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O personagem decadente que rendeu indicação ao Oscar a Ethan Hawke em Blue Moon

O drama disseca, ao longo de uma única noite, o trágico ocaso de um compositor da Broadway

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 fev 2026, 08h00
O personagem decadente que rendeu indicação ao Oscar a Ethan Hawke em Blue Moon Priorize VEJA no Google

 

A noite de 31 de março de 1943 foi daquelas que definem uma vida para Lorenz Hart (Ethan Hawke). Lendário letrista da Broadway, o compositor desfrutou de 25 anos de parceria com Richard Rodgers (Andrew Scott), com quem compôs 28 musicais e clássicos como Blue Moon, que intitula o longa de Richard Link­later indicado ao Oscar. Naquela noite, Hart (1895-1943) assistira a Rodgers (1902-1979) desgarrar-se da parceria e estrear seu musical de maior sucesso, Oklahoma!, ao lado de Oscar Hammerstein II (1895-1060). Juntos, os dois revolucionaram a Broadway — enquanto Hart teve fim trágico.

arte Oscar
(./.)

Ambientado durante poucas horas da noite em foco, o longa estrelado por Hawke retrata a vida do compositor de maneira peculiar: seguindo o formato de clássicos como Meu Jantar com André (1981), do francês Louis Malle, o filme se passa quase inteiramente dentro do mesmo espaço, em um bar em Nova York para onde Hart vai afogar as mágoas depois de assistir ao novo trabalho do companheiro de composição. Ali, por meio de diálogos imaginados que transitam entre a melancolia dilacerante e uma boa dose de ironia, o artista egocêntrico desabafa sobre suas inseguranças profissionais, pessoais e até sexuais (ele era presumidamente gay e vivia atormentado pela sexualidade) para todos os presentes, incluindo a jovem universitária Elizabeth Weiland (Margaret Qualley) e o escritor E.B. White (Patrick Kennedy).

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Nono filme da frutífera parceria entre Hawke e Link­later, o longa foi proposto pelo diretor há quinze anos e automaticamente abraçado por Haw­ke. O cineasta, no entanto, julgou que o ator era ainda muito jovem e atraente para viver o protagonista, que era um homem franzino, de baixa estatura, calvo e com muito mais rugas do que as exibidas pelo astro de Holly­wood. A decisão pela espera se mostrou acertada: na tela, Haw­ke se transforma de modo impressionante, não deixando sombra da vivaz e confiante estrela do cinema que vemos nos tapetes vermelhos. Dentro daquele bar, o que se vê é um homem que perde o brilho à medida que as horas passam e que usa de humor e ironia para tentar disfarçar as dores.

Depois daquela noite, a vida de Hart se complicou ainda mais: em abril daquele ano, a mãe do compositor morreu, o que o afetou profundamente. Ele ainda se juntaria a Rodgers mais uma vez, para uma reedição de A Connecticut Yankee, incluindo seis novas músicas. No dia da estreia, no entanto, Hart desapareceu. Acabou sendo encontrado doente em um quarto de hotel dois dias depois, e levado para o hospital. Ali, morreu por complicações de pneumonia com apenas 48 anos, o que colocou um ponto-final em uma profunda crise existencial, composta de notas decadentes.

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Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980

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