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Pelos caminhos de Lygia Clark

Retrospectiva da artista em São Paulo mostra como a sensorialidade que iria consagrá-la em obras como as da série ‘Bichos’ já estavam presentes em sua pintura, no começo da carreira

Por Meire Kusumoto Atualizado em 10 dez 2018, 10h33 - Publicado em 10 set 2012, 08h02

Reunião de 140 obras, três delas inéditas, entre pinturas, esculturas, maquetes e proposições interativas, a exposição Lygia Clark: Uma Retrospectiva, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo, é uma mostra necessária. Não apenas por apresentar em perspectiva a obra de Lygia Clark (1920-88), um dos grandes nomes das artes plásticas brasileiras, mas por mostrar como um artista corajoso pode fazer seu destino.

Lygia começou como pintora e terminou como criadora de um novo sujeito artístico. Dentro da sua proposta, o espectador abandona a condição passiva diante da obra e passa a interagir com ela, estabelecendo uma relação de transferência e doação. Para um de seus projetos, O Homem no Centro dos Acontecimentos, um homem caminhou por uma cidade com um capacete que levava quatro câmeras acopladas. As imagens captadas são agora exibidas em uma cabine quadrada da exposição, onde cada parede reproduz o conteúdo de uma das câmeras e o visitante, imerso entre essas projeções, pode refazer o trajeto urbano e estético do homem do capacete. O Homem no Centro dos Acontecimentos é um dos três projetos inéditos de Lygia, que não chegou a executar a obra e apenas deixou instruções de como ela deveria ser feita, orientação usada pela primeira vez para a mostra do Itaú Cultural.

A Casa É o Corpo, de 1968, consiste num túnel que, fase a fase, apresenta desde a fecundação de um óvulo até o nascimento de um indivíduo. O visitante começa com a “perfuração do óvulo”, representado por bolas brancas, e termina numa área cheia de espelhos de imagens distorcidas. É como abrir os olhos pela primeira vez. Segundo Felipe Scovino, curador da exposição junto com Paulo Sergio Duarte, a proposição é uma obra-síntese do trabalho de Lygia Clark e coloca à prova a concepção do espectador. “O visitante consegue perceber o deslocamento do sujeito, que de passivo se transforma em fluido, em corpo”, diz. Daí se conclui que, diferentemente das performances, em que o corpo do artista é o elemento mais importante, as obras de Lygia privilegiam o corpo do espectador.

https://www.youtube.com/watch?v=gUleSApYFuA

Mesmo com o investimento na interação, que teve início em 1964, em Paris, Lygia nunca deixou de pintar e de esculpir, como forma de se manter financeiramente. Ainda assim, para Scovino, as pinturas e esculturas da artista indicavam o caminho da sensorialidade que ela buscava, uma aliança entre olho e corpo. Suas obras sensoriais, mesmo as esculturas da famosa série Bichos, nunca perderam o traço geométrico de Lygia, muito presente em suas telas.

De acordo com Scovino, o trabalho da artista tem ressonâncias positivas pela arte brasileira e mundial, junto com Lygia Pape e Hélio Oiticica. “O trio neoconcreto, mesmo que cada um a seu modo, fala sobre corpo, cor e sensorialidade e cria uma arte diferente de happenings e performances, comuns na Europa e nos Estados Unidos”, afirma. As obras de Lygia Clark já passaram por exposições nos Estados Unidos, Inglaterra, Turquia e França.

A mostra – A exposição se divide em quatro andares. O primeiro piso traz A Casa É o Corpo, a série Bichos e algumas pinturas do final dos anos 1940 até 1964. O térreo tem a peça inédita Campo de Minas, um tablado com áreas imantadas que deve ser percorrido pelo público com sapatos magnetizados. Em determinadas partes, os pés podem ser atraídos ao chão, impedindo o movimento dos participantes. No primeiro subsolo, estão mais algumas pinturas, que cercam projetos arquitetônicos de Lygia. As maquetes propõem casas com paredes móveis, ajustáveis para aumentar ou diminuir o tamanho dos cômodos. Já o segundo subsolo traz diversos objetos sensoriais, produzidos entre os anos 1960 e 1970.

A exposição Lygia Clark: Uma Retrospectiva fica aberta para visitação até 11 de novembro, de terça a sexta-feira, das 9h às 20h e aos sábados, domingos e feriados das 11h às 20h. A entrada é gratuita. O Itaú Cultural fica na av. Paulista, 149, São Paulo. De 11 a 16 de setembro, o Itaú Cultural promove a mostra O Artista, com 12 filmes que abordam o mundo das artes visuais e dialogam com o mundo de Lygia Clark. Alguns dos filmes são inéditos e contam com obras biográficas de artistas plásticos como Vincent Van Gogh, Paul Gauguin, Henri Matisse e sobre os brasileiros Cildo Meireles, Nelson Leirner e o concretista Geraldo de Barros, contemporâneo de Lygia.

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