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Série ‘Fúria’, do Disney+, ecoa caso Epstein em um thriller hipnotizante

A trama segue a caçada do FBI a uma assassina em busca de vingança

Por Kelly Miyashiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 14 ago 2026, 10h47
Série ‘Fúria’, do Disney+, ecoa caso Epstein em um thriller hipnotizante Priorizar nos meus resultados Google

Com uma máscara de onça um tanto sinistra, uma jovem franzina observa, da porta de uma casa em Nova York, a rua movimentada na noite de Halloween. Quando uma mãe e o filho pedem por “gostosuras”, ela entra na residência para procurar doces, mas só encontra quitutes espalhados pelo chão. Enquanto os recolhe, observa, impassível, um homem sujo rastejando. A garota avisa: “Eu volto em um minuto”. Após dispensar mãe e criança, ela retorna e se deita ao lado do sujeito: assassina em série, a moça aparentemente inofensiva injeta uma droga letal em sua nova vítima.

VINGANÇA - Catherine (Lola, à dir.) com uma vítima em Fúria: troca de papéis
VINGANÇA - Catherine (Lola, à dir.) com uma vítima em Fúria: troca de papéis (./Disney)

A sequência abre a minissérie Fúria, novidade do Disney+, com oito episódios lançados semanalmente às segundas-feiras. Criada pela americana Elizabeth Meriwether — a mesma das elogiadas Morrendo por Sexo e The Dropout —, Fúria não faz mistério sobre quem é a assassina que será perseguida pelo FBI, em investigação encabeçada pela agente Alice, papel de Emmy Rossum. O eixo central do thriller está em entender suas motivações. “Mulheres assassinas geralmente foram vítimas de algum crime”, diz Nora, uma chefona do FBI, papel da ótima Quincy Tyler Bernstine. “A trama questiona o que leva uma mulher a se tornar uma assassina — e até que ponto justiça e vingança se relacionam”, afirmou Emmy no lançamento da produção. Ao investigar o passado do homem assassinado, um bilionário de família tradicionalíssima, a polícia encontra conexões dele com o tenebroso submundo do tráfico sexual de menores. Ao que tudo indica, a assassina foi uma das adolescentes abusadas nesse esquema — e está em uma trajetória brutal de vingança.

ARMADILHA - Pisque Duas Vezes: bilionário atrai mulheres a sua ilha
ARMADILHA - Pisque Duas Vezes: bilionário atrai mulheres a sua ilha (Carlos Somonte/Amazon MGM Studios/.)
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A produção primorosa e inquietante remete, de forma inequívoca, ao caso de Jeffrey Epstein, predador sexual que, ao longo de décadas, criou uma rede de prostituição de menores entre a elite americana. Nos últimos anos, com o uso político dos arquivos Epstein, o modus operandi sórdido do empresário ganhou o noticiário de forma inédita e explícita. Logo, chegou à ficção. Em 2024, dois ótimos filmes entraram na conversa. A Grande Entrevista, do diretor Philip Martin, retrata os bastidores do jornal da BBC que conseguiu expor a relação do príncipe Andrew, irmão do rei Charles, com Epstein — início da decadência que o levou a ser destituído de seus títulos reais. Já em Pisque Duas Vezes, suspense dirigido por Zoë Kravitz, um bilionário excêntrico, vivido por Channing Tatum, atrai mulheres a uma ilha paradisíaca e misteriosa — alusão direta à ínsula particular de Epstein, no Caribe, onde ele oferecia jovens adolescentes a convidados supervips.

ESCÂNDALO - A Grande Entrevista: príncipe Andrew era amigo de Epstein
ESCÂNDALO - A Grande Entrevista: príncipe Andrew era amigo de Epstein (Peter Mountain/Netflix)
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Apesar do tema indigesto, esses títulos evitam o sensacionalismo e o tom documental — e fogem também de retratar o crime sexual em si. Acertam também ao dar às mulheres a chance de encontrar algum tipo de justiça. Em A Grande Entrevista, quem consegue o furo é uma equipe toda feminina. Em Pisque Duas Vezes, bem, para não entrar no campo do spoiler, basta dizer que a revanche é saborosa. Ainda sem desfecho, Fúria já deixou claro a que veio: seu mote central não é endossar o “olho por olho”, mas expor quão falho é um sistema no qual jovens vulneráveis, em vez de serem protegidas, são, no fim, as mais prejudicadas. Em um diálogo elucidativo, Nora explica a Alice por que os casos de tráfico sexual raramente vão para frente nos Estados Unidos. Para começar, as garotas traficadas costumam ser descredibilizadas. Sem moradia ou renda, acabam se rendendo aos traficantes — algumas até se apaixonam por eles. Pior: quando são pagas por sexo, elas é que se tornam criminosas, mesmo sendo adolescentes. Ao longo dos episódios, a história disseca ainda o acobertamento institucional na proteção de bilionários e dos que se acham acima da lei. Epstein, por exemplo, só foi formalmente acusado pelo crime de tráfico de menores quinze anos após o início das primeiras investigações. Preso em 2019, morreu na cadeia, em um aparente suicídio, sem ser julgado. Nem sempre crime e castigo andam juntos — exceto na ficção.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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