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Silêncio e rosas amarelas marcam a despedida de García Márquez

Amigos, fãs e familiares foram à casa do escritor colombiano, na Cidade do México, para prestar suas últimas homenagens

Por Talita Fernandes, da Cidade do México Atualizado em 10 dez 2020, 16h04 - Publicado em 18 abr 2014, 08h33

A tranquila calle Fuego, localizada no sul da Cidade do México, ganhou uma movimentação pouco habitual para uma quinta-feira santa – período de feriado prolongado no México – assim que se espalhou a notícia de que um de seus moradores, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, tinha morrido aos 87 anos. A causa da morte do Prêmio Nobel de Literatura não foi divulgada. Contudo, na última segunda-feira, o jornal mexicano El Universal publicou que o escritor sofria de complicações de um câncer linfático que havia vencido em 2002. A informação não foi comentada pela família que disse apenas que o estado do escritor era grave e que eles haviam decidido fazer um tratamento paliativo em casa. Pouco antes de morrer, García Márquez já dava sinais de que sua saúde estava debilitada. Ele esteve internado entre 31 de março e 8 de abril por complicações respiratórias no Instituto Nacional de Ciências Médicas e Nutrição Salvador Zubirán, na Cidade do México. Ao receber alta, os médicos disseram que o estado de saúde do escritor permanecia grave devido à sua idade.

As primeiras homenagens e visitas começaram a tomar o espaço da casa de número 144 pouco antes das 15h (17h de Brasília). A jornalista mexicana Fernanda Familiar, grande amiga de García Márquez e sua mulher, Mercedes Barcha, foi uma das primeiras a chegar no local. Antes, manifestou-se brevemente sobre a morte do escritor em sua conta do Twitter. “Deixa de bater o coração de Gabriel García Márquez. Morre Gabriel García Márquez. Mercedes e seus filhos, Rodrigo e Gonçalo, me autorizaram a dar a informação”, escreveu.

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Pouco a pouco, jornalistas de diversos meios de comunicação, provenientes de vários países, foram ocupando a frente da casa que é formada por dois andares e uma fachada de tijolos à vista. Do lado esquerdo da residência, a inscrição na parede “Fuego, 144”. Os fãs que apareceram no local quase foram ofuscados por um contingente policial de cinquenta oficiais que chegaram para garantir que a entrada de amigos e familiares da residência fosse feita com tranquilidade. A pequena calle Fuego chegou a ter o trânsito interrompido por algum período e grades foram colocadas em frente à casa para restringir o acesso de fãs e jornalistas.

O site de VEJA acompanhou a movimentação de amigos, familiares, fãs e jornalistas em frente à casa do Nobel de Literatura. O clima era de silêncio e espera de notícias sobre a causa da morte e o destino que teria o corpo de Gabo, como era chamado. Os fãs apareceram, em sua maioria, trazendo rosas e outras flores amarelas, uma referência às borboletas de mesma cor que aparecem em um dos seus mais importantes livros, Cem Anos de Solidão, título que lhe garantiu o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Também foram deixados à frente da casa velas e livros escritos por García Márquez. Alguns ficaram ali por horas, outros passavam de carro e paravam em frente ao número 144 por alguns minutos, deixando as janelas dos veículos abertas. Em sinal de respeito e condolências, uma senhora reduziu a velocidade de seu carro e fez o sinal da cruz ao passar pela residência.

Pouco antes das 17h (19h de Brasília) um carro da funerária García López chegou ao local, levantando suspeitas de que o corpo de García Márquez seria levado para uma cerimônia de velório. Apesar da grande expectativa, a confirmação de que ele foi levado nesse horário só se deu muito mais tarde, por volta das 21h (23h de Brasília). A negativa de policiais e de familiares e amigos que chegavam à casa ampliavam ainda mais o clima de suspense no local.

O estudante de artes cênicas Bruno Oribe, de 21 anos, ficou à porta de García Márquez por volta das 17h30 da tarde. Com uma touca de lã e um crucifixo no peito ele disse que foi ao local para prestar uma homenagem em nome da família. Para ele, os melhores livros do escritor colombiano são Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera. “Eu moro aqui na rua, no número 210 e faz algumas semanas sabíamos que algo ia mal porque passávamos aqui e víamos vários jornalistas”, contou à reportagem dizendo que se sentia muito triste com a perda do escritor.

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A cada abertura do pequeno portão de madeira, uma série de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas se amontoavam no local na esperança de que algum porta-voz da família saísse para se pronunciar. Apesar da forte expectativa durante a tarde e boa parte da noite, foi mantido um grande silêncio de todos que entravam ou saíam da residência. Além da jornalista Fernanda, a família de Gabo recebeu a visita do escritor e amigo colombiano Guillermo Angulo. Ele também não se pronunciou e chegou à casa levando consigo uma mala, dando sinais de que recém-chegara ao México.

