de Hamlet. Em algumas passagens, ele passa do drama mais profundo à alegria forjada, em segundos.

Alguém pode argumentar que, nos momentos de maior sobriedade do personagem, o ator parece exagerar na interpretação, carregando na voz. O registro, no entanto, é pertinente ao teatro e não está longe do desempenho de atores como Gabriel Braga Nunes (o vilão Léo de Insensato Coração), que aliás iniciou carreira no palco.

Outros atores vão bem no espetáculo, caso do ótimo Antonio Petrin como o fantasma do rei Hamlet e como o ator que surge para visitar o palácio dinamarquês, momento de metalinguagem em que o teatro é apontado como revelador de verdades – é ele que levará o príncipe a confirmar o crime do tio. Caso também de Selma Egrei como a rainha Gertrudes, com a interpretação mais natural de todo o elenco. E de Roney Facchini, no timing certo da comédia como o falastrão conselheiro real que é pai de Ofélia (Anna Guilhermina), a amada de Hamlet, e como o coveiro mineiro que enterrará mais tarde a jovem.

Inserir dois coveiros com sotaque mineiro em cena foi uma das soluções tentadas pelo diretor Ron Daniels, um especialista no teatro shakespeariano com passagem pela Royal Shakespeare Company, de Londres, para aproximar o texto da realidade brasileira. Outra tentativa de atualizar a peça – esta tributária da própria linguagem teatral, aberta às mais diversas representações – foi colocar tênis all-star nos pés de Hamlet. Que, aliás, nesta peça se pronuncia bem brasileiramente – “Ramiléti”. As inovações funcionam: dão um toque leve, divertido, e não desrespeitam o texto, que é seguido de modo bastante fiel. Um espetáculo que deve ser levado a sério.

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