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O impacto indelével de Glória Menezes e Laura Cardoso para a TV brasileira

Elas construíram carreiras que se confundem com a história da teledramaturgia — e deixam um legado inestimável

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 21 ago 2026, 11h54
O impacto indelével de Glória Menezes e Laura Cardoso para a TV brasileira Priorizar nos meus resultados Google

Quando Glória Menezes chegou à TV Tupi, em 1959, a experiente Laura Cardoso já estava por lá havia sete anos e a recebeu de braços abertos. “É uma belíssima atriz. Me lembro quando ela chegou, e nós fizemos uma novela juntas”, recordou sobre a colega em 2019. O trabalho em questão foi o teleteatro Um Lugar ao Sol, em que a dupla contracenou quando a televisão dava seus primeiros passos no país, ainda flertando com o teatro. Estreia de Glória nas telas, a produção deu início a uma era de mais de seis décadas, na qual a história das duas titãs se entrelaça à construção da própria teledramaturgia. Referências na arte da atuação, Laura Cardoso e Glória Menezes são, ao lado de nomes como Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, exemplares ilustres de uma geração de mulheres que moldou a memória de telespectadores que dividiram a sala de casa com personagens como a feiticeira Zoroastra, de O Beijo do Vampiro (2002), vivida com gosto por Glória, e a divertida e desbocada avó Carmem, encarnada por Laura em Chocolate com Pimenta (2003) — esta de autoria de Walcyr Carrasco, colunista de VEJA.

MARCANTE - Glória: atriz encarnou mulheres poderosas e dividiu a tela com o marido, Tarcísio Meira
MARCANTE – Glória: atriz encarnou mulheres poderosas e dividiu a tela com o marido, Tarcísio Meira (Mirian Fichtner/.)

Nascidas Laurinda de Jesus Cardoso e Nilcedes Soares de Magalhães, a paulistana e a gaúcha de Pelotas lidaram com o mesmo empecilho inicial: o nome escolhido pelos pais não soava bem aos ouvidos do público, o que fez com que passassem a se apresentar, respectivamente, como Laura e Glória. Ambas as alcunhas se tornaram indissociáveis das telas da TV. Em preto e branco ou colorido, com sinal analógico ou digital, do domínio da Tupi à Globo, os rostos das duas estavam sempre lá, ganhando experiência e linhas de expressão que denunciavam longevidade e talento à medida que as novelas se fortaleciam como paixão nacional.

+ Walcyr Carrasco: Laura Cardoso criava até aquilo que o autor não havia escrito

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Em um tempo em que ser atriz passava longe do glamour, além de desafiar a lógica dominante da mulher como mera dona de casa, elas construíram um legado calcado em muito trabalho: Laura Cardoso participou de 65 novelas, e Glória esteve em 40, muitas delas ao lado do marido, Tarcísio Meira (1935-2021), com quem formou um dos casais mais emblemáticos da TV. Na trajetória longeva