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O Lamento: uma destilação do melhor que há em matéria de suspense

Esses cineastas sul-coreanos são todos doidos. Ainda bem

Por Isabela Boscov 24 dez 2016, 18h21

Estou na maior dúvida: dou aqui uma pista dos caminhos imprevistos que este filme do craque sul-coreano Hong-jin Na vai tomando, ou fico quieta? Se eu não der alguma pista, vai ser difícil fazer uma resenha; vou ter de ficar em generalidades. Mas, se eu contar demais, tiro de quem for ver o filme o prazer que eu mesma tive, de entrar nele nem saber nada (e terminar sabendo menos ainda).

Solução de compromisso: vou botar um aviso quando for para os mais sensíveis a spoilers pararem de ler.

Em Goksung, um vilarejo rural isolado em uma região montanhosa da Coreia do Sul, irrompe uma série de assassinatos escabrosos. No primeiro dos chamados, o sargento Jeon (Do-won Kwak) e o restante da atônita força policial local deparam com uma casa de lavradores lavada em sangue. O marido matou a mulher e a filha a facadas – melhor seria dizer que as retalhou –, e ele mesmo parece mais morto do que vivo: imundo de sangue e lama, o olhar vidrado, o corpo coberto com pústulas horríveis, ele é incapaz de prestar qualquer esclarecimento; tem de ir para a UTI. O exame de sangue sugere que ele consumiu cogumelos selvagens e alucinou. Mas Jeon e seu parceiro, apesar da sua pouca competência como policiais e da total inexperiência com homicídios, acham a tese duvidosa; haja cogumelo para produzir uma carnificina como essa. O episódio dos lavradores, porém, é só o primeiro de vários igualmente medonhos. Ganham força os boatos de que um estranho velho japonês (Jun Kunimura) que se mudou para a floresta próxima é um demônio, e está por trás desse horror. Vigiando uma cena de crime, Jeon é avisado por uma jovem misteriosa de que, se o japonês permanecer ali, não vai sobrar ninguém vivo no vilarejo. Mas, de novo, a explicação parece a ele bizarra. Impressionado ele está, mas não é tão crédulo assim.

É difícil dar uma ideia da voluptuosidade com que Hong-jin Na filma. Usando quase que só luz natural e locações que parecem ter sido encontradas no seu estado habitual, e tirando excelente proveito da chuva que se abate sobre o vilarejo durante boa parte do tempo, ele compõe uma encenação tão rica e tátil que o efeito é de imersão completa do espectador. Hong-jin Na, porém, é um diretor ardiloso: não há enquadramento que não seja composto para manipular a percepção do espectador. A câmera de Na é como alguém que tem medo do que vai ver mas não resiste a olhar; ela se move de maneira lenta mas inexorável, indo à frente e então ampliando a mirada, para daí se deter em algum detalhe. É uma destilação do melhor que há em matéria de suspense, mas feita de maneira intensamente pessoal.

E AQUI, SE FOR O CASO, PARE DE LER.

O que eu não previa é que o que surgira como uma manifestação de paranoia do vilarejo ante os assassinatos – a vertente sobrenatural – a certa altura fosse passar à frente e ao centro de tudo mais: Jeon e um jovem diácono protestante fazem uma descoberta perturbadora na cabana do japonês; são atacados por um cão malevolente como os de A Profecia; e a filha pré-adolescente que o sargento Jeon adora acorda de uma febre comendo tudo que encontra pela frente (com as mãos, enfiando a comida na boca como um animal) e xingando o pai com uma vulgaridade assustadora. É possessão, diz a avó, que convoca um xamã para dar conta do recado. O xamã (Jung-min Hwang, excelente, como aliás todo o elenco) tem um jeito seboso de charlatão. Mas parece saber o que está fazendo: em um ritual que me causou o maior desconforto, ele ameaça o demônio dentro da menina, que estrebucha mas não a abandona. Ele parte então para a artilharia pesada – e, se o primeiro ritual já me incomodara, o segundo então…

Hong-jin Na, porém, não tem a menor intenção de arrancar Jeon – e a plateia – de sua dúvida sobre o que está se passando. Seu propósito, ao contrário, é tornar as águas do horror de Goksung turvas a ponto de ser impossível adivinhar o que elas escondem. O japonês, o xamã, a jovem que avisou Jeon – qualquer um deles podem ser o demônio, ou talvez todos o sejam. Cada um deles diz a mesma coisa a Jeon: “Acredite em mim e não ouça mais ninguém”. O colonialismo japonês, a separação das duas Coreias, a desconfiança que brota dentro da família e da comunidade, o primitivismo das superstições, a sobrevivência cada vez mais tênue da paz rural – todos esses fantasmas assombram a fictícia Goksung e competem entre si para causar mais dano, mais fraturas. Ainda que Hong-jin Na às vezes mande a lógica às favas no roteiro também de sua autoria, não importa. O mal-estar e a insegurança são seus objetivos, e ele os atinge com sobra.

Quer mais? Pois semana que vem tem outra dose de cinema sul-coreano, com resenha do espetacular Invasão Zumbi.

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