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Pinacoteca resgata a vida e obra de Ismael Nery, o ‘pintor maldito’

Exposição enfoca a vida e a obra do paraense, que foi renegado durante décadas — e ganhou novo olhar por seu pioneirismo

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 5 set 2026, 08h00
Pinacoteca resgata a vida e obra de Ismael Nery, o ‘pintor maldito’ Priorize VEJA no Google

Aos 26 anos, o católico fervoroso Ismael Nery (1900-1934) atestou que morreria de fome e de sede aos 33 anos, como Jesus Cristo. No auge da juventude e da força física, a fala parecia delírio, mas ganhou ares premonitórios mais tarde, quando o pintor contraiu uma tuberculose, aos 32. “Ele teve uma úlcera gástrica em decorrência da doença e não conseguia nem beber e nem comer direito. Com isso, a saúde degringolou rapidamente, e ele de fato morreu aos 33”, explica Yuri Quevedo, curador da exposição Ismael Nery: Armadilha Moderna, que abre neste sábado, 5, na Pinacoteca de São Paulo.

Reunindo 230 desenhos e pinturas feitos no curso de uma carreira breve, de pouco mais de quinze anos, a mostra apresenta ao público um artista que foi escanteado durante décadas, especialmente por não se alinhar à busca da identidade puramente nacional propalada pelo modernismo brasileiro. Além disso, sua intensa religiosidade e toda a mística ao redor de sua vida e morte lhe renderam a alcunha nada elogiosa de “pintor maldito”. “Ele abraçou essa ideia de um artista renegado e pouco atento às questões do seu tempo, com uma intimidade muito exuberante e desencaixada do status quo”, conta o curador.

Nascido em Belém e criado no Rio de Janeiro, Nery começou a desenhar aos 16 anos. Desenvolveu uma arte pautada na busca filosófica por um ser humano universal e espiritual, sem época, nacionalidade e nem mesmo gênero e idade. Para ele, a vida e, consequentemente, a arte nada mais eram do que “uma luta entre o espírito e a matéria”. Em uma de suas obras mais famosas, Dois Irmãos, a face do artista e a de sua esposa, a poeta Adalgisa (1905-1980), estão sobrepostas e com traços semelhantes, como partes complementares de um mesmo organismo. A lógica também é vista em Três Figuras, que reflete a espécie de androginia metafísica de Nery. “O artista deve procurar a verdade, e não a beleza”, disse certa vez. “Ele almejava a eternidade prometida pelo cristianismo, e essa eternidade para ele significa abstrair o tempo e o espaço e se ver livre de dimensões que corrompem o corpo”, sugere Quevedo, apontando a relação próxima entre a obra e a crença do pintor.

Batizada anos depois pelo amigo e poeta Murilo Mendes como essencialismo, a visão artística e filosófica de Nery foi muito incompreendida durante sua vida e quase acabou totalmente esquecida. Nisso, no entanto, ele tinha uma boa dose de culpa: ao longo da carreira, o artista possuía o triste hábito de se livrar dos próprios trabalhos, tendo jogado dezenas de desenhos e pinturas no lixo. A prática se dava porque Nery não estava interessado diretamente nos retratos, e sim nas discussões filosóficas e existenciais que levavam a eles. Sua arte só sobreviveu graças a Mendes e Adalgisa, que recolhiam as obras descartadas por ele. Não surpreende que seu último pedido ao amigo, já no leito de morte, foi para que queimasse todo o seu acervo sobrevivente. Contrariando o pedido, o poeta não apenas conservou os trabalhos de Nery como foi um dos grandes responsáveis por salvar e divulgar o legado do artista. Logo após a morte do paraense, Mendes organizou exposições póstumas e publicou uma série de artigos para tentar impulsionar a arte do amigo. A redescoberta, no entanto, só aconteceu de fato a partir de 1965, quando uma mostra na Bienal Internacional de São Paulo deu o devido destaque ao pioneirismo de Nery em aproximar a arte brasileira de vanguardas europeias como o cubismo, o expressionismo e, especialmente, o surrealismo.

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COMPLEXO - O pintor: vida breve e obra que quase foi destruída
COMPLEXO - O pintor: vida breve e obra que quase foi destruída (./Reprodução)

Agora, a Pinacoteca quer mostrar que, apesar da imagem de pintor alheio ao país, Nery olhava, sim, para sua terra natal, mas de uma maneira única em seu tempo. “O Brasil aparece em várias pinturas, mas não é uma visão como a de Tarsila, que queria mostrar a exuberância do país. Ele entendia o Brasil como um espaço moderno, como Paris”, explica o curador, apontando que o artista pintou o Rio de Janeiro em pé de igualdade com a capital francesa no Autorretrato Rio/Paris, um dos destaques da exposição.

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A mostra também realça o papel essencial de Adalgisa: além de salvar as obras do artista, a poeta é retratada em diversos quadros do marido, inclusive fundindo-se a ele. “É uma dúvida insolúvel entre quem é Nery e quem é Adalgisa. Eles tinham uma completude como casal que ultrapassa a ideia de modelo e pintor”, explica Quevedo. Depois da morte de Nery, Adalgisa voltou-se para a literatura e para o jornalismo, foi ativista política e virou uma figura central na cultura brasileira, apelidada até de musa do modernismo: ela foi retratada ainda por artistas como Candido Portinari e o mexicano Diego Rivera e inspirou poetas, entre eles Carlos Drummond de Andrade. Já a obra de Nery acabou fragmentada — e a reunião para a mostra revelou-se hercúlea. “São pinturas que estavam em cinquenta coleções diferentes, entre particulares e institucionais. Foi um trabalho quase arqueológico”, conta o curador sobre a exposição, que fica em cartaz até janeiro de 2027. O desejo da instituição é que a mostra, enfim, explore toda a complexidade de Nery — e que ele seja devidamente abraçado pelo Brasil, como merece. É um bem-vindo renascimento artístico.

Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011

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