Série ‘Carrie’ entra na era do cyberbullying e atualiza o terror de Stephen King
Cinquenta anos depois do filme de Brian de Palma, livro ganha versão para a TV
A imagem é uma das mais famosas do cinema: Carrie White, então vivida por Sissy Spacek, acaba de ser coroada rainha do baile de seu colégio, quando uma patricinha que a despreza lhe dá um banho de sangue de porco. Encharcada, a jovem é ridicularizada pelos colegas, até revelar que possui poderes psíquicos inimagináveis, transformando a festa em um massacre. Desde 1976, o filme de Brian de Palma, baseado no livro de Stephen King, de 1974, virou marco da cultura pop: a cena de humilhação pública até hoje é recriada à exaustão em produções diversas, que vão da série americana pop Glee até a novela brasileira Rainha da Sucata — mas com lixo no lugar de sangue. O momento, agora, é aguardado no seriado Carrie, a Estranha, que chega ao Prime Video na quarta-feira 7. Ambientada nos dias de hoje, a série em oito episódios carrega consigo um questionamento inédito: como tal pandemônio se encaixaria no atual ensino médio americano, profundamente marcado pelos excessos das redes sociais e pela violência armada?
A ponderação foi o que convenceu o roteirista Mike Flanagan a abraçar o projeto, após o sucesso de outras adaptações suas de livros de King, caso de A Vida de Chuck (2025) e Doutor Sono (2019). Se essas obras foram marcadas pela fidelidade ao material original, Carrie pedia por inovação, a qual ele construiu a partir de dois casos reais na Califórnia. Primeiro, a história do casal Turpin, que manteve treze filhos em cativeiro, até que uma jovem de 17 anos conseguiu escapar, em 2018. Em segundo, o tumulto em um colégio da cidade de Albany, em 2017, por causa de um perfil de Instagram que compartilhava publicações racistas como forma de bullying. Os paralelos na ficção são claros.
Na série, Carrie (Summer H. Howell) e sua mãe, Margaret (Samantha Sloyan), vivem isoladas do mundo por um patriarca religioso e conspiracionista. Quando ele morre em um acidente, Margaret é forçada a trabalhar, e a filha deve ir à escola pela primeira vez. Longe de se portar como uma jovem traumatizada e hostil, a garota tem ares de Poliana, ingenuidade que faz dela um alvo fácil para os colegas já adeptos do cinismo da internet. Não tarda, portanto, para que a menina má Chris (Alison Thornton) crie um perfil de Instagram para atacar a protagonista. Digitalizado, o bullying extrapola as paredes do colégio, despertando a ira de pais preocupados e pondo à prova os métodos ineficazes do corpo docente. Para King, a abordagem pareceu refrescante. “Meu livro era sobre sangue e terror. Esta versão é sobre o medo das redes sociais.” Flanagan ainda toma cuidado para driblar a catarse que Carrie já despertou no público: “É muito difícil celebrar a morte de tantos jovens, muitos dos quais nem sequer a atormentam”, disse em entrevista a VEJA. Hoje, a série remete aos tiroteios em massa que assolam os Estados Unidos. O resultado é uma história com muito mais nuances.
A mãe, antes uma fundamentalista agressiva, agora equilibra suas crenças com a devoção real à filha. Até as motivações da jovem para o clímax explosivo mudam, apontando para outra discussão: sobre como mentes vulneráveis podem ser radicalizadas. As reflexões não param por aí: Flanagan planeja ir além do livro e escrever mais duas temporadas. Assim, Carrie continuará a sangrar pelos pecados de cada geração.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015





