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O tema recorrente no Festival de Cinema de Gramado de 2026

De Antártida a Pele de Rinoceronte, filmes da 54ª edição tocaram em assuntos espinhosos para mulheres

Por Kelly Miyashiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 ago 2026, 18h48
O tema recorrente no Festival de Cinema de Gramado de 2026 Priorizar nos meus resultados Google

Poucos temas atravessaram a programação do Festival de Cinema de Gramado em 2026 com tanta insistência quanto a violência contra a mulher. Em filmes de gêneros e propostas diferentes, o abuso aparece de maneiras distintas: como violência sexual, feminicídio, dependência emocional e relações domésticas marcadas pelo controle e pela agressividade. O resultado é um retrato multifacetado de um problema que o cinema brasileiro tem transformado em matéria de debate público.

A recorrência já se manifestou na abertura do festival, com Antártida, de Bruno Safadi, exibido fora de competição. A trama acompanha Inês, personagem interpretada por Marina Ruy Barbosa, cuja trajetória é atravessada por uma situação de abuso sexual em uma base de estudo no meio de uma região gelada e inóspita. Após o ocorrido, todos os homens da base se tornam suspeitos e cabe à subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão). A violência, nesse caso, funciona como elemento central para compreender as marcas deixadas sobre a personagem e os efeitos de uma experiência que ultrapassa o episódio em si.

Na competição, Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, levou ao cinema um dos crimes mais emblemáticos da história brasileira: o assassinato de Ângela Diniz. Ambientado nos anos 1970, o longa acompanha uma repórter de jornal popular (Débora Falabella) e uma advogada criminalista (Naruna Costa) diante de um homicídio que chocou o país e ajudou a impulsionar o debate sobre o feminicídio. A escolha do episódio coloca em perspectiva não apenas o crime, mas também a maneira como a sociedade brasileira passou a discutir a violência contra as mulheres.

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A violência também surge de forma menos explícita, mas igualmente corrosiva, em outros títulos. Chorão – Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes, dramatiza a vida do vocalista do Charlie Brown Jr. (José Loreto) e de sua esposa, Graziela (Nanda Marques), e explora, entre outros conflitos afetivos, a dependência emocional presente em relações marcadas por desequilíbrios. A abordagem desloca o foco da violência física para mecanismos de vínculo e fragilidade que podem aprisionar os envolvidos.

Em Leite em Pó, dirigido por Carlos Segundo, a discussão aparece no ambiente doméstico. A história acompanha um músico cuja vida entra em colapso depois de uma perda familiar e que, ao longo de sua trajetória, se depara com personagens e situações relacionadas à violência doméstica e a casamentos abusivos. O filme amplia o espectro do tema ao mostrar como relações violentas podem se estabelecer em espaços privados e permanecer ocultas sob a aparência de normalidade.

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A presença do assunto em produções tão diferentes chama atenção justamente pela variedade de perspectivas. Não se trata de uma única representação da violência contra a mulher, mas de um conjunto de narrativas que percorre o abuso sexual, o assassinato, a dependência afetiva e a violência dentro de relacionamentos. Em comum, os filmes colocam em cena relações de poder e suas consequências.

O interesse do Festival de Gramado por essas histórias também reflete uma transformação mais ampla do cinema brasileiro, que tem revisitado episódios históricos e conflitos íntimos para discutir a permanência da violência de gênero. Ao reunir essas obras em uma mesma edição, Gramado acaba funcionando como um espaço privilegiado para observar como o audiovisual nacional tem elaborado uma questão que permanece urgente fora das telas.

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