O legado ímpar de Benedito Ruy Barbosa, segundo pesquisadores de teledramaturgia
Autor morreu aos 95 anos nesta terça-feira, 7, e deixa sua marca na TV brasileira
No contexto atual, em que a novela brasileira enfrenta uma grande crise de audiência e perda de espaço junto ao mercado internacional, as obras de Benedito Ruy Barbosa são uma boa pista para o que conquistou tantas gerações Brasil afora. O autor, que morreu nesta terça-feira, 7, aos 95 anos, vítima de complicações de uma insuficiência renal crônica, soube discutir questões relacionadas à ocupação do território brasileiro, à imigração, aos conflitos fundiários, às transformações econômicas no campo, à preservação ambiental e às tradições culturais regionais… tudo com cara de Brasil.
Segundo a professora e pesquisadora Tatiana Siciliano, da PUC-Rio, não se pode falar em telenovela sem pensar em Benedito Ruy Barbosa. “A trajetória profissional do autor está ligada à própria história do gênero no Brasil, e de como ele é conhecido nacional e internacionalmente. Sua marca autoral também o distingue na escrita de folhetins eletrônicos, temas que falam do cotidiano de um outro universo dramatúrgico, de gente simples do mundo rural, seus amores, dilemas e sofrimentos, como também da magia que mistura cultural popular e natureza, como Juma, a mulher que vira onça e o Velho do Rio, dentro da natureza exuberante de Pantanal”, analisa.
Tatiana recorda a trajetória do autor, como forma de se compreender as diferentes vertentes trazidas para dentro de suas criações. “Ele começa na extinta TV Tupi, em 1966, com Somos Todos Irmãos, e passa por diversas emissoras, como a antiga Record (com A Última Testemunha, 1968) e a TV Bandeirantes (Pé de Vento, 1980 e Os Imigrantes, 1981). O reconhecimento público explode na TV Globo e na finada Manchete. Na Globo, estreia com Meu Pedacinho de Chão, em 1971, seguindo-se de obras como Cabocla (1979) e Sinhá Moça (1986), exibidas na faixa das 18h. Sai da Globo porque Boni não quis investir na novela Amor Pantaneiro, que seria toda filmada no Pantanal e não nos estúdios. Adolfo Bloch aceita a trama e exibe em 1990 Pantanal, que muda as feições da telenovela – naquele momento (urbana e realista) – para um ritmo mais lento, com tomadas panorâmicas da natureza em uma linguagem cinematográfica”.
Identidade de uma dramaturgia
Para Mauro Alencar, consultor e doutor em Teledramaturgia pela USP, Benedito abriu caminho para adaptações literárias de primeiríssima qualidade na teledramaturgia. “O Feijão e O Sonho (com Nívea Maria e Cláudio Cavalcanti), de 1976, é um grande exemplo, onde ele recebeu muitos elogios por parte do romancista Orígenes Lessa ao dizer que o novelista havia ampliado com perfeição seu romance para a telenovela. Depois, em 1986, adaptou um dos maiores sucessos do mercado estrangeiro: Sinhá Moça (reunindo Lucélia Santos e Rubens de Falco), transformando o romance em épico da TV”, recorda.
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Aurora Leão, pesquisadora em Comunicação da UFJF, reforça que a obra de Benedito tem importância fundamental na consolidação da teledramaturgia, pelo “olhar para dentro”, sempre ligado à educação e à literatura. Por isso mesmo ousou escrever a primeira novela educativa do Brasil, Meu Pedacinho de Chão, em 1971 (que ganhou segunda versão em 2014). “Sua maior contribuição foi ter colocado o sertão no horário nobre. É por causa da obra de Benedito que hoje o país conhece melhor os modos de vida do sertão e entende os vários sotaques do ‘matuto’”, diz Aurora, autora de uma tese sobre as visões de sertão de Euclides da Cunha inspiradoras do audiovisual.
MST no horário nobre
Por esse olhar crítico – e não menos poético, Benedito contou com paixão as riquezas e mazelas do Brasil profundo. Como Tatiana bem lembra, em O Rei do Gado, a TV Globo introduziu a pauta dos sem-terra em sua teledramaturgia, no momento em que se vivia a maior tensão entre camponeses e latifundiários, principalmente em estados como São Paulo e Pará. Era metade dos anos 1990, já no governo Fernando Henrique Cardoso. “A sensível perspectiva da reforma agrária foi abordada de modo sutil, mas ao mesmo tempo corajoso, por um autor que discute o Brasil profundo, sem perder o foco nos conflitos sociais”, diz.
Outro marco temático de sua autoria, a história dos imigrantes que contribuíram para a formação da sociedade brasileira foi contada de forma inaugural no épico Os Imigrantes, na Bandeirantes, em 1981. “Foi maior novela em texto e amplitude social sobre a imigração no Brasil, totalizando 459 capítulos. Até hoje o trabalho mais completo sobre o tema em nossa teledramaturgia. Verdadeiro tratado sociológico sobre a imigração no Brasil”, pontua Mauro.
Mas a grande repercussão sobre a temática veio com Terra Nostra (1999), na TV Globo. “Impossível não lembrar de Mateo (Thiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio), apaixonados no navio e separados quando da chegada ao Brasil, e a ênfase no sotaque tão identificado entre os paulistas. Assistir a Benedito é conhecer um pouco desse grande Brasil”, complementa Tatiana. O tema da imigração, aliás, ainda hoje segue tão latente e atual em diversos países. Um exemplo de como a teledramaturgia nacional já foi capaz de adiantar discussões.
Ausência na ABL
Por toda sua grandeza, Aurora sinaliza que o nome do autor é uma grande ausência entre os imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL). “Ouso dizer que Benedito tem importância similar a de Euclides da Cunha: se hoje o sertão tem uma obra fundamental na televisão para ser visto em toda sua magnitude, é a Benedito que devemos esse olhar acurado e honesto sobre a sertanidade no cerne da teledramaturgia. Assim como Euclides tirou o sertão de seus 300 anos de invisibilidade na história do país, através de seu notável jornalismo literário, Benedito, como profícuo ‘herdeiro’ dessa obra, colocou o povo sertanejo e a luta pela reforma agrária – ainda hoje o problema crucial do Brasil – no cerne da telenovela, que é a ficção popular do Brasil”, finaliza.







