Socorro Acioli, o fenômeno pop da nova literatura nacional
Com mais de meio milhão de livros vendidos e adaptações cinematográficas em andamento, ela é um admirável hit do mercado editorial
Entre 2015 e 2022, a escritora cearense Socorro Acioli rodou o Nordeste reunindo inspirações para o romance Oração para Desaparecer. Enquanto trabalhava na obra ficcional, publicada em 2023, registrou seu dia a dia em crônicas semanais nos jornais de seu estado, O Povo e Diário do Nordeste. Parte desse material está reunida em Amar É Inadiável, que acaba de ser lançado pela Editora Planeta. “Não queria que isso se perdesse. É um registro de anos da minha vida, dos lugares onde eu andei e das minhas percepções”, disse a autora de 51 anos a VEJA. Embora não tenha textos inéditos, a coletânea provocou entusiasmo: o volume foi o mais vendido durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano — era comum encontrar, nas charmosas e lotadas ruas da cidade fluminense, pessoas usando camisetas com o nome da obra estampada no peito. O encantamento tem razão de ser.
Dona de um texto que recorre à religiosidade e ao misticismo popular para retratar o Brasil com humor e delicadeza, a autora já passou da marca de 500 000 livros vendidos. Seus dois romances viraram fenômenos: A Cabeça do Santo, de 2014, e Oração para Desaparecer — ambos, aliás, vão virar filme, e o primeiro tomará a Sapucaí em 2027 como enredo da Unidos da Tijuca. “O flerte com o cinema é uma história antiga, mas o Carnaval foi uma das maiores surpresas da minha vida”, diz. As muitas novidades não abrandaram as expectativas sobre seu próximo livro, Delírio San Pedro, previsto para 2027. A obra tratará de um hospital psiquiátrico — tema caro a ela, que perdeu os pais para doenças mentais. “Ser filha deles me ajudou a entender a dor do outro”, afirma. Socorro, contudo, faz questão de se distanciar de uma onda literária atualíssima, a chamada autoficção. “Da minha realidade estou cheia”, ri.
Criada pela avó materna, Socorro publicou sua primeira história aos 8 anos, depois de ser flagrada pelo diretor da escola escrevendo as redações dos colegas em troca de chocolate. Dedicou-se ao jornalismo e à docência antes de retornar à vocação. Os frutos vieram com a bênção de Gabriel García Márquez (leia mais na pág. 86), de quem foi aluna em 2006. “Eu enviei o parágrafo de uma história. Ele gostou e me convidou para uma oficina. Dali nasceu A Cabeça do Santo”, diz ela, que, além dos dois romances, assina diversos livros infantis. Comparada ao colombiano e descrita como representante do realismo mágico no Brasil, ela não se incomoda com o rótulo, mas aponta que o termo é impreciso, já que está intrinsecamente ligado à literatura latina do século XX. “Falta um nome para o que a gente faz hoje aqui. Temos o nosso estilo.” Que tal algo como “brasilidade mágica”?
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







