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Os últimos calígrafos do Líbano

Por Por Rana MOUSSAOUI 28 jul 2011, 14h43

Palavras que se entrelaçam, letras que se alongam e se dobram, em espiral: no Líbano, existem, apenas, um grupo de calígrafos que tenta salvar esta arte minuciosa e milenar, hoje negligenciada.

“O computador é formidável, mas não é um artista, não pode criar obras-primas”, desabafa para a AFP Mahmoud Baayoun, um dos mais conhecidos do país.

Nos quadros que decoram seu escritório, no centro de Beirute, misturam-se, majestosamente, letras árabes cursivas ou angulosas, para formar um versículo alcorânico, um provérbio árabe ou, simplesmente, um nome.

A caligrafia é uma arte por excelência do tempo dos califas, hoje pouco encorajada no Líbano, numa época de estilos formatatos no Word.

“Hoje, a caligrafia é mais estética do que útil e nós queremos preservar esse patrimônio”, comenta Baayoun, 75 anos, profissional desde a adolescência.

Como um escriba antigo, o artista consagra uma parte de seu tempo e a sua arte aos menus da presidência da República, por ocasião das recepções oficiais ou, às correspondências pessoais do primeiro-ministro, quando ele quer oferecer condolências ou felicitações.

“A mais longa carta que caligrafei foi a que Rafic Hariri endereçou, uma vez, a Hafez al-Assad, por ocasião de uma festa nacional”, orgulha-se o artista, em referência ao ex-primeiro-ministro libanês assassinado e ao ex-presidente sírio.

“Foram quatro páginas num estilo muito elegante”, lembra-se esse setuagenário, de barba branca.

Ele se empenha em caligrafar, pela terceira vez e a título pessoal, o Alcorão, o livro sagrado do Islã – um trabalho minucioso que requer três anos e alguns meses de devoção.

“É muito diferente das obras comerciais. Quando copio o Alcorão, eu me coloco espiritualmente e fisicamente”, detaca Baayoun, que já expôs seus trabalhos também nos Estados Unidos e no Irã.

O computador mata a caligrafia

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Nascida antes do Islã, a caligrafia teve impulso com esta religião revelada em língua árabe ao profeta Maomé, segundo a tradição. Com a compilação e a cópia do Alcorão, a escritura desenvolveu-se paralelamente, fazendo aparecer diferentes estilos, sempre a serviço da beleza do texto sagrado.

Esses estilos – seis canônicos (roukaï, naskhi, farsi, diwani, koufi, thuluth) – foram, então, formalizados, com a arte da escrita tornando-se um savoir-faire, e o ofício de calígrafo, muito solicitado.

O “diwani”, o estilo mais elegante reservado antigamente aos califas, é o único que pode ser imitado pelo computador, explicam os especialistas.

Se o Líbano não possui as impressionantes caligrafias das mesquitas do Maghreb ou da Andaluzia, conta, no entanto, com mestres ilustres, como Kamel el-Baba (1905-1991) e Nassib Makarem (1889-1971) conhecidos através do mundo árabe.

“Hoje, há menos de dez calígrafos autênticos no Líbano”, segundo Baayoun.

Em seu modesto apartamento do bairro popular de Basta, em Beirute, Salah el-Hafi, 80 anos, lembra-se, ainda, do dia em que Kamel el-Baba, observou seu talento. “Antigamente, o artista ganhava bem mas, com o computador, nada mais resta”, diz ele, perdido em seus pensamentos.

Sua escrita, gravada em numerosas placas comemorativas, desde a independência do Líbano, em 1943, continua a decorar fitas de buquês de flores ou pedras tumulares.

“Trabalho muito durante as eleições”, acrescenta com um sorriso, em referência às numerosas faixas que invadem a capital de um Líbano muito politizado.

Salah el-Hafi sonha em poder ensinar sua arte milenar às novas gerações.

Ao contrário do Líbano, onde essas escolas não existem, a Síria conta com 18; o Egito, 36, o Iraque, 100 e o Irã, 200.

No momento, Hafi se contenta em ser um calígrafo “free-lance” e a dar cursos, às vezes, num instituto de desenho em Beirute.

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