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Robôs criam sucessos fakes na música – e causam perda bilionária na indústria

Fraudes em plataformas musicais já causam 1 bilhão de dólares em danos

Por Lucas Almeida 17 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 17 jul 2026, 13h41
Robôs criam sucessos fakes na música – e causam perda bilionária na indústria Priorizar nos meus resultados Google

Um estranho fenômeno chamou atenção no fim de junho, quando a canção Earrings, lançada em 2024 pelo cantor americano Malcolm Todd, de um dia para o outro saltou para o primeiro lugar das músicas mais ouvidas no Spotify, com um aumento de 70% em suas reproduções. O feito levantou suspeitas: investidores do mercado preditivo — nome dado aos que apostam em plataformas de previsão — apontaram atividade criminosa para favorecer quem colocou dinheiro na improvável chegada do cantor ao topo do ranking. Uma semana antes, a Kalshi, uma das principais plataformas do tipo, precificava essa chance em apenas 2,5%. O Spotify passou um pente-fino e removeu mais de 500 000 reproduções da música após identificar indícios de atividade de robôs.

O caso, então inédito, iluminou um dilema que se revela cada vez maior no submundo da audiência inflada artificialmente. Assim como é possível “comprar” seguidores nas redes sociais, também é possível adquirir números de reproduções em plataformas como Spotify, YouTube, TikTok, entre outras, através de robôs, os temidos bots, que executam tarefas automatizadas e repetitivas, e das “fazendas de streaming”, em que dezenas de celulares enfileirados reproduzem a mesma faixa ou artista sem parar. O intuito é impulsionar o trabalho de alguns músicos e de produções feitas em massa via inteligência artificial.

ROCK IA - The Velvet Sundown: banda fake virou hit real no ano passado
ROCK IA - The Velvet Sundown: banda fake virou hit real no ano passado (@thevelvetsundownband/Instagram)

O dilema aqui é mais do que ético. Os sites de música remuneram os artistas com royalties divididos de forma proporcional. Assim, cada stream fraudulento dilui o montante, tirando uma fatia do que deveria ir para os artistas reais — e honestos. Estima-se que a indústria já perde 1 bilhão de dólares por ano em fraudes do tipo. Em março, o primeiro caso criminal dos Estados Unidos expôs a escala das operações: o produtor Michael Smith foi condenado por gerar mais de 600 000 reproduções por dia de suas canções feitas por IA, somando royalties anuais de 1,2 milhão de dólares. Notem a ironia: as canções feitas por softwares eram reproduzidas por bots para gerar renda — sem a necessidade de humanos compondo ou ouvindo as faixas.

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As plataformas, então, criaram mecanismos de defesa. O Spotify garante que remove diariamente reproduções fraudulentas e bloqueia o pagamento dos royalties gerados por elas, além de cobrar multas de gravadoras e distribuidoras envolvidas. A Deezer revelou que identifica a entrada de 75 000 músicas geradas por IA diariamente — e 85% dos streams dessa porção eram fraudulentos em 2025. Detectar essas farsas, contudo, não é simples: os robôs já reproduzem comportamentos humanos e raramente miram em uma só música, como no episódio de Malcolm Todd.

POLÊMICA - Todd: composição do cantor foi impulsionada artificialmente
POLÊMICA - Todd: composição do cantor foi impulsionada artificialmente (Todd Owyoung/NBC/Getty Images)
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Quando uma fraude não é descoberta, ela pode se transformar em sucesso real: uma música que entra na playlist de hits do dia do Spotify, por exemplo, ganha naturalmente até 21% mais de reproduções de ouvintes de carne e osso. “O sistema que sustenta as recomendações fica com mais ruído e resulta em combinações piores para os consumidores”, analisa George Knox, pesquisador da universidade holandesa de Tilburg. Essa métrica manchada teria sido a razão do sucesso momentâneo da banda assumidamente de IA The Velvet Sundown, que no ano passado lançou três discos na sequência e atingiu 1,4 milhão de ouvintes. Fez barulho nas redes sociais e, depois disso, desapareceu.

No passado, a discussão sobre sucessos inflados artificialmente restringia-se às práticas das gravadoras, em torno dos pagamentos que faziam para que seus artistas tivessem mais espaço nas rádios e na TV, entre outros meios para se destacar e criar hits. Hoje, o caminho mais cobiçado — e também o mais passível de manipulação — é o da viralização em rede social, especialmente o TikTok: em 2024, 84% das músicas que entraram no ranking de mais ouvidas da Billboard Global 200 bombaram primeiro na rede chinesa. “Há uma enorme cadeia que alimenta esse universo, envolvendo até escritórios com funcionários de crachá”, descreve Morgan Hayduk, co-CEO da Beatdapp, empresa canadense especializada em detectar fraudes digitais. Será difícil calar essa era dos sucessos fake.

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Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

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