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Richard Osman: ‘Tive medo de ser mais uma celebridade metida a escritor’

Autor fez fama na televisão inglesa e vendeu mais de 2 milhões de cópias com seu livro de estreia, 'O Clube do Crime das Quintas-Feiras'

Por Amanda Capuano Atualizado em 13 out 2021, 15h02 - Publicado em 11 out 2021, 15h43

O nome Richard Osman pode soar estranho aos brasileiros, mas não aos cidadãos britânicos. Rosto conhecido nas terras da rainha, Osman, de 50 anos, fez carreira como produtor de televisão e ganhou fama apresentado o game show Pointless, da BBC,  mas sempre sonhou com o universo literário. Com medo de ser considerado apenas mais uma celebridade metida a autor, escreveu seu livro de estreia, O Clube do Crime das Quintas-Feiras em segredo, e só revelou a nova empreitada ao mundo depois que a obra — que gira em torno de um quarteto de velhinhos empenhados em desvendar assassinatos — já estava devidamente aprovada por uma agente literária. Um ano depois do lançamento no Reino Unido, o livro já vendeu mais de 2 milhões de exemplares do mundo, metade deles só na Inglaterra, o que fez de Osman o segundo autor adulto neste século a bater cifras milionárias no país — o primeiro foi o americano Dan Brown, com O Símbolo Perdido. Devoto de Agatha Christie, ele credita o sucesso na terra natal ao gosto britânica por mistérios de assassinato, e comemora o bom desempenho internacional, que já garantiu ao livro uma adaptação dirigida por Steven Spielberg e o lançamento da sequência O Homem que Morreu Duas Vezes, nas livrarias desde meados de setembro, lançado no Brasil pela editora Intrínseca. Confira entrevista que o autor concedeu a VEJA:

  • O senhor faz sucesso na TV britânica há anos. Como surgiu a ideia de mudar de ares e escrever um livro? Eu sempre escrevi e gosto muito de ler. Como muitas pessoas, tinha essa ideia martelando no fundo da minha mente de que eu adoraria escrever um livro algum dia, mas a vida tem seus próprios planos, você tem um emprego, uma família, e nem sempre há tempo disponível. Até que, há quatro anos, eu tive uma ideia e percebi que tinha tempo suficiente para escrevê-la. 

    Por que escreveu o livro em segredo? Especialmente por ser um homem da televisão. Eu tinha medo que as pessoas me considerassem apenas como uma celebridade metida a escritor e não me levassem a sério, então escrevi o livro inteiro e tentei garantir que ele era realmente bom antes que as pessoas soubessem. Como qualquer um que escreve o primeiro romance, eu achava que estava terrível, mas assim que as pessoas começaram a ler o livro, acho que esqueceram que eu sou um apresentador de televisão e me levaram a sério.

    Suas histórias são sobre idosos resolvendo crimes. Por que essa escolha? Minha mãe mora em uma comunidade de aposentados no sul da Inglaterra, um lugar lindo, com campos verdes, florestas, o tipo de paisagem onde você leria um mistério de assassinato de Agatha Christie. Comecei a falar com os moradores e notei que eram pessoas muito interessantes, que fizeram coisas incríveis na vida e que, se houvesse um assassinato ali, eles provavelmente seriam capazes de solucionar o caso. Assim que tive esses dois pensamentos, a história nasceu. São quatro pessoas em seus 70 anos, muito diferentes entre si, mas que se interessam por assassinatos como todo britânico. Os mais velhos tendem a ser esquecidos e negligenciados, e muitas vezes esquecemos os talentos que eles têm.

    Seu livro de estreia é a segunda ficção a vender mais de 1 milhão de cópias no Reino Unido, atrás apenas de Dan Brown. O senhor é considerado o maior fenômeno britânico desde J.K Rowling. A que atribui todo esse sucesso sendo um autor iniciante? A história faz as pessoas rirem e chorarem. Tem um mistério e quatro protagonistas amados pelos leitores. Por serem idosos, acredito que isso faça com que as pessoas se sintam otimistas em relação ao envelhecimento, sabendo que você ainda pode ter novas aventuras, se meter em encrencas e conhecer novos amigos muito mais tarde na vida. Mas é algo que não dá para prever, porque se soubéssemos o motivo exato de um livro ter sucesso, então todas as obras seriam exatamente iguais.

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    O Clube do Crime das Quintas-Feiras, livro de estreia de Richard Osman, e O Homen que Morreu Duas Vezes, sequência da história. utor é publicado no Brasil pela editora Intrínseca Intrinseca/VEJA.com

    Fica preocupado com a possibilidade de que as pessoas estejam comprando o seu livro por sua fama na TV? Sim, bastante. Por isso eu adoro que a história esteja sendo um sucesso também em outros países, porque no Brasil, na China ou na Rússia as pessoas não sabem quem eu sou. Steven Spielberg não sabia quem eu era antes de escrever o roteiro para o filme. Então é lindo ver o sucesso em países onde as pessoas não me assistem na TV todas as noites, porque mostra que os leitores estão gostando da história por ela mesma, pelos personagens e pelo mistério.

    O trabalho na TV influenciou na sua escrita? A maior parte da minha carreira foi como produtor de TV e quando você comanda um programa na televisão precisa estar ciente de que as pessoas mudam de canal o tempo todo, então é preciso prender a atenção dos espectadores dando a eles coisas emocionantes. Não pensei nisso deliberadamente enquanto escrevia, mas meus capítulos são curtos e eu estou sempre levantando perguntas para serem respondidas. Ser um produtor de TV me ajudou a entender como prender a atenção das pessoas e o que é preciso para contar uma boa história. Então, sim, provavelmente a minha experiência na televisão tem muito a ver com o quanto as pessoas gostaram do livro.

    E por falar na televisão, já existe uma adaptação para a história encomendada. O que pode nos adiantar? Sim, será um filme dirigido pelo Steven Spielberg. Eu não dou muito pitacos porque Spielberg pode fazer o que quiser, não precisa do meu conselho. Então eu farei o meu trabalho, que é seguir escrevendo livros, e ele fará o dele, certamente muito bem, com o filme.  Não estamos viajando por conta da pandemia mas quero ir aos Estados Unidos no início do próximo ano e uma das primeiras coisas que farei é bater na porta dele e me apresentar. Também seria divertido visitar o Brasil na volta porque a única vez que estive aí foi sentado no aeroporto de São Paulo em uma escala de 25 minutos, preciso ficar um pouco mais da próxima vez. 

    O povo inglês tem fama de ser metódico, tem algum ritual de escrita? Sim, eu tenho os meus rituais. Há uma escritora irlandesa chamada Marian Keys e ela disse em um artigo que todos os dias, antes de começar a escrever, ela acende uma vela. Eu gostei da ideia então comecei a fazer o mesmo. Todos os dias eu preparo uma xícara de chá de ervas, acendo uma vela e tento escrever 1.000 palavras. Qualquer um que escreve sabe que tudo depende de uma rotina, é como ir à academia, é importante ter disciplina.

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