‘Silo’: as coincidências da vida real com a série apocalíptica da Apple TV
Trama começa a explorar as razões do apocalipse da distopia
Quando foi lançada, no início de 2023, a série Silo fez uma aposta arriscada. Ambientada em um futuro pós-apocalíptico, no qual o ar é tóxico e 10 000 sobreviventes moram presos em um abrigo subterrâneo, a produção da Apple TV não parecia das mais atrativas para um mundo recém-saído da pandemia de covid-19 e de um longo período de isolamento. Desafiando a lógica, o programa fez sucesso — e chega nesta sexta-feira, 3, a uma intrigante terceira temporada. A nova fase mal começou e já deu de cara com outro paralelo desconcertante com a realidade: ao voltar 300 anos no passado, para expor as razões que colocaram a humanidade à beira da extinção, o roteiro retrata um confronto militar entre Estados Unidos e Irã, que pode escalar para uma guerra nuclear.
Qualquer semelhança com a vida real é — e também não é — mera coincidência. “A tensão entre os dois países data dos anos 1970. Então, era algo passível de se repetir, mas não foi intencional da nossa parte essa ligação com o noticiário”, disse a VEJA o criador da série, Graham Yost, sobre a semelhança com a crise geopolítica atual. A história, aliás, foi pensada bem antes: Silo é uma adaptação da trilogia literária de mesmo nome do autor americano Hugh Howey, iniciada em 2011. Se uma guerra entre dois velhos inimigos não é novidade, o escritor antecipou outra angústia contemporânea mais específica: os vilões impalpáveis desta temporada são os algoritmos desenfreados e a manipulação de informações por poderosos.
Protagonizada por Rebecca Ferguson na pele da engenheira Juliette Nichols, Silo apresenta uma sociedade hipervigiada e controlada por um sistema de crenças e regras que visam manter a ordem e a continuação da raça humana. A finalidade aparentemente nobre é questionável. Conforme Juliette se embrenha nas questões mal respondidas, ela se torna um estorvo para os que comandam o bunker — estrutura formada por um prefeito, um juiz e um chefe de TI, esse último o verdadeiro líder. Condenada a sair para o mundo lá fora, onde a morte é uma certeza, ela sobrevive ao ar letal e faz descobertas importantes na segunda temporada.
Entre os mistérios respondidos até aqui, sabe-se que existem dezenas de silos — Juliette entra no vizinho de número 17, o dela é o 18. Nele, encontrou poucos sobreviventes e descobriu que os líderes dos silos escondem todo o conhecimento que existe sobre o mundo antes da catástrofe. Nesse universo, livros são proibidos, assim como imagens da natureza do planeta Terra pré-apocalíptico e objetos de outrora sem serventia na nova ordem — como relógios de pulso, por exemplo. Pior é quando ela descobre que existe um protocolo de extermínio em silos tomados por rebeldes — e o 18 é um deles. Ela retorna ao lar para contar tudo o que sabe, mas se depara com uma armadilha na entrada — cena que fecha a segunda temporada. A terceira abre com uma decepção: Juliette está viva, é a nova prefeita, mas perdeu a memória.
Mais do que um recurso para prolongar a trama, a condição da protagonista tem razões narrativas e filosóficas. A memória é uma commodity escassa nessa realidade fictícia — há até um medicamento que faz as pessoas esquecerem de situações específicas. Sem lembranças, a humanidade é impotente. “Essa temporada é sobre descobrir quem você é e ter a certeza de que a verdade deve prevalecer”, disse Rebecca a VEJA.
Entre o suspense e a ficção científica, Silo se apoia na ideia incontestável de que informação é poder — e suprimir o acesso a ela, manipulando o que chega ou não às pessoas, é uma arma de controle eficaz e perigosa. “Meu personagem passou duas temporadas em busca de posições hierárquicas. Mas ele vai entender que o conhecimento é a verdadeira força”, refletiu o ator e cantor Common, que interpreta o juiz Robert Sims, marido de Camille (Alexandria Riley), a nova chefe de TI. A semente que inspirou o autor da saga veio da reflexão sobre como uma comunidade constrói sua própria verdade quando toda a informação que chega até ela vem de uma autoridade central. Adicione a isso uma bolha, da qual ninguém pode sair. Está pronta a receita para uma catástrofe. O escritor George Orwell, ao falar sobre 1984, o clássico de sua autoria, alertou: “Não acredito que o tipo de sociedade que descrevo necessariamente vá chegar, mas acredito que algo parecido possa acontecer”. O futuro pode ser fácil de prever — mais importante é agir antes que seja tarde demais.
Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002







