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‘Táxi’, do iraniano Panahi, leva prêmio da crítica na Berlinale

Sessão de filmes na mostra oficial terminou em tom de conto de fadas com 'Cinderela', de Kenneth Branagh

Por Mariane Morisawa, de Berlim 13 fev 2015, 16h35
Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, 'Táxi'
Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, ‘Táxi’ VEJA

O filme Táxi, do iraniano Jafar Panahi, ganhou nesta sexta-feira o prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci), derrotando seus dezoito concorrentes no Festival de Berlim. O prêmio da seção Panorama, a segunda do festival, foi para Paridan az Ertefa Kam, de Hamed Rajabi, e o do Fórum para o italiano Il Gesto delle Mani, de Francesco Clarici.

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Os prêmios Fipresci são a antessala dos prêmios oficiais do Festival de Berlim, que serão entregues neste sábado pelo júri liderado pelo diretor americano Darren Aronofsky. Entre os jurados, estão os atores Daniel Brühl (Adeus, Lenin!) e Audrey Tautou (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain). As apostas divulgadas estes dias pelos imprensa apontam como favoritos aos Ursos do festival 45 Years, do britânico Andrew Haigh, interpretado por Charlotte Rampling.

Táxi é o mais recente esforço do iraniano Panahi para seguir fazendo cinema, atividade da qual ele foi oficialmente banido pelo governo de seu país há vinte anos. Em Isto Não É um Filme (2011) e Cortinas Fechadas (2013), o cineasta desafiou a sua sentença ao filmar dentro do próprio apartamento, no primeiro caso, e em uma casa de veraneio, no segundo.

Na nova produção, ele sai às ruas de Teerã como um taxista. Os passageiros que entram e saem de seu carro fazem comentários sobre a alta criminalidade, a sharia (lei islâmica), o cinema, a censura, além da própria prisão de Panahi e de outros críticos do governo. O diretor costura referências a seus trabalhos anteriores, trazendo por exemplo duas senhoras com um aquário de peixes vermelhos, o sonho da menininha de O Balão Branco (1995). A grande estrela, porém, é a sobrinha do cineasta, uma garotinha cheia de opinião que está aprendendo na escola a fazer filmes “distribuíveis”, ou seja, “aprovados” pelo governo.

Como a maior parte dos trabalhos anteriores do iraniano, Táxi só parece espontâneo – é na verdade inteiramente construído e brinca com as fronteiras entre realidade e ficção o tempo todo. Como Panahi pode ir para a cadeia por causa do filme, que não foi autorizado, a produção não tem nem créditos, já que as pessoas que participam não podem ser identificadas. Mas, mesmo em um filme clandestino, o cineasta se aproxima de alguns dos melhores momentos da sua brilhante carreira.

Kenneth Branagh – Mas, além de Táxi, Paridan az Ertefa Kam e l Gesto delle Mani outro filme chamou a atenção nesta sexta-feira, em Berlim. Cinderela, de Kenneth Branagh, deu leveza à Berlinale com mensagem de coragem e bondade depois de uma seleção oficial que teve todo tipo de drama: escravidão de ciganos na Romênia (em Aferim!), uma mulher que, para preservar sua liberdade, precisa virar homem (em Vergine Giurata), um escritor que demora anos para superar um trauma (Every Thing Will Be Fine, fora de competição).

O último dia de sessão de filmes na mostra oficial terminou em tom de conto de fadas com Cinderela, versão com atores que não concorre ao Urso de Ouro. A exibição teve algo de simbólico. Em 1951, a animação da Disney com a mesma personagem, dirigida por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske, saiu do primeiro Festival de Berlim com o prêmio do público e um Urso de Melhor Musical. A nova versão, também produzida pela Disney, moderniza alguns aspectos do conto de fadas para as plateias do século XXI.

Kenneth Branagh, conhecido por adaptações de obras de William Shakespeare como Henrique V e por Thor, parece fã de Downton Abbey e Game of Thrones: uma grande parte do elenco saiu dos dois seriados. Criança, Ella (Eloise Webb) perde a amorosa mãe (Hayley Atwell, do seriado Agent Carter). Anos mais tarde, já adolescente (e interpretada por Lily James, a espevitada Lady Rose de Downton Abbey), vê seu solitário pai (Ben Chaplin) casar-se novamente com Lady Tremaine (a ganhadora do Oscar por Blue Jasmine Cate Blanchett), mãe de duas insuportáveis garotas, Anastasia (Holliday Grainger, de The Borgias) e Drisella (Sophie McShera, a ajudante de cozinheira Daisy de Downton Abbey). Mercador, o pai de Ella morre repentinamente, numa viagem, deixando a filha à mercê de sua invejosa Madrasta. Numa cavalgada pelo bosque, Ella, já apelidada pelas indesejáveis irmãs postiças de Cinderella, conhece Kit (Richard Madden, o Robb Stark de Game of Thrones), que, na verdade, é o herdeiro do reino – seu pai (Derek Jacobi) está doente e deve deixar o trono em breve. Quando o Príncipe chama todas as súditas solteiras para um baile, Cinderela aparece escondido da Madrasta, com a ajuda de sua maluca Fada-Madrinha (Helena Bonham Carter).

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‘Nadie Quiere La Noche’

Nascida em Barcelona, Isabel Coixet vai à Groenlândia para contar a história de Josephine (Juliette Binoche), mulher de um explorador do Ártico que parte para as terras geladas e acaba descobrindo afinidades com Allaka (Rinko Kikuchi), uma mulher inuit. O longa, que está em competição, abre o 65º Festival de Berlim.

Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, 'Táxi'
Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, ‘Táxi’ VEJA

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‘Life’

O holandês Anton Corbijn fotografou alguns dos maiores nomes da música, como David Bowie, Bob Dylan, Bruce Springsteen e Miles Davis e teve uma longa colaboração com o U2. Seu filme de estreia, Control, falava sobre o líder do Joy Division, Ian Curtis. Seu quarto longa, Life, mostra a relação entre o fotógrafo Dennis Stock e James Dean.

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‘Knight of Cups’

Em 41 anos, Terrence Malick lançou apenas sete longas-metragens. Mas ele deu uma acelerada nos últimos tempos, estreando A Árvore da Vida em 2011, Amor Pleno em 2012 e agora Knight of Cups, sobre um ator de Hollywood (Christian Bale) à procura de significado na vida. Natalie Portman e Cate Blanchett também estão no elenco. 

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‘Que Horas Ela Volta?’

Diretora de Durval Discos (2002), É Proibido Fumar (2009) e Chamada a Cobrar (2012), a paulistana Anna Muylaert foca seu novo filme em Val (Regina Casé), empregada faz anos de uma mesma família. Sua filha Jéssica (Camila Márdila), com quem não se encontra há uma década, aparece de repente, alterando o delicado equilíbrio da casa.

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‘Everything Will Be Fine’

Numa noite de inverno, Tomas (James Franco) não consegue frear seu carro a tempo e acaba pegando Christopher e seu irmão, filhos de Kate (Charlotte Gainsbourg). Anos mais tarde, Christopher (Robert Naylor) resolve procurar o homem que transformou sua vida para sempre. O alemão Wim Wenders filmou essa história de culpa e perdão em 3D.

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‘Cinquenta Tons de Cinza’

A adaptação do best-seller de E. L. James finalmente chega aos cinemas depois de alguns percalços, como a troca do ator principal. Dakota Johnson é Anastasia Steele, a estudante ingênua que cai nas garras do milionário Christian Grey (Jamie Dornan), chegado em umas práticas sadomasoquistas. O filme é dirigido por Sam Taylor-Johnson, de O Garoto de Liverpool.

Percebe-se que Branagh e o roteirista Chris Weitz tentaram dar um pouco mais de profundidade psicológica a personagens que são apenas delineados na animação (e nas versões mais comuns do conto de fadas). Cinderela sofre um bocado, mas é uma garota de fibra, que acredita, como sua mãe lhe ensinou, na bondade e na coragem, dois valores difíceis de manter na sociedade moderna. A mensagem é explícita e repetida várias vezes, o que pode irritar os adultos, mas faz sentido num filme voltado para crianças. A Madrasta, por sua vez, é fútil, dependente dos homens, mas começa a tratar Cinderela mal porque sente inveja. O Príncipe não é apenas um ser humano do sexo masculino do qual nada se sabe. Ele tem uma relação complicada com o pai, por exemplo, e disposto a encontrar seu próprio caminho.

Cinderela é um filme fofo, com figurinos deslumbrantes, que vai deixar as meninas pequenas encantadas. Às vezes, a personagem do título irrita por ser um pouco boazinha demais, mas é interessante uma heroína cuja principal arma é seu caráter.

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A plateia de jornalistas, na tarde da sexta-feira, não ficou totalmente convencida: em muitos momentos, houve gargalhadas sinceras, mas, em outros, as risadas eram involuntárias. Na coletiva de imprensa após a exibição, Kenneth Branagh admitiu que encontrar o tom foi um grande desafio. “Precisávamos ser leves sem sermos exagerados e ter uma ausência de cinismo sem cair na pieguice”, disse. “Somos muito cínicos em relação a finais felizes na vida, mas também queremos sonhar com isso. É um equilíbrio difícil.”

A entrevista transcorreu em clima bem-humorado. Quando uma jornalista elogiou Cate Blanchett, dizendo que ela poderia interpretar Cinderela, a atriz esticou o rosto com as mãos e contou uma história engraçada: “Eu falava para as pessoas que ia fazer o filme, elas davam uma pequena pausa e perguntavam, com hesitação: ‘Mas você vai fazer… a Cinderela?’.” Mais tarde, a atriz brincou de repórter. “Sou a Cate Blanchett, da Austrália. Minha pergunta vai para Kenneth Branagh: ‘Quantas velas havia naqueles candelabros da cena do baile?’.” No total, eram 2.500 velas no cenário real desenhado por Dante Ferretti, que trabalhou com cineastas como Federico Fellini e Martin Scorsese.

O clima descontraído continuou nos comentários sobre os elaborados figurinos de Sandy Powell. Helena Bonham Carter afirmou que seu vestido de Fada Madrinha não permitia que ela encontrasse o vaso sanitário quando ia ao banheiro. “Fora que era uma luminária”, disse. A peça era iluminada por lâmpadas LED. “Vinha um homem adorável me ligar”, contou, provocando gargalhadas. Na cena do baile, Lily James ficou impressionada com a destreza de Richard Madden, que conseguiu não destruir o vestido volumoso, com muitas camadas de tecido. Cate Blanchett elogiou Lily: “Vê-la descer aquelas escadas e dançar, naquele vestido, com tanta graça, foi como assistir a um feito olímpico. Foi tocante ver uma atriz fazendo isso”.

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