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“Precisamos de comédias para sobreviver”, diz diretor de ‘A Gaiola Dourada’

Comparado ao espanhol Pedro Almodóvar, o cineasta Ruben Alves dominou as bilheterias na Europa com um filme sobre imigrantes portugueses na França

Por Raquel Carneiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 mar 2014, 19h46

Nascido em Paris, filho de portugueses, o diretor e ator Ruben Alves queria escrever um filme, mas não sabia exatamente sobre o que falar. Foi então que, em uma viagem a Lisboa, ele escreveu um roteiro sobre franceses expatriados que vivem em Portugal. Ao apresentar a ideia para um amigo o óbvio veio à tona: por que não fazer o contrário e contar a história de sua família? Foi então que nasceu o roteiro de A Gaiola Dourada, comédia que estreou na sexta-feira nos cinemas brasileiros.

Na trama, o casal de portugueses, Maria (Rita Blanco) e José (Joaquim de Almeida), saem de sua terra natal e partem para a França, país próximo e mais rico. Lá ambos são empregados em um bairro nobre de Paris. Maria como zeladora de um prédio, e José como mestre de obras, porém, quando ele está em casa, não tem paz por ser sempre solicitado como quebra-galho dos moradores. A história ganha novos ares quando uma herança inesperada surge. Para desfrutar dela, o casal deve voltar para Portugal. Apesar de a notícia ser a realização de um sonho distante, os dois estão tão enraizados na vida que levam há 30 anos, que ficam na dúvida sobre o que fazer.

Na vida real, a herança não existe, mas os pais do diretor, assim como muitos outros portugueses, também partiram para a França fugindo do salazarismo. Sua mãe se tornou zeladora, o pai, pedreiro. “Eles fizeram isso em busca de uma vida melhor para os filhos. E o mínimo que eu poderia fazer era homenageá-los em meu primeiro filme”, disse Alves em entrevista ao site de VEJA.

Comparado ao diretor espanhol Pedro Almodóvar, o cineasta luso-francês viu seu filme pessoal se tornar um grande sucesso de bilheteria na Europa. Foram mais de 1 milhão de espectadores na França. E em Portugal foi o filme mais visto de 2013.

Em sua opinião, por que um filme com uma temática simples e cotidiana para os europeus se tornou um sucesso de bilheteria? Fiz o filme para homenagear meus pais. Eles estão na França há 40 anos, saíram de uma ditadura para tentar outras oportunidades. Eles fizeram isso em busca de uma vida melhor para os filhos. E o mínimo que eu poderia fazer era homenageá-los em meu primeiro filme. Apesar de ser algo cotidiano, o povo português na França é muito discreto. Quase não se fala deles. Eles só trabalham, não tem lazer. Então quis jogar luz sobre essa questão.

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Como surgiu o nome A Gaiola Dourada? Vi uma matéria com uma zeladora portuguesa na França. Ao ser perguntada se queria voltar para Portugal ela disse: “Claro que quero voltar para Portugal”. Depois de pensar um pouco ela acrescentou: “Mas ao mesmo tempo me sinto tão bem em minha pequena gaiola dourada”. Então entendi que deveria falar sobre essas pessoas, que sentem saudade de sua casa, mas ao mesmo tempo se acostumaram com um país que lhes deu independência econômica e intelectual.

O diretor e ator Ruben Alves, com o prêmio de melhor filme europeu de 2013 por 'A Gaiola Dourada'
O diretor e ator Ruben Alves, com o prêmio de melhor filme europeu de 2013 por ‘A Gaiola Dourada’ (VEJA)

Você é francês, mas fala português fluente. Como fez para manter as raízes longe do país de seus pais? Eles sempre me levavam a Portugal de férias. Então convivi com a típica grande família portuguesa, com dez tios, primos. E lá meus pais só nos permitia falar português, nada de francês. Éramos obrigados. Hoje agradeço por isso, por ter uma dupla cultura e ter o poder de falar português, que tem sido valorizado. Com o tempo me interessei sozinho pela minha cultura. Sou português e adotei essa identidade. Tenho primos que nem falam a língua, que não se interessam por suas raízes, uma pena.

O filme alfineta o estilo de vida e pensamentos dos franceses. Como isso foi recebido no país? Eu brinco com os clichês franceses, mas também com os portugueses. É um filme leve. E o francês gosta de descobrir coisas novas e também saber mais sobre si mesmo. Apesar de ser um filme de lá, traz atores portugueses desconhecidos como protagonistas. O público e a crítica gostaram. Fiquei surpreso, pois era um filme pequeno e muito pessoal.

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As comédias brasileiras estão em alta por aqui. E seu filme, também uma comédia, foi bem recebido na Europa. Por que o estilo tem feito tanto sucesso no cinema atualmente? A vida está cada vez mais difícil. Estamos muito individualistas. Antes tínhamos nosso dia a dia era mais simples e menos egoísta. A Europa tem vivido uma crise. Então creio que o público precisa se divertir um pouco. Precisamos de mais leveza. Precisamos de comédias para sobreviver. Porém, a comédia sem profundidade pode funcionar na bilheteria, mas quando o público encontra uma comédia que traz um pensamento, algo para refletir, então vale mais a pena. Você ri, mas depois passa por uma reflexão. Esse é o estilo de comédia que eu gosto.

O que acha das comparações com Pedro Almodóvar? É uma honra. Sou muito fã. Recentemente concorri com ele em uma premiação e ganhei. Fiquei surpreso. Depois ele veio me parabenizar, pois no meu discurso disse que era uma honra estar no mesmo local que ele. Acho que as comparações têm surgido mais pela estética do filme, o jeito de usar a luz, os cenários. Mas fico contente, pois ele é uma inspiração.

No longa você também atua no papel de Miguel. Prefere atuar ou dirigir? Acho que atuar é bem mais fácil, apesar de ser sua imagem e sua cara a tapa ali na cena. Mas nos bastidores você é tratado como um bebê. Depois de A Gaiola Dourada eu fiz o filme Yves Saint Laurent, no papel de Fernando Sanchez. E, sinceramente, me sentia de férias. Tudo estava sempre pronto para mim, que só tinha que saber o texto e entrar em cena. Quando você dirige um filme, você está sozinho em tudo. Desde conseguir dar início, até produzir, escolher o elenco, até a distribuição. É um trabalho árduo. Pede muita energia.

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Quais são seus próximos planos? Já estou pensando em meu segundo filme. Comecei a escrever, tenho duas ideias em mente, uma totalmente diferente da outra. Por isso ainda é cedo para dar detalhes.

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