O que explica o sucesso de ‘Não Mexa’, duologia de terror japonês recém-publicada no Brasil
Escritor Mikito Chinen fala a VEJA sobre nova obra de terror que mistura lendas urbanas japonesas a traumas contemporâneos
Uma espécie de Freida McFadden do Japão, o autor Mikito Chinen divide seu tempo entre o consultório médico e a carreira de autor literário, escrevendo livros que, por sinal, não se deixam ser largados até que se chegue na última página. Dois exemplares dessa fusão curiosa chegaram no último mês ao Brasil pela editora Intrínseca: trata-se da duologia de terror Não mexa. Até então, os livros só existiam no Japão, e por lá foram um sucesso editorial absoluto, vendendo 140 000 cópias no primeiro mês de lançamento.
Comercializados em conjunto, os dois livros se complementam. Em Não Mexa Neste Celular, o livro tem o formato de um smartphone e conta a história através da estrutura do aparelho, com a narrativa se desenrolando em mensagens de texto, sites, imagens captadas pela câmera e pesquisas no navegador. O protagonista é Kazuma Isshiki, um jovem que começa a investigar uma lenda urbana como parte de um trabalho para uma revista quando se percebe sendo perseguido por Doumeki, uma criatura assustadora que tem o corpo coberto por olhos.
R$ 89,90 (Intrínseca/Divulgação)
A personagem é inspirada nas yokai Dodomeki, descritas como mulheres com braços muito longos e cobertos por pequenos olhos. De forma inteligente, Chinen utiliza uma lenda japonesa antiga e a relaciona com o tema atual — tão assustador quanto — dos perigos da hipervigilância e hiperconectividade. O envolvimento de Isshiki com a criatura se inicia quando ele passa a buscar uma saída para custear uma vida a dois com sua namorada. Implicitamente, Chinen ainda critica os sacrifícios que são normalizados em nome de se ter uma vida minimamente confortável.
Na sequência Não Mexa Neste Arquivo, a narrativa apresenta uma investigação de uma psiquiatra sobre um paciente que afirma ter sido vítima da perseguição de Doumeki. O livro se desenrola por meio de transcrições de áudios e imagens de documentos confidenciais. Com a rapidez e dinamicidade na escrita, os livros são novos exemplares da boa safra do terror japonês que vem chegando aos catálogos das editoras brasileiras.
Apesar de novo no terror, Chinen começou a carreira de escritor em 2012 e tem várias obras publicadas, algumas inclusive adaptadas para o audiovisual. Conhecido principalmente por seus romances hospitalares, Chinen parece dar um passo fora da rota com Não Mexa. “Queria escrever sobre um horror que invade a realidade”, conta o autor em entrevista a VEJA. A seguir, ele fala mais sobre as inspirações que teve para a história, sobre as impressões em torno do terror japonês na literatura e sua relação com o tema da psiquiatria, bastante presente nos livros.
O terror sempre foi muito abordado no cinema japonês e nos mangás, representado por nomes como Kiyoshi Kurosawa e Junji Ito. Como é esse movimento na literatura japonesa, em sua visão? No Japão existe o pensamento oriundo da filosofia xintoísta de que há “deuses” residindo por toda parte. Esses “deuses” não se restringem aos benevolentes, mas incluem aqueles que são prejudiciais às pessoas. Acredito que na base desse pensamento está o sentimento de admiração pela natureza que os japoneses expressam muitas vezes na forma de ficção, não apenas em filmes e mangás como também na literatura.
Como começou esse processo de adaptar a lenda de Dodomeki para uma história original? Eu me sentia fascinado pela natureza muito mística desses seres com olhos espalhados por todo o corpo chamados “yokai” [seres sobrenaturais], não apenas pela sua aparência aterrorizante como também pelo seu poder de enxergar inúmeras coisas invisíveis aos seres humanos por meio desses “olhos”.
Por que quis se tornar escritor? Como foi a mudança de “ambiente”, considerando sua formação em Medicina? Desde criança sempre amei romances de mistério e sonhava em um dia me tornar escritor. No entanto, por outro lado, eu tinha enorme respeito por meu pai, que era médico, e a vontade de me tornar médico era também muito forte. Porém, ao me tornar médico e começar a atender pacientes diariamente, resolvi tentar realizar aquele meu sonho de infância de me tornar escritor e, assim, comecei a escrever romances. Atualmente, atuo nas duas profissões.
Outras de suas obras se passam no universo hospitalar. O que o fez ter interesse por escrever sobre lendas urbanas e thriller? Como escritor, estou sempre buscando temas interessantes e queria escrever um “horror que invade a realidade”. Nesse processo eu me interessei por lendas urbanas, aquelas histórias de fantasmas que talvez tenham acontecido realmente.
Por vezes, falta moderação na nossa relação com a tecnologia, terreno fértil para criar enredos que tem a hipervigilância e a hiperconectividade como fios condutores, como é o caso da sua série de livros. É possível encontrar equilíbrio nessa relação? Graças ao progresso da IA é possível criar atualmente sistemas de monitoramento de toda a população de um país. Embora isso possa contribuir para criar uma sociedade segura, há o risco de tornar o mundo um local sufocante onde todos são constantemente vigiados. Acho importante que os próprios cidadãos discutam em detalhes como empregar a tecnologia, debatendo sobre a forma ideal e decidindo de forma democrática.
A medicina psiquiátrica é uma parte dessa série de livros, ainda que ela seja retratada em seus aspectos positivos e negativos. Qual é sua relação com o tema? Embora eu seja clínico geral, não é raro tratar pacientes com distúrbios mentais. Eu me interesso muito pela área da psiquiatria porque ela interpreta e trata as alterações que ocorrem na mente humana a partir do equilíbrio dos neurotransmissores cerebrais.
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