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O universo particular do cineasta Wes Anderson

Diretor americano chega ao auge de sua fórmula, que mistura beleza, absurdo e realidade fantástica, com o filme ‘O Grande Hotel Budapeste’

Por Mariane Morisawa, de Los Angeles Atualizado em 19 jul 2018, 15h17 - Publicado em 6 jul 2014, 16h47

O cineasta Wes Anderson não é do tipo que produz grandes bilheterias e raramente é reconhecido por premiações como o Oscar – por seus oito filmes, ele concorreu a três troféus na cerimônia: roteiro adaptado por Os Excêntricos Tenenbaums (2001), animação por O Fantástico Sr. Raposo (2009) e roteiro original por Moonrise Kingdom (2012) -, contudo, o segredo do diretor para manter um grupo fiel de admiradores e se tornar um hit na internet é sua visão muito particular e levemente fantástica do mundo e do cinema, em que se misturam estética apurada, ironia e nostalgia do passado.

Tais ingredientes aparecem na medida certa em seu oitavo longa-metragem, O Grande Hotel Budapeste, em cartaz no Brasil. O filme é visto como o ponto forte de seu currículo, que superou suas bilheterias modestas, que ficavam em torno dos 30 milhões e 70 milhões de dólares, saltando para interessantes 164,7 milhões de dólares no mundo até o momento. Levar o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim este ano também ajudou. Por estes motivos, a produção já frequenta a lista de favoritos ao Oscar de 2015.

“Sua principal qualidade é que ele tem um modo único de enxergar o mundo”, diz Bill Murray sobre o diretor em entrevista ao site de VEJA no Festival de Berlim. O ator é um dos fãs de Anderson e começou a parceria com ele em Três É Demais (1998), segundo filme do cineasta que deu uma reviravolta na carreira de Murray, na época um intérprete de personagens bobos em comédias populares. Desde então, os dois não se largaram mais, trabalhando juntos nos sete filmes subsequentes.

A opinião de Willem Dafoe, que participou de A Vida Marinha com Steve Zissou (2004), O Fantástico Sr. Raposo e O Grande Hotel Budapeste é parecida. “Todos trabalhamos para que Wes se divirta e satisfaça suas fantasias, como diz o Bill Murray. E há prazer em ajudar alguém muito talentoso, com uma abordagem tão pessoal. É por isso que sempre queremos trabalhar com ele.”

Boa praça – Além de Murray e Dafoe, o time que trabalha com Anderson costuma se repetir de um filme para o outro, e o diretor faz questão de integrar ao máximo sua equipe, atitude considerada tão excêntrica quanto sua obra tratando-se de Hollywood.

Durante as filmagens de O Grande Hotel Budapeste, equipe e elenco ficaram hospedados no mesmo hotel em Görlitz, na Alemanha, onde as cenas foram rodadas. O diretor trouxe um chef, e todos tomavam café e jantavam juntos – Anderson odeia a cultura dos camarins individuais, em que cada pessoa se tranca no seu e não interage com os outros. “É o mundo encantado de Wes Anderson”, descreve o ator Jeff Goldblum, que trabalhou com o diretor pela segunda vez. O clima de camaradagem não significa moleza. Para criar seus universos fantásticos, tudo precisa seguir à risca. “Ele percebe se você deixa de falar o artigo ‘o’ em um diálogo longo”, conta Goldblum.

A insistência em fazer tudo do seu jeito é o que explica sua longevidade na carreira. “Crio tudo do zero simplesmente porque posso. Gosto da ideia de imaginar um espaço inteiro”, diz Anderson. Essa necessidade de exagerar na criatividade é percebida particularmente em um ponto curioso de O Grande Hotel Budapeste, que apesar de se passar em um lugar e período muito bem definidos – no Leste Europeu do período entre guerras, com a ascensão do nazismo à espreita -, o cineasta preferiu criar um país fictício como pano de fundo para a trama.

Há 20 anos no mercado e com a carreira consolidada, Anderson não é mais comparado a outros diretores parecidos, como Tim Burton, por exemplo. Sua marca pessoal já é forte o suficiente para que ele não seja confundido. Tanto que seu estilo é alvo de “estudo” dos amantes da sétima arte na internet. Tumblrs, como o Wes Anderson Palettes, e vídeos no YouTube fazem montagens e análises sobre as obras do diretor. Entre os principais ingredientes da fórmula utilizada por Anderson estão dois elementos aclamados.

Um deles é o jeito que o diretor gosta de filmar cenas longas em que a câmera, montada sobre um carrinho em trilhos como os de trem, move-se horizontalmente (da esquerda para a direita e vice-versa) e verticalmente (de trás para a frente), com muitos elementos entrando e saindo de cena em perfeita sincronia. Anderson não costuma gostar muito de alternar cenas curtas, picotadas. Nesse sentido, há uma aproximação com o teatro, com a câmera passeando pelos cenários junto com os atores, que podem desenvolver os diálogos completamente. Os personagens sempre andam em linhas retas, nunca na diagonal.

Mas sua característica estética mais marcante é o uso da simetria. Quem observa bem, vê que o centro exato da tela corresponde ao centro exato da cena (praticamente em 100% delas, o nariz do ator está exatamente no centro da tela). Wes Anderson também gostar de arranjar objetos e pessoas de modo a ter um quadro equilibrado.

 

Os filmes de Wes Anderson

‘O Grande Hotel Budapeste’ (2014)

Um escritor (Jude Law) ouve do Sr. Moustafa (F. Murray Abraham) as histórias gloriosas de sua juventude como o mensageiro Zero (Tony Revolori), ao lado do concierge Gustave (Ralph Fiennes).

 

‘Moonrise Kingdom’ (2012)

Os adolescentes Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward) decidem fugir de casa e viver juntos na natureza, o que provoca uma caça da polícia e do chefe dos escoteiros pelos dois.

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‘O Fantástico Sr. Raposo’ (2009)

Na animação em stop motion baseada no livro de Roald Dahl, o Sr. Raposo (voz original de George Clooney) deixa sua vida de jornalista para voltar a seus hábitos antigos e roubar mais uma vez, por vingança.

‘Viagem a Darjeeling’ (2007)

Sem se falar desde a morte do pai há um ano, três irmãos (Adrien Brody, Owen Wilson e Jason Schwartzman) vão para a Índia para tentar se encontrar.

‘A Vida Marinha com Steve Zissou’ (2004)

Steve Zissou (Bill Murray) é um oceanógrafo e apresentador de documentários sem graça que sai em busca de um tubarão. O brasileiro Seu Jorge é um dos membros da tripulação, que reúne Cate Blanchett e Anjelica Huston.

‘Os Excêntricos Tenenbaums’ (2001)

Três irmãos (Ben Stiller, Gwyneth Paltrow e Luke Wilson), prodígios quando crianças, agora tentam sobreviver às suas neuroses e a seus fracassos na vida adulta.

‘Três é Demais’ (1998)

Jason Schwartzman é Max Fischer, um adolescente popular numa escola de elite, que se apaixona por uma professora (Olivia Williams) também amada por um milionário (Bill Murray).

‘Pura Adrenalina’ (1996)

Dois amigos de classe média (interpretados pelos irmãos Luke Wilson e Owen Wilson) passam o tempo tentando inventar uma maneira de cometer crimes.

 

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