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‘Sambódromo paulista virou competição’, diz Carlão do Peruche, 87

Sambista mais antigo em atividade, testemunha dos primeiros blocos carnavalescos da cidade, defende festa espontânea nas ruas

Por Alex Xavier 9 fev 2018, 10h56

A mente de Carlos Alberto Caetano funciona na cadência do samba. Quando quer contar uma história, ele a relaciona a uma música da época, cantarola e batuca um pouco, e, logo, os detalhes aparecem. Recordar é uma de suas responsabilidades. Aos 87 anos, Seu Carlão do Peruche é a memória viva do Carnaval paulistano, uma das poucas testemunhas dos cordões de rua, da época em que a alegria não tinha hora para acabar. Algo que, para ele, não existe mais.

“São Paulo não tem Carnaval”, sentencia o sambista mais antigo em atividade na cidade, ciente de mexer em um vespeiro. “Isso  o que fazemos é competição de escolas, não o que eu entendo por Carnaval.” Segundo ele, hoje, cada agremiação leva seus passistas até a concentração, as pessoas desfilam correndo para não estourar o tempo na avenida e, na dispersão, já sobem no ônibus para ir embora. “Antes, a gente fazia batalha de confete até o amanhecer. Um tempo atrás, eu não via mais ninguém fantasiado, só a gente no Sambódromo, desfilando com seguranças atrás, empurrando. Isso é Carnaval?”

Seu Carlão já viu muitas transformações no samba paulista, desde a infância nos bairros de Santa Cecília e Campos Elíseos. Aos 7 anos, acompanhava a família, de trem, a Pirapora do Bom Jesus, pequeno município da Grande São Paulo, às margens do Tietê. Em agosto, na festa do padroeiro da cidade, o lugar enchia de visitantes. Sua mãe ia à missa. Já o pai levava o filho ao barracão, onde teve contato com as rodas de jongo, ritmo de origem angolana. “Quem tem dinheiro vai, quem não tem que fique aí”, canta, soltando a voz ao se lembrar de uma das músicas mais comuns entre os jongueiros.

Em seguida, imita o som do surdo, do agogô e da cuíca. Dessa batida, surgiu o samba de bumbo e o samba-lenço, os ancestrais da toada que embalaria os cordões da capital.

Incansável, no comando do bloco Sovaco de Cobra, fundado por ele em 1975 Heitor Feitosa/VEJA.com

O menino cresceu e, ainda adolescente, entrou para a Lavapés, uma das primeiras escolas paulistanas. Criada em 1937 por Madrinha Eunice, colecionava vitórias. Uma delas, em 1956, levou Seu Carlão a se afastar. Na época, a campeã era anunciada poucas horas após o desfile, que, em tempos pré-Anhembi, corria pelo centro. Ao saber que venceu (dividindo com a Nenê da Vila Matilde), a pioneira mandou os foliões aguardarem no antigo Largo São Paulo (hoje, Praça Almeida Junior), perto da sede da escola, na Liberdade. Eles tocaram a comemoração madrugada adentro e nada de Madrinha Eunice aparecer com o troféu. Perto da alvorada, os bondes começando a subir a Rua da Glória, veio a notícia de que a dona já tinha se recolhido fazia tempo, com o troféu, em casa.

Antes, a gente fazia batalha de confete até o amanhecer. Um tempo atrás, eu não via mais ninguém fantasiado, só a gente no Sambódromo, desfilando com seguranças atrás, empurrando. Isso é Carnaval?

A Lavapés segue até hoje, nos grupos de acesso. Mas o jovem Carlão se sentiu ofendido e não quis mais saber. “Chamaram para a festa no domingo e falei que não ia”, recorda. Ritmista, pensava em ir para a Vai-Vai, ainda um cordão. Em vez de adotar a camisa do Bexiga, porém, ele e outros insatisfeitos resolveram criar a própria escola. Para comprar o material, foram ao centro tentar angariar dinheiro. “Cansei de escutar ‘Essa negada só quer beber cachaça’. As pessoas olhavam feio, porque a gente estava de tênis.” Com instrumentos confeccionados por eles mesmos, surgiu a Unidos do Peruche. “A escola já nasceu grande, pois todo mundo ali era tarimbado”, orgulha-se ao enumerar os cinco títulos conquistados, que vieram entre 1957 e 1967.