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Outros escritores e amigos chegaram ao local, sempre com forte proteção da polícia que formava de tempos em tempos um cordão nos arredores da casa, impedindo que os jornalistas se aproximassem. Também estiveram com a família a assistente de García Márquez, Mónica Alonso, e o escritor mexicano Jorge F. Hernandez, que entrou na casa levando girassóis. “Cem anos de uma solidão infinita, que dividimos todos. Em qualquer idioma e em qualquer país ela deve abraçar os milhões de leitores, não só hoje, mas em cinco séculos vai se seguir falando de García Márquez e da literatura que ele nos deixou”, disse Hernández, um dos poucos visitantes a se pronunciar. “Sobretudo, ele nos convenceu de que a literatura é um milagre que está acima da política e que nos ajuda a viver em um mundo melhor”, completou.

Outra amiga da família, a escritora e jornalista mexicana Angeles Mastretta (autora da obra Arranca-me a Vida, 1985) chegou acompanhada por seu marido, o também escritor e jornalista, Héctor Aguilar Camín.

Últimas homenagens – O esperado pronunciamento oficial só foi feito por volta das 21h (23h de Brasília), informando o que já era previsto por rumores: Gabo será cremado em cerimônia privada só terá acesso a homenagens públicas na próxima segunda, 21 de abril, no Palácio e Bellas Artes, no centro da capital. O anúncio foi feito pelo presidente da Fundação Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI), Jaime Abello, e pela diretora do Palácio de Bellas Artes, María Cristina Cepeda. O pronunciamento foi antecipado pelo motorista e assistente pessoal de García Márquez, Genovevo Quiroz.

O advogado Miguel Garay, de 26 anos, veio da região central da capital mexicana, que fica a cerca de 50 minutos da casa de García Márquez, para prestar sua última homenagem. Ele trazia no bolso esquerdo da camisa uma rosa amarela, referência à última aparição pública do escritor, que saiu à porta de sua casa no dia em que completava 87 anos levando a mesma flor no bolso esquerdo para cumprimentar vizinhos e fãs. Garay conta que essa não é a primeira vez que ele visita a calle Fuego. “Eu já tinha vindo outras vezes, desde que soube que ele estava doente. Ontem eu vim e fiquei aqui um tempo e vi que saíam e entravam médicos”, comentou. “Eu tive a sorte não só de viver na mesma cidade em que ele viveu por 53 anos, como viver no mesmo tempo que ele, e tive agora a oportunidade de vir me despedir. É algo do qual eu não vou me esquecer.”

Garay lembra que García Márquez considerava o México, onde vivia desde 1961, tão sua terra quanto o país onde nascera, a Colômbia. “Ele nunca disse que México era sua segunda pátria, mas que era uma pátria distinta, similar à Colômbia”, comenta. As causas que trouxeram García Márquez ao México são tão nebulosas quanto parte de sua vida pública nos últimos tempos. Ele chegou ao país depois de uma temporada em Nova York, nos Estados Unidos, onde se tornou persona non grata devido à sua proximidade com Fidel Castro. Se para uns ele deixou a Colômbia para escapar da violência que assolava o país, para outros, ele fixou residência no México influenciado por amigos, como o também colombiano Álvaro Mutis, falecido na Cidade do México em setembro de 2013. Há ainda versões que dizem que o escritor quis sair da Colômbia para seguir escrevendo, depois de ter criado desafetos por lá com suas escritas sobre política.

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Seja qual for a explicação para fixar residência no México, o escritor ganhou o respeito e afeto da população de seus dois países. Além dos mexicanos, alguns de seus conterrâneos também apareceram para prestar homenagens. “É uma grande tristeza, ele nos deixou muitas coisas maravilhosas e criativas em suas obras. É uma perda sem limites, ele vai fazer muita falta. Sou colombiana e vivo aqui há dois anos. Assim que soubemos da morte quisemos vir aqui e oferecer a ele uma homenagem, trazer uma flor amarela como o símbolo tão grande que nos deixa, as mariposas amarelas”, diz a musicista Andrea María Fernandez.

Outra colombiana foi ao local, acompanhada de seu filho Andrés Tobar Marín, de 15 anos. Maria Cristina Marín vive no México há oito anos. “Assim como García Márquez, eu vim ao México para fugir de nossa guerra (na Colômbia). Ele era um grande homem, que recebeu o Nobel. A morte dele deixa a mim e a minha família tristes, pois ele era nosso representante mundial”.

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