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Provocativo, livro ‘Bons Tempos’ leva esposa ‘tradwife’ do TikTok para o século XIX

Com o best-seller, a autora Caro Claire Burke expõe hipocrisias e contradições de um fenômeno em alta

Por Kelly Miyashiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 ago 2026, 08h00
Provocativo, livro ‘Bons Tempos’ leva esposa ‘tradwife’ do TikTok para o século XIX Priorizar nos meus resultados Google

Natalie acredita ter a vida perfeita. Cristã fervorosa, casada com o herdeiro de uma longa dinastia política conservadora e mãe de cinco filhos — um sexto no forninho —, a mulher de 32 anos ostenta nas redes sociais uma rotina idílica na fazenda de 200 hectares da família em Idaho, no Oeste americano. O estilo de vida idealizado, no qual a dona de casa se dedica unicamente ao marido e aos filhos — enquanto compartilha com seus milhões de seguidores receitas orgânicas e ideais de fé e de submissão feminina —, fez dela uma influenciadora digital bem-sucedida e multimilionária.

IMPACTADA - Anne Hathaway: a atriz vai estrelar adaptação para o cinema
IMPACTADA - Anne Hathaway: a atriz vai estrelar adaptação para o cinema (Brianna Bryson/Getty Images)

A nostalgia por um passado no qual os papéis de gênero pareciam mais simples e “corretos” se revela muito menos romântica quando Natalie, em um belo dia, desperta em sua casa, mas em outra época: mais especificamente no ano de 1855 — quando a esposa ideal não tinha voz, poder de decisão nem meios para se defender da opressão masculina. Assim começa o livro Bons Tempos, que acaba de chegar ao Brasil embalado pelo sucesso alcançado lá fora: lançado em abril nos Estados Unidos, o romance ácido da autora Caro Claire Burke já vendeu 1,4 milhão de cópias — e teve os direitos adquiridos pela atriz Anne Hathaway, que vai produzir e estrelar uma adaptação da obra.

A trama provocativa evoca o curioso fenômeno on-line das chamadas tradwives — esposas tradicionais, em tradução livre. O movimento de jovens mulheres que optam por ficar em casa com os filhos — e compartilham seu dia a dia no TikTok — viralizou em 2024 e continuou crescendo, somando, até hoje, mais de 300 milhões de visualizações na plataforma. Criada em uma família religiosa, a escritora e jornalista de 32 anos demorou a se dissociar da influência recebida na infância. Logo, ficou impressionada com a popularização desse discurso antigo. Caro, então, escreveu o livro como uma sátira à obsessão pela suposta vida perfeita e jogou luz sobre as contradições do próprio movimento.

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Capa do livro Bons tempos de Caro Claire Burke. A parte superior rasgada revela uma pintura de uma mulher ordenhando uma vaca em um campo verde com outras vacas e céu azul. A parte inferior mostra o rosto de uma mulher com maquiagem suave, cabelo escuro e lábios entreabertos, em um fundo cinza
BONS TEMPOS, de Caro Claire Burke (tradução de Anna Castro, Rocco, 368 págs., R$ 69,90 e R$ 34,90 reais o e-book) (./.)

Na trama do livro, longe das câmeras, Natalie conta com a ajuda de duas babás, tem pouquíssima paciência com os filhos e acha o marido um bocó — e sabe que ele não é dos mais fiéis. Alternando a narrativa entre passado e presente, a autora revela aos poucos como a protagonista viajou no tempo, enquanto discorre sobre o óbvio: Natalie é livre para ter perfis em redes sociais, monetizar a própria rotina e criticar mulheres que seguiram caminhos distintos, a quem chama de “feministas raivosas”. No passado, porém, outras mulheres sofreram e lutaram justamente pela liberdade de escolha e pelo direito à proteção de seus corpos e bens. Como diz uma antiga canção, o passado é uma roupa que não nos serve mais.

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Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009

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