Na quadra da Peruche, o veterano é saudado pelos muitos sambistas apadrinhou Heitor Feitosa/VEJA.com
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Ex-pugilista – que treinou por cinco anos com o pai de Éder Jofre, o argentino José Aristides Jofre –, Seu Carlão manteve a alma de lutador por toda a carreira. Em 1977, quando as autoridades acharam que o desfile no centro atrapalhava o trânsito e tentaram mudar para o autódromo de Interlagos, o veterano bateu o pé. “Nós vamos invadir a São João”, ameaçou, citando a via que abrigava o evento até então. No fim, adotou-se a Avenida Tiradentes, onde permaneceu até 1991, quando a prefeita Luiza Erundina inaugurou o Sambódromo do Anhembi.

“Há 30 anos, o andamento das músicas era menor e a gente podia sambar, não é essa procissão de hoje”, comenta. “Se me pedir para cantar o samba do ano passado, eu não lembro, só tem refrão.”

Seu Carlão também era provocador. Em 1967, fazia parte da comissão de sambistas que conseguiu agendar uma reunião com o então prefeito, José Vicente Faria Lima, carioca que se dizia apreciador de samba. Diante da desconfiança do sambista, o político não só acatou as solicitações para oficializar o Carnaval na agenda da cidade como esfregou a carteirinha de sócio da Mangueira na cara dele. “Foi a maior vergonha que eu já passei no mundo do samba”, ri.

Na quadra da Peruche, o veterano é saudado pelos muitos sambistas apadrinhou Heitor Feitosa/VEJA.com

Algumas lutas acabou perdendo. Em 1972, em plena ditadura, sentiu o peso da repressão quando policiais invadiram a quadra da Peruche. Sem compreender os motivos da truculência, Seu Carlão levou bala de festim e um golpe de cassetete na costela, cuja marca faz questão de mostrar. Também viu o compositor Geraldo Filme, autor do samba-enredo daquele ano, ser detido no temido Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Só mais tarde, intimado a prestar depoimento, entendeu o que houve. Os militares consideravam a música Chamada aos Heróis da Independência subversiva. “Liberdade, liberdade… palavra singela”, canta. “Depois daquilo, o Geraldo foi para a Vai-Vai porque estava proibido de compor para a gente”.

Nos anos 1980, passaram pela Peruche o puxador Jamelão, da Mangueira, a cantora Eliana de Lima e o carnavalesco Joãozinho Trinta, entre outros. Mas a escola não voltou a ser campeã.  Ficou apenas com o vice-campeonato em seis ocasiões e foi rebaixada cinco vezes. Mas Seu Carlão se mantém como um baluarte do Carnaval paulistano. Com o título de “embaixador do samba”, ele preside a Associação Independente Cultural da Velha Guarda do Samba e não perde o olhar crítico. “Há 30 anos, o andamento das músicas era menor e a gente podia sambar, não é essa procissão de hoje”, comenta. “Se me pedir para cantar o samba do ano passado, eu não lembro, só tem refrão.”

“Se não tiver uma resistência, daqui a pouco vão obrigar todo mundo a pular lá em Interlagos

Este ano, o enredo homenageia Martinho da Vila, que Seu Carlão conhece há quase meio século. “É melhor ser homenageado enquanto vivo”, avisa. Ele mesmo não se preocupa com mais honrarias. Na quadra de sua escola do coração, é um rei. A entrevista é interrompida várias vezes por seus súditos, que chegam para cumprimentá-lo e puxar conversa. Alguns, já cinquentões, acompanham o veterano desde criança. Ali dentro, também estão filhos, netos e bisnetos, que passam para pedir a bênção. Ele dá atenção a todo mundo. A bengala que carrega serve mais para marcar o tempo da bateria durante o ensaio, pois a vitalidade parece inabalável.

No último domingo, liderou os foliões do bloco Sovaco de Cobra, fundado por ele na Zona Norte em 1975, trazendo antigas marchinhas. O crescimento do Carnaval de rua nos últimos anos remete para ele à espontaneidade do passado. Mas mesmo essa festa tende a acabar, com o excesso de restrições. “Tem que pôr sua alegria para fora sem se preocupar com horário, fazer isso com liberdade”, manifesta-se. “Se não tiver uma resistência, daqui a pouco vão obrigar todo mundo a pular lá em Interlagos.”

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