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Porchat lança série sobre a história do humor: ‘Entender de onde viemos’

Comediante fala a VEJA sobre sua nova aposta no streaming, o programa 'O Que Você Não Sabia Sobre o Humor Brasileiro'

Por Amanda Capuano 18 Maio 2022, 17h54

A televisão foi, durante décadas, uma vitrine valiosa para o humor brasileiro. Programas como A Praça É Nossa, Casseta e Planeta, Zorra Total e A Escolinha do Professor Raimundo marcaram época com piadas e quadros até hoje lembrados pelos espectadores. Agora, o humorista Fábio Porchat usa o streaming para revisitar a vasta história do riso nacional na série documental O Que Você Não Sabia Sobre o Humor Brasileiro, que chega no próximo dia 25 ao Star+. Dividida em seis episódios, a produção se debruça sobre imagens de arquivos e entrevistas que passeiam por diferentes épocas da comédia nacional, além de dissecar a ciência por trás do riso. Entre os convidados, figuras da “velha guarda” do humor, como Carlos Alberto de Nóbrega e Tom Cavalcante se unem a nomes hoje em alta, como Marcelo Adnet, Paulo Vieira e Gregório Duvivier. Em entrevista a VEJA, Porchat comentou sobre pontos levantados ao longo do documentário, como a essência do humor, seus limites, sua relação com a política, a adaptação das piadas para o cenário atual e a comédia na era do cancelamento: “é delicado julgar o ontem com os olhos de hoje”. Confira:

Você costuma usar o humor para falar sobre questões relevantes da sociedade, mas dessa vez resolveu discutir o humor em si em uma série documental. Por que essa escolha? A gente vive um momento em que debatemos o humor e seus limites. O que que pode, o que não pode. Estamos fazendo uma autoanálise como sociedade e senti que esse era um bom momento para ir a fundo, investigar cientificamente e entender a opinião das pessoas das mais diversas gerações

Falando em gerações, a série traz depoimentos de membros da “velha guarda” da comédia, quando o humor ainda era muito permeado por preconceitos. Você sente que houve uma evolução? Todo comediante conectado ao nosso tempo percebeu que as coisas mudaram. A gente precisa olhar para o passado para entender de onde viemos e para onde vamos, mas é delicado julgar o ontem com os olhos de hoje. Não adianta apontar o dedo para o Costinha por algo dos anos 1980 e ficar pedindo para o Casseta e Planeta se explicar. O importante é quem pegar o bastão daqui para frente correr para o lado certo. Naquela época, tinha piada machista, homofóbica, racista, e o Brasil inteiro ria. Seguir defendendo que isso seja feito hoje é que seria um problema. Precisamos olhar para frente. É como ficar apontando o que cada um fez errado nas eleições de 2018 quando precisamos mesmo focar em 2022 e votar certo. 

Outro ponto em que a série toca é de um humor como crítica política. O Porta dos Fundos é muito atacado por bolsonaristas, mas o Casseta e Planeta, por exemplo, sempre fez alfinetadas do tipo com o PT. Como analisa a perseguição contra o humor? Acho que as pessoas estão ficando cada vez menos propensas a rir de si mesmas. Eu não costumo pagar pau pra americano, mas se tem uma coisa que eles fazem com maestria é rir de si mesmo. O próprio presidente faz um show de stand up se sacaneando. No Brasil, as pessoas se levam muito a sério. Nós somos o país do “Você sabe com quem você tá falando?”, que mostra que a pessoa é tão grande que não se pode falar sobre ela. Precisamos mudar isso porque ninguém é melhor do que ninguém. A gente tem que poder bater em todo mundo igual, e tem que bater em quem está no poder. Se quis chegar até lá, tem que aguentar apanhar também.

Então o protesto é uma função primordial do humor? A função do humor é fazer rir, mas quando a gente consegue jogar um holofote sobre alguma coisa obscura é uma maravilha porque a gente faz as pessoas pensarem. O humor é também uma arma importantíssima para a liberdade de expressão. O comediante é um dos grandes responsáveis por esticar a corda e movimentar a sociedade, abalar as estruturas.

Falando nisso, tivemos o caso do Will Smith e do Chris Rock no Oscar e mais recentemente um ataque ao Dave Chappelle no palco de uma apresentação. A sociedade se tornou intolerante com piadas? Eu sinto que as pessoas estão muito raivosas. A gente precisa ouvir e aceitar mais. Mas é difícil pedir para uma mulher que sofre com o machismo há anos para aceitar mais. O gay, a mulher, o negro, as minorias, de uma maneira geral, não aguentam mais. Eles estão morrendo por esse tipo de coisa. Não dá pra pedir calma para uma população escravizada. É pé na porta mesmo. Mas eu sinto que essa violência não parte de quem apanhou a vida toda. É uma violência desmedida de quem não quer aceitar a inclusão. Quem se incomoda, geralmente, é o homem hétero e branco no topo da pirâmide, que acha que pode ridicularizar só quem ele quiser e como ele quiser. Mas a base da pirâmide é maior que ele, e cansou dessa lógica.

Então há um limite para o humor? Eu acho que não há nada sagrado para o humor. O humor tem que poder tudo, desde que dentro da lei. Ele vai desagradar, desrespeitar, falar coisas de mau gosto, e para tudo acha-se um público. O grande problema hoje é o não pode. As pessoas acham que não se pode fazer piada sobre algo só porque elas não gostam. Poder pode. E eu não falo sobre piadas preconceituosas. Pode fazer piada com gay sim, o negócio é que antigamente as piadas humilhavam os gays, e eu não acho que eles viam graça nisso. Pode fazer piada com religião também. O que eu não posso é vilipendiar a fé alheia, incitar intolerância, chutar uma santa, invadir um templo de candomblé. Até porque, isso é um crime. Estamos no meio de uma mudança. É um furacão positivo, mas há muita resistência de quem não quer que as coisas mudem.

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