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“O que Getúlio fez de bom não o absolve”, diz Tony Ramos

Ator fala de suas percepções do ex-presidente e conta segredos da preparação para interpretar o político que governou o Brasil de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954

Por Taísa Szabatura 26 abr 2014, 01h04

Qual o seu veredicto pessoal: ditador benigno ou estadista autoritário? Apesar de um ditador, ele é um homem ainda a ser entendido. O que ele fez de benéfico não o absolve da ditadura, mas podem explicar suas contradições.

Como penetrar em um personagem tão cuidadosamente cultivado como um mestre da prestidigitação política? Getúlio era muito circunspecto e adorava filosofia. Discutia Schopenhauer e música clássica, apesar de ser um ditador. Li diários, recortes dos anais da República, jornais da época, depoimentos de senadores e deputados e opiniões populares, para conhecer os dois lados. Foram dois anos de preparo.

De que maneira ficar 51 dias seguidos no Palácio do Catete ajudou a entrar no clima dos últimos dias de vida de Getúlio Vargas? Nesse tempo, convivi com todos os arquétipos que lá estão. Foi fundamental para a disciplina e a criação do personagem filmar na escrivaninha e na poltrona dele, ter pesadelos em sua cama, caminhar por onde ele caminhou.

A cena do suicídio chegou a causar ao senhor alguma impressão negativa? De maneira nenhuma. Personagem não vai comigo para casa, não entra nem no carro. Nas horas livres da filmagem, eu converso sobre futebol, não fico imerso.

Um populista taciturno, como era Getúlio Vargas, não é uma contradição em termos? O filme mostra suas grandes contradições. Foi um ditador, mas ao mesmo tempo dizia para a filha: “Nunca ninguém veio me pedir algo para o país; sempre vinham pedir para alguém ou para si próprio.” Ele era disposto a ouvir as pessoas.

Como foi possível adicionar 30 quilos ao senhor? Uma técnica de Los Angeles me deixou gordo total: embaixo do braço, nas axilas, no bumbum e nos joelhos. Era um macacão, todo preenchido. E vestia a roupa por cima dele. Era tão quente que me ajudou a ficar quieto e a incorporar o personagem. Aparei os pelos para me adaptar ao figurino. A maquiagem levava duas horas, e usavam látex para fazer as bolsas dos olhos e as rugas. Diariamente, fios de cabelo branco eram colados ao meu couro cabeludo.

O senhor acredita que ele sabia das maquinações do plano para assassinar Carlos Lacerda? Estou convencido de que não sabia nem a metade. De muitas coisas ele soube, não era inocente. Ele tinha defensores fundamentalistas, cegos, que podem ter tomado as dores. Se algum dia ele soube quem foi, levou essa informação para o túmulo.

Qual foi o maior desafio na construção de Getúlio? O gestual. Isso porque não há vida privada registrada; só as cenas teatrais. Mas descobri que ele gostava de conversar ao pé do ouvido. Claro, era uma raposa, e assim, nessas conversas, foi conduzindo sua forma de fazer política.

É possível para um ator não se apaixonar por seu personagem? Eu me apaixonei pelo personagem enquanto ator, mas não me apaixonei pelo homem. A possibilidade de fazer um personagem tão contraditório é que é tão apaixonante. Tirania não cola comigo.

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