O impacto indelével de Glória Menezes e Laura Cardoso para a TV brasileira
Elas construíram carreiras que se confundem com a história da teledramaturgia — e deixam um legado inestimável
Quando Glória Menezes chegou à TV Tupi, em 1959, a experiente Laura Cardoso já estava por lá havia sete anos e a recebeu de braços abertos. “É uma belíssima atriz. Me lembro quando ela chegou, e nós fizemos uma novela juntas”, recordou sobre a colega em 2019. O trabalho em questão foi o teleteatro Um Lugar ao Sol, em que a dupla contracenou quando a televisão dava seus primeiros passos no país, ainda flertando com o teatro. Estreia de Glória nas telas, a produção deu início a uma era de mais de seis décadas, na qual a história das duas titãs se entrelaça à construção da própria teledramaturgia. Referências na arte da atuação, Laura Cardoso e Glória Menezes são, ao lado de nomes como Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, exemplares ilustres de uma geração de mulheres que moldou a memória de telespectadores que dividiram a sala de casa com personagens como a feiticeira Zoroastra, de O Beijo do Vampiro (2002), vivida com gosto por Glória, e a divertida e desbocada avó Carmem, encarnada por Laura em Chocolate com Pimenta (2003) — esta de autoria de Walcyr Carrasco, colunista de VEJA.
Nascidas Laurinda de Jesus Cardoso e Nilcedes Soares de Magalhães, a paulistana e a gaúcha de Pelotas lidaram com o mesmo empecilho inicial: o nome escolhido pelos pais não soava bem aos ouvidos do público, o que fez com que passassem a se apresentar, respectivamente, como Laura e Glória. Ambas as alcunhas se tornaram indissociáveis das telas da TV. Em preto e branco ou colorido, com sinal analógico ou digital, do domínio da Tupi à Globo, os rostos das duas estavam sempre lá, ganhando experiência e linhas de expressão que denunciavam longevidade e talento à medida que as novelas se fortaleciam como paixão nacional.
+ Walcyr Carrasco: Laura Cardoso criava até aquilo que o autor não havia escrito
Em um tempo em que ser atriz passava longe do glamour, além de desafiar a lógica dominante da mulher como mera dona de casa, elas construíram um legado calcado em muito trabalho: Laura Cardoso participou de 65 novelas, e Glória esteve em 40, muitas delas ao lado do marido, Tarcísio Meira (1935-2021), com quem formou um dos casais mais emblemáticos da TV. Na trajetória longeva, as veteranas se cruzaram algumas vezes. Décadas depois da Tupi, estrelaram juntas Rainha da Sucata (1990), em que Glória deu vida à implacável vilã Laurinha Figueroa, enquanto Laura chegou na reta final como a humilde Yolanda Maia. Folhetim clássico da Globo, a trama mostra onde a carreira das duas se diferencia: Glória ficou marcada, majoritariamente, por viver dondocas poderosas e protagonistas. Já Laura era uma autodeclarada “operária da atuação” e foi eternizada por mulheres de fibra e com forte apelo emocional, de mães carinhosas a avós divertidas.
O perfil, é claro, não foi limitante: com talento extraordinário, fizeram de tudo um pouco na TV, com excelência, e ainda encontraram tempo para brilhar no teatro e no cinema. Nas novelas, o último encontro delas foi em Senhora do Destino (2004) — Laura como Luzitana, mãe de Nazaré Tedesco, e Glória na pele da Baronesa Laura. Em uma pegadinha da vida, as gigantes da teledramaturgia partiram da mesma forma, com algumas horas de diferença: Laura Cardoso morreu na noite da segunda-feira 17, aos 98 anos, e Glória Menezes, na tarde do dia seguinte, aos 91. Ambas de causas naturais, em casa, em paz e cercadas por suas respectivas famílias.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009







