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Roberto Santucci, o homem de ouro das comédias no Brasil

Recordista de público, o diretor das franquias ‘De Pernas pro Ar’ e ‘Até que a Sorte nos Separe’ dispara no filão que tomou o cinema nacional

Por Raquel Carneiro - Atualizado em 29 abr 2020, 18h46 - Publicado em 7 jun 2015, 10h27

Aos que torcem o nariz para a vasta produção de comédias no cinema brasileiro, uma notícia nada engraçada: o filão mais rentável entre os títulos nacionais continua firme, forte e abastecido para os próximos anos. E, com números tão robustos, por que seria diferente? O estilo é presença constante nos primeiros lugares do ranking de bilheteria desde 2003, quando Lisbela e o Prisioneiro, de Guel Arraes, fez 3,1 milhões de espectadores, seguido por Os Normais: O Filme, de José Alvarenga Jr., com 2,9 milhões. E, desde 2006, com Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho, assumiu o topo da lista. Não à toa, é nas comédias brasileiras que a Paris Filmes, distribuidora de blockbusters como Jogos Vorazes e Divergente, tem a sua principal fonte de receita: 60% de sua renda vem de filmes como Cilada.com, de Alvarenga. Mas, para além de Alvarenga e dos também citados Arraes e Filho, há um nome que brilha como ouro nesse rico filão, acima de todos os outros: o do discreto carioca Roberto Santucci.

O diretor soma a obscena quantia de 22 milhões de ingressos vendidos nos últimos cinco anos, com renda total bruta de 300 milhões de reais. E os valores estão prestes a aumentar, já que ele acaba de entrar em cartaz com Qualquer Gato Vira-Lata 2 e em dezembro deve estrear Até que a Sorte nos Separe 3, a segunda continuação da sua franquia mais rentável. Foi o primeiro filme dessa série, com um público de 3,4 milhões de pagantes, que deu a Santucci a liderança entre os longas mais vistos de 2012, reprisando o posto conquistado um ano antes com De Pernas pro Ar, de 3,5 milhões de espectadores. Em 2013, ele foi substituído por André Pellenz e o filme Minha Mãe é uma Peça (4,6 milhões de ingressos), mas recuperou a posição sem dificuldades em 2014, com O Candidato Honesto (2,2 milhões de ingressos). O ano nem acabou, mas dificilmente alguém vai tirar de Santucci o tetracampeonato, já que outro longa assinado por ele, a comédia Loucas pra Casar, fez incríveis 3,7 milhões de espectadores e segue na liderança isolada entre os brasileiros mais vistos em 2015 – o segundo colocado, Superpai, de Pedro Amorim, contabiliza pouco mais de 430 000 pagantes.

A título de comparação, Daniel Filho, outro perito em vender ingressos, somou nos últimos catorze anos cerca de 18 milhões de espectadores. Alvarenga Jr. fez 11 milhões em dezesseis anos. Até o diretor do fenômeno Tropa de Elite, José Padilha, comeu poeira, com 14 milhões de espectadores em treze anos de produções nacionais. Não à toa, Santucci foi chamado pelo jornalista John Hopewell, da revista americana Variety, de “rei Midas” da bilheteria brasileira. Como diz o mito, tudo aquilo que Midas toca vira ouro. A comparação faz sentido.

Apesar da bonança, o cineasta de 48 anos surpreende ao dizer que a comédia não é uma escolha permanente em sua carreira. Na verdade, não foi sequer uma escolha: “Fiquei à mercê do mercado”.

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Questão de demanda – No início dos anos 1990, Santucci abandonou o curso de comunicação na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e se mudou para Los Angeles, onde fez um curso de extensão na Universidade da Califórnia (Ucla) e se formou em cinema pela Columbia College de Hollywood. Foi ainda nos Estados Unidos que começou a trabalhar com filmes, sempre atrás das câmeras: foi assistente de montagem nos dramas Código de Honra (1992), de Robert Mandel, com Brendan Fraser e Matt Damon no elenco, e Lendas da Paixão (1994), de Edward Zwick, estrelado por Brad Pitt. Fez alguns curtas próprios e, em 1996, rodou o seu primeiro longa-metragem, Olé – Um Movie Cabra da Peste, uma comédia nonsense nunca lançada em circuito comercial.

De volta ao Brasil no início dos anos 2000, Santucci iniciou seu caminho rumo ao reconhecimento com o thriller nacional Bellini e a Esfinge, de 2002, adaptação do livro de mesmo nome de Tony Bellotto, estrelada por Fábio Assunção e Malu Mader. Apesar de não se comparar ao sucesso que seriam as suas comédias, a produção fez cerca de 80 000 espectadores e venceu o prêmio de melhor filme no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, em 2001. “Bellini teve um lançamento independente, pago pelo próprio produtor. Foram umas vinte cópias lançadas na mesma época dos indicados do Oscar”, conta Santucci. “Acredito que, se ele estreasse como meus longas atuais, teria feito com facilidade 1 milhão de ingressos”.

Santucci logo sentiria as oscilações de orçamento em seus projetos. Enquanto Bellini e a Esfinge foi feito com cerca de 600 000 reais e distribuído em poucas salas, seus recentes longas cômicos possuem recursos robustos, de 5 a 6 milhões de reais, e chegam em média a 600 salas. A captação de recursos também flui bem – suas cinco primeiras comédias somam mais de 18 milhões de reais conquistados através de leis de incentivo. Mas não é maior que a de filmes de outros gêneros – até porque as comédias precisam menos desses recursos.

