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SP-Arte volta ao presencial — sem deixar os frutos da experiência virtual

Após três edições on-line, em razão da pandemia, evento terá forma híbrida atualizado para o aumento de relevância do Brasil no mercado de artes global

Por Amanda Capuano Atualizado em 20 out 2021, 16h45 - Publicado em 20 out 2021, 16h30

Depois de três edições virtuais por causa da pandemia, a SP-Arte volta a receber o público presencialmente nessa quarta-feira, 20, para um evento híbrido de cinco dias no espaço Arca, na zona oeste de São Paulo. Maior feira de artes da América Latina, o evento espera receber até 3.000 visitantes diariamente no galpão de 9.000 metros quadrados na Vila Leopoldina, além de disponibilizar fotos e informações sobre as obras e os expositores no ambiente on-line, batizado de viewing room. “Os aprendizados que tivemos nesse um ano e meio foram muito enriquecedores para o mercado porque trouxe para o dia a dia a urgência da digitalização do mercado de arte”, explica a fundadora Fernanda Feitosa.

Com 128 expositores confirmados, entre galerias, museus, instituições culturais e de design, a feira dividirá seu tempo entre o espaço físico, com 84 expositores, e o digital, onde estarão os demais 44 participantes. Quem estiver na ARCA poderá acessar o ambiente on-line através de QR codes espalhados pelo evento, que fornecerão aos visitantes mais detalhes sobre as obras. “O espaço virtual permite não só a visitação de pessoas que não estariam aqui presencialmente, mas também a participação de galerias que não poderiam estar aqui em razão da distância ou das limitações de viagens”, explica. 

A peça Cabeças de Negras (1920), de Vicente do Rego Monteiro, que marcou presença na cultuada semana de 1922, é um dos grandes chamarizes da edição, enquanto Lasar Segall é destaque da Almeida e Dale, que leva para a feira um conjunto de 23 obras, além de um álbum com oito gravuras. A Paulo Darze Galeria apresenta obras de Antonio Dias, um dos destaques da 34ª Bienal de São Paulo. A Pinacoteca expõem ao público obras do período modernista, incluindo trabalhos de Antonio Gomide e Heitor dos Prazeres.

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Cabeças de Negras (1920), Vicente do Rêgo Monteiro SP-Arte/Divulgação
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Antonio Dias, Vermelho, 2016, Paulo Darzé Galeria SP-Arte/Divulgação
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Negra com espelho, 1928, Lasar Segall SP-Arte/Divulgação

Além da possibilidade de adquirir peças artísticas, os visitantes também podem participar de uma série de palestras e discussões que acontecem ao longo do evento. Entre os temas da programação estão a relação entre arte e tecnologia, incluindo os badalados NFTs, arte indígena, colonialismo, representatividade trans, entre outros assuntos em ebulição. “A arte tem que ser um termômetro da sociedade e se ela não traz essas manifestações, então o pulso que ela mede não é verdadeiro”, opina Fernanda.

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Para comparecer à edição física é preciso comprar o ingresso através do site, que disponibiliza os tickets por hora. Os valores vão de 25 reais a meia-entrada a 50 reais a inteira, e o acesso está condicionado à apresentação de comprovante vacinal ou teste negativo para Covid-19 feito em até 24 horas antes do evento.

Confira a entrevista com a fundadora Fernanda Feitosa:

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Fernanda Feitosa, fundadora da SP-Arte Jéssica Mangaba/Divulgação

O evento retorna agora em uma edição híbrida, como foram os últimos meses de pandemia para a feira? Nós fizemos três edições on-line, duas em 2020, em agosto e novembro, e esse ano em junho, no início da reabertura dos espaços culturais, ensaiando essa retomada e fazendo um chamado para que as pessoas começassem a voltar às galerias. Agora, estamos novamente presentes no meio digital, mas também temos um espaço presencial para nos reunirmos. Os aprendizados que tivemos ao longo desse último ano e meio foram muito enriquecedores para o mercado porque trouxe para a urgência do dia a digitalização do mercado de arte, que adotou o digital de forma tardia.

Então o formato digital da feira veio para ficar? Acredito que sim, porque os ganhos que tivemos com o on-line são maiores do que as perdas. O mercado da arte não tem fronteiras, ele é idealmente global. Mas isso não é tão verdade para um país como o Brasil que está fora do eixo América do Norte, Europa e, mais recentemente, a Ásia. No nosso caso, nós temos muitos ganhos porque pessoas que talvez nunca viessem para o Brasil agora podem acompanhar a feira online. São experiências distintas que se somam. Você une o encontro presencial com um conteúdo imersivo de forma virtual. As feiras e o mercado de arte ainda são muito enraizados em um sistema tradicional, e a pandemia forçou essa ruptura mostrando que a gente também consegue se comunicar e promover artistas de forma digital.

Além dos expositores, há várias discussões e conversas agendadas com temas como arte indígena, negritude e colonialismo. Questões mais politizadas terão destaque? A arte é política, a expressão cultural, literária e todas as formas de expressão artística são políticas. Então, faz parte da nossa missão enquanto evento reunir todas as manifestações da sociedade, e elas acabam sendo também manifestações de posicionamento político. Desde antes da pandemia a gente vem buscando uma maior representatividade no mercado de arte. De dois anos para cá temos tido o cuidado de sempre termos curadoras mulheres e negros convidados, também nos atentamos à representação LGBT. A arte tem que ser um termômetro da sociedade e se ela não traz essas manifestações, então o pulso que ela mede não é verdadeiro. 

E o que essa retomada presencial diz sobre o momento? É uma esperança de que sairemos dessa crise com cautela. Queremos voltar à vida, mas temos que continuar com a máscara e não abandonar os protocolos. A arte, depois desses quase dois anos, mostrou que tem uma resiliência enorme e um papel a cumprir. O mercado conseguiu promover vendas e prover o sustento de galerias e artistas mesmo de portas fechadas. Essa resiliência e o contato com o público também mostrou que a cultura tem um papel político de denunciar desigualdades. Não sei se estou otimista em relação a vendas, mas isso por enquanto está em segundo plano. Nós sobrevivemos e estar de volta já é um sucesso e uma conquista a se comemorar. 

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