Roteirista de The Office, Mindy Kaling revela como sua vida pessoal inspirou nova série corporativa
Atriz e roteirista é a responsável por Inapropriados para o Trabalho, série do Disney+
Aos 47 anos, a atriz e roteirista Mindy Kaling acumula em seu currículo produções como The Office e The Mindy Project, nos quais atuou tanto no roteiro como na frente das câmeras. Recentemente, porém, a artista americana e filha de imigrantes indianos tem se dedicado aos bastidores de produções voltadas para o público jovem como a série Inapropriados para o Trabalho, que entrou recentemente no catálogo do Disney+. Em entrevista a VEJA, Mindy falou sobre o projeto e do universo de séries que exploram os ambientes corporativos de forma bem-humorada. C
Confira:
Você já escreveu sobre a dinâmica de ambiente de trabalho antes, como em The Office e The Mindy Project. O que torna o cenário de Inapropriados para o Trabalho tão único e diferente das suas experiências anteriores? Olha, obviamente séries sobre jovens na faixa dos 20 anos não são novidade, mas é algo novo para mim. Eu já tinha explorado uma versão da minha infância em Eu Nunca (Netflix), que era sobre o ensino médio, e depois a faculdade em A Vida Sexual das Universitárias (HBO Max), que veio da inspiração dos meus tempos na Dartmouth College. Mas eu nunca tinha falado sobre aquele período logo após se formar, quando me mudei para Nova York. Para mim, foi uma escolha óbvia. Lembro daquela época vividamente porque minhas emoções eram sempre extremas. Quase todos os meus amigos são pessoas altamente ambiciosas; eu amo o mundo deles e o meu mundo, e amo escrever sobre isso. Foi por isso que quis fazer a série.
Na sua opinião, por que as séries ambientadas em locais de trabalho são tão atraentes para o público? É engraçado. Minha carreira começou em The Office. E aquela série não era apenas o meu trabalho; era a minha vida inteira. Ela me consumia porque eu era profissionalmente obcecada por ela. Meus amigos mais próximos e meus parceiros românticos vieram dali. Acho que as pessoas — especialmente as mais ambiciosas — se identificam muito com a ideia de o trabalho se tornar a sua vida. Eu ia dizer que isso é algo puramente americano, mas acho que é mundial. Como passamos grande parte da vida no escritório, se você tiver a sorte de trabalhar em um lugar onde tem ambições de crescer, ali se torna um ambiente muito teatral e dramático.
Alguma das situações bizarras ou inadequadas que vemos na tela em Inapropriados para o Trabalho foi baseada em experiências reais suas em empregos ou na sala de roteiristas? Não sei se chega a ser bizarro, mas me identificar com a situação de se apaixonar por alguém no trabalho, ter sentimentos por um colega e tentar manter isso em segredo é algo muito real para mim. Também me identifico com a sensação de se sentir excluído. Outro ponto forte é quando o personagem Kel (Nicholas Duvernay) precisa contar aos pais — especialmente à sua mãe nigeriana, que é super rígida — que quer largar a faculdade de medicina. Eu entendo perfeitamente a dificuldade de conversar com pais imigrantes e dar uma notícia que você sabe que eles não querem ouvir. Mas o papel da comédia é justamente explorar as áreas onde as pessoas se sentem desconfortáveis.
No começo, o personagem do Jay Ellis, Bill Gibson, captura perfeitamente aquele chefe corporativo tóxico que elogia o trabalho infinito, sem se importar com o burnout. Vemos muito disso hoje em dia. Qual foi a inspiração por trás dele e como acha que a mentalidade dele dialoga com os gestores da vida real? Eu amo essa pergunta e amo esse personagem. Eu não sou banqueira de investimentos, mas em Dartmouth muitos dos meus amigos se formaram e foram direto para o setor bancário. Existem grandes semelhanças entre o mercado financeiro e a redação de comédia: as horas de trabalho são absurdamente longas. É o tipo de ambiente onde a “devoção psicótica” é elogiada. Claro que um lado está nas artes e o outro não, mas acho esse tipo de personalidade masculina fascinante e muito divertida de assistir. Trazer o Jay Ellis, que é um cara incrivelmente carismático e bonito, para esse papel faz você entender perfeitamente por que as pessoas caem no feitiço dele. Mesmo quando ele diz que odeia o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, ele ainda é atraente. Eu queria preencher esse ambiente intenso com personalidades magnéticas.
Sendo uma roteirista e produtora de projetos de sucesso, como The Office e The Mindy Project, qual é exatamente o segredo para criar uma boa comédia corporativa hoje em dia? Tudo começa passando muito tempo pensando na ideia principal. E isso vale para qualquer série: eu preciso garantir que, mesmo que haja um protagonista e personagens coadjuvantes, eu consiga escrever para cada um deles o dia inteiro e achar isso incrivelmente prazeroso. É preciso criar personagens tridimensionais, com um passado com o qual você consiga se conectar, mesmo que sejam muito diferentes de você. O passo seguinte é encher a sala de roteiristas com pessoas que entendam e tenham compaixão por esses personagens.
Como foi para o processo de equilibrar o timing cômico com os momentos de maior vulnerabilidade dos personagens? Nós temos muita sorte com o nosso elenco — Avantika, Jack Martin, Will Angus e Nicholas Duvernay. O que é incrível neles é que todos têm formação tanto em comédia quanto em drama. O Will Angus, por exemplo, está em uma trupe de esquetes de comédia, mas também está filmando um drama com o Luca Guadagnino agora mesmo. Todos os meus atores favoritos fazem drama e comédia muito bem — como Steve Carell ou Emma Thompson, pessoas com quem já trabalhei e que transitam pelos dois mundos. Então, a primeira parte do segredo é o elenco. A segunda parte foi o que aprendi em The Office. Você pode fazer comédias escrachadas puras e elas podem ser enormes sucessos. Mas quando penso no motivo de amar tanto The Office, é porque, além das piadas, há muita emoção ali. Há casais pelos quais você torce, você torce para o Michael amadurecer e encontrar o amor… Essa foi a minha escola.







