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Por que Xuxa deveria abandonar o terninho?

Criticada na internet por trocar visual dito feminino por outro considerado masculino, apresentadora põe em xeque as convenções de gênero na moda

Por Maria Carolina Maia 12 nov 2015, 16h21

Com mais de 30 anos de TV e figurinos de causar vergonha – nos anos 1980, ela vestiu peças verdadeiramente tenebrosas -, Xuxa enfrenta pela primeira vez uma forte oposição ao seu guarda-roupa. Isso porque, além de copiar o programa da americana Ellen DeGeneres, a brasileira resolveu replicar a imagem da apresentadora, adepta de cabelos curtos, terninhos e gravatas. Para parte dos fãs, Xuxa deixou de ser “feminina” e essa mudança seria um erro. Ela deveria, dizem esses mesmos fãs, abandonar o terninho e voltar ao vestido e às saias. A pressão sobre a apresentadora é tão grande que levou até Silvio Santos, no palco do Teleton deste ano, a dar pitaco contra as suas escolhas. Tamanha ingerência fez Xuxa desabafar no palco de seu programa, na última segunda-feira. “Não aguento mais”, disparou, em conversa com a atriz Luana Piovani, a quem disse invejar a maneira – curta e grossa – como responde a comentários inconvenientes.

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É verdade que um artista é uma espécie de produto, consumido por pessoas que com ele se identificam, seja lá por que razão. Mas até onde vai a liberdade, e mesmo o direito, do fã de opinar e sugerir mudanças – alguns têm sido agressivos com Xuxa, lançando mão de ofensas para impor seu gosto – e se há algum limite para a autonomia do artista são questões que podem e devem ser discutidas. Ainda que produto, uma figura pública é, antes de tudo, uma pessoa.

Também é verdade que Xuxa não foi original ao adotar o visual – e o formato do programa – de Ellen DeGeneres. A atração que apresenta desde agosto na Record é uma cópia piorada do talk-show comandado por Ellen na TV americana. Recém-saída da Globo, a apresentadora também acenou e fez reverência, na sua estreia em nova emissora, a Hebe Camargo e Silvio Santos, do SBT, embora seu programa não mostre a força da atração de nenhum desses pares. Xuxa pode, portanto e sem dúvida, ser acusada de falta de criatividade. E seu novo visual pode, de fato, ser dito de inspiração masculina. Mas daí a ofendê-la por isso, como alguns chegam a fazer, vai uma boa distância.

Além de ter o direito de se vestir como bem entende e de querer ser julgada não pela embalagem, mas pelo conteúdo que oferece, este sim bastante questionável, Xuxa vem dando uma contribuição, talvez de forma involuntária, a uma discussão que está quente nos últimos tempos: a dos papéis atribuídos aos gêneros. Como expressão da população, a moda é, afinal, um terreno perpassado por questões sociais, e nesse caso não seria diferente. Em um mundo em que Thammys e Caitlyn Jenners lutam pela legitimidade de suas redefinições de gênero, para o assombro de uma parcela do público, e que estrelas de Hollywood põem na ordem do dia a briga pela equidade salaria entre homens e mulheres, por que Xuxa não poderia usar terninhos? Por que usar uma gravata faria dela um protótipo de homem? E, se ela desejasse isso, por que seria um problema?

Xuxa acerta em se manter firme na sua decisão e não aposentar o traje à la Ellen DeGeneres. Pode não demonstrar aquela personalidade toda, já que copia a americana, mas colabora para um debate bastante atual.

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