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Olivier fala sobre ‘Bake Off’, crise e vida no Brasil: ‘Daqui não saio’

O chef de cozinha francês ainda revela as dificuldades enfrentadas por seus restaurantes na pandemia e casos de racismo vividos pela esposa, Adriana Alves

Por Raquel Carneiro Atualizado em 3 mar 2021, 12h41 - Publicado em 3 mar 2021, 12h30

O francês Olivier Anquier pisou no Brasil pela primeira vez em 1979, fazendo turismo. A paixão foi imediata, e por aqui ele criou raízes. Trabalhou como modelo antes de se estabelecer como chef de cozinha e, em seguida, apresentador de TV. Hoje aos 61 anos, naturalizado brasileiro, Olivier está no ar no SBT com o programa Bake Off Brasil, em uma edição especial com celebridades, entre as quais Dalton Vigh, Dony De Nuccio e Maísa Silva. Ele fala a VEJA sobre a experiência na TV, os dilemas enfrentados por seus restaurantes na pandemia e a paixão pelo país:

Reality shows de culinária costumam ser voltados para profissionais da área como competidores. Sendo assim, como está sendo a experiência com o Bake Off Brasil, agora com celebridades em disputa? Inicialmente eu fiquei reticente, pois ficava pensando sobre como seria o desenvolvimento do programa com pessoas famosas, se teriam um ego exacerbado. Também tinha receios sobre se eles entregariam o que era pedido em cada prova, se esses personagens, que não são da área da culinária, segurariam as pontas por uma temporada inteira. Quando fomos gravar, essa sensação se foi rapidamente. Percebi que todos se prepararam para participar do programa, fizeram aulas, treinaram em casa. Então estavam afiados. Se mostraram à altura da competição, com muita seriedade. Foi uma grata surpresa.

Qual a maior dificuldade na confeitaria? A confeitaria é a parte mais complicada da culinária. É o prato que exige medidas mais precisas. Na culinária salgada, existe uma tolerância maior. Na confeitaria, não tem essa flexibilidade. Um erro de alguns gramas, de um ingrediente, pode mudar completamente a sobremesa e danificar seu preparo. A confeitaria é uma arte precisa e complexa.

Contrataria algum dos participantes ? Olha, eu diria que o vencedor do programa. Como não posso dizer quem venceu, fica essa resposta esperando pelo resultado.

Como estão seus restaurantes depois de meses fechados? O confinamento foi terrível, mas foi terrível para todos. Não só para restaurantes. Nós dos restaurantes sofremos, mas sei que muitas outras pessoas e áreas sofreram bem mais e continuam com dificuldades. Por isso, não me vejo no direito de me queixar. Muitos restaurantes faliram nesse período, pois, para ficar tantos meses fechados, é necessário um caixa de sobrevivência consistente. Tivemos a sorte de ter esse fundo de caixa para ficar de pé.

Tem receios de falir? Todos os dias. Nem tanto os restaurantes (L’Entrecôte d’Olivier e o Esther Rooftop), mas mais a padaria Mundo Pão. Uma das franquias não aguentou o confinamento e fechou. Foi fatal. Não tem gente na rua, o que é pior para as padarias. Mas tenho receios com o futuro. Quanto tempo isso vai durar? Com mais um confinamento, talvez a Mundo Pão que resta, na República, em São Paulo, não consiga segurar as pontas. Tem uma hora que não tem mais dinheiro, né. A realidade, infelizmente, destrói o que demoramos anos a construir.

O senhor é francês e se apaixonou pelo Brasil, se tornando brasileiro. Com as muitas crises que o país tem passado, chegou a pensar em se mudar daqui? Não. Cheguei aqui em 1979, vi muitos Brasis diferentes. Independentemente da loucura que cada fase trouxe ou nos fez viver, nunca impediram que, ano após ano, se consolidasse meu desejo de ficar, até eu virar brasileiro. Construí duas famílias aqui. Se tem uma coisa que eu penso é que não vou sair daqui nunca.

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Entre estes muitos “Brasis” que viu, como analisa o país hoje, com qualidades e falhas? Continua sendo o melhor lugar do mundo para se viver. Pois aqui tudo é possível. É um eldorado. Tem tudo, ao mesmo tempo em que não tem nada. O povo é receptivo. O que me fez ficar no Brasil há quarenta anos foi o jeito brasileiro de ser. E isso continua o mesmo, é um jeito único. Não conheço outro povo com essa alegria de vida, generosidade, facilidade de comunicação, e receptividade. E isso continua igual, então daqui não saio.

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Há treze anos o senhor é casado com a atriz brasileira Adriana Alves, que é negra. Como marido dela, já presenciou algum episódio de racismo? Já vivi, sim. Mas vivi isso em Paris, no Brasil, na Argentina. Não é uma exclusividade daqui. Mas é raridade, seja no Brasil, na França, ou em qualquer outro lugar. Acontece, ninguém é perfeito. Nenhuma nação é perfeita.

Pode dar um exemplo? Em Ilhabela, chegamos a um restaurante na praia, e sentamos em uma mesa que estava livre. A mesa do lado, que nem estava tão perto, tinha uma senhora de idade com um jovem que parecia ser seu neto. Quando ela viu que nos sentamos ali, mudou de mesa. Curiosamente, aconteceu exatamente a mesma cena em Paris. Uma avó e a netinha se mudaram de mesa ao sentarmos do lado dela. O racismo existe, vou fazer o quê? Problema dessas pessoas. Não nos deixou triste, pois ironizamos a situação. Quem são pessoas tristes são eles.

O mundo hoje passa por muitas crises. Como empreendedor, o que espera para um futuro próximo? Não tenho a mínima ideia. Hoje, eu não investiria em nada. Estou segurando as pontas daquilo que construí, quase desmoronou e ainda pode desmoronar.

E como pai e marido? Como marido, estou ótimo. Como pai, estou preocupado com o futuro da minha filhota. Meus filhos maiores têm 27 e 25 anos, estão conscientes sobre a sociedade onde vivem e sobre o futuro que estão construindo. Já a Olivia, de 4 anos, é completamente desarmada. Estou muito preocupado com o futuro, e em como essa pandemia vai transformar nossa vida. Se ela vai ter direito às liberdades que eu tive na minha vida e os meus filhos grandes também tiveram. Me parece que essa liberdade está em risco. É um grande ponto de interrogação.

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