A guinada na carreira, de diretor de filmes ditos sérios para mestre das comédias, viria em 2008, com Alucinados, outro thriller, dirigido e também roteirizado por Santucci. O projeto, considerado por ele um dos mais pessoais, levou o prêmio popular de melhor filme no 1º Festival de Paulínia e foi bem recebido nos festivais de Los Angeles e de Madri, mas nunca lançado, por falta de distribuidor interessado.

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Foi essa dificuldade de lançar Alucinados, que talvez chegue ao público este ano, enfim, pelo canal pago Telecine, que levou Santucci a considerar a ideia de fazer comédias. Enquanto buscava um distribuidor para o thriller, o diretor viu uma reportagem em um jornal sobre uma vendedora de produtos sexuais. “Pensei: ‘Este é o tipo de filme que eles (distribuidores) querem’. Fiquei um pouco chateado, mas com o passar do tempo sugeri o projeto a um amigo, antes que alguém o fizesse”, diz. O longa, inicialmente chamado de Sexo e Delícias, ganhou mais tarde o nome De Pernas pro Ar, e transformou Ingrid Guimarães, até então uma coadjuvante da Rede Globo, em estrela de cinema. “Ali tive a oportunidade de fazer um filme, pela primeira vez, com a estrutura correta. Com bons distribuidores, boa produtora, orçamento. Não tinha como dizer não”, conta.

A partir daí, Santucci viu o processo se inverter. Parou de correr atrás de produtoras, que começaram a procurá-lo para dirigir outras comédias. “Virou uma bola de neve”, conta. Em menos de cinco anos, o cineasta assinou oito longas de humor, colocou Leandro Hassum no posto de ator mais rentável do mercado, dirigiu Jerry Lewis e manteve uma agenda cheia.

No segundo semestre de 2015, Santucci roda Até que a Sorte nos Separe 3. Até lá, monta o longa O Herdeiro, com Rodrigo Sant’anna (Zorra Total), Carol Castro e Stepan Nercessian no elenco. “É sobre um suburbano de Madureira (Sant’anna) que herda uma luxuosa mansão na zona sul da cidade com direito a uma família da elite carioca”, conta o diretor. Em um futuro próximo, ele deve assinar o terceiro De Pernas pro Ar. “Existe uma vontade por parte dos distribuidores de me manter na franquia, pois em time que está ganhando não se mexe”, diz.

Nessa avalanche de projetos, Santucci lamenta não conseguir emplacar o que ele chama de “projeto próprio”. “Quero fazer um filme de ação, um drama, outro thriller. Em breve, vou apresentar um filme que não é uma comédia. É o que eu gostaria de fazer.”

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Fora da curva – Sair de uma reta conhecida para arriscar um novo caminho é um passo difícil e com pouca garantia de sucesso. Mas o cineasta parece determinado. “Já sabemos que o Santucci sabe fazer comédia. Agora, a grande pergunta é qual outro filme o Santucci sabe fazer?”, pergunta o próprio. “Mas esta é uma aposta que tem que partir de mim, porque ninguém quer apostar, só querem que eu repita o que eu já faço.”

Santucci reconhece que hoje a comédia mantém o cinema nacional vivo, dá a ele popularidade e dinheiro. “Mas precisamos de diversidade de gêneros. Faltam dramas e romances e quero participar dessa mudança também”, diz, lembrando a falta de títulos nacionais em festivais internacionais e no Oscar. “Essa ausência não faz bem para nosso cinema e comédia não concorre em festival. Um distribuidor precisa ter o filme que traz renda, mas também deve apostar em produções de risco. Um paga pelo outro.”

Os planos de renovação são diversos. Santucci tem um roteiro de terror em desenvolvimento, sonha com um thriller policial e, em breve, inicia um projeto em torno de um personagem real, uma adaptação de Mussum Forévis – Samba, Mé e Trapalhões (Leya), de Juliano Barreto. “Considero a cinebiografia do Mussum um passo à frente do que faço hoje. A história dele é riquíssima. Terá muito humor, drama e samba”, conta. “As novas gerações enxergam no Mussum apenas um negrão engraçado, mas ele era muito mais do que isso. Ele era um ótimo sambista, um compositor, participou de grandes festivais e acompanhou Elis Regina. Ninguém lembra que o Mussum foi lançado na TV por Chico Anysio e que serviu o Exército. Será divertido mostrar um lado dele que poucos conhecem.”

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Enquanto tenta levar uma produtora a aceitar seu projeto pessoal, Santucci constrói seu nome entre parceiros de bastidores e ganha a fama de boa praça. Os roteiristas Paulo Cursino (A Grande Família) e Marcelo Saback (Loucas pra Casar) o seguem de olhos fechados. O mesmo acontece com Ingrid e Hassum, atores que passaram a ser amigos pessoais de Santucci e que já afirmaram em coletivas que apostam sem medo em filmes dirigidos por ele. É a estes parceiros, aliás, que o cineasta devota a boa fase. “A diferença é que antes eu fazia tudo sozinho. Tive a sorte de trabalhar com muita gente boa e corajosa. E este é o segredo do meu sucesso.”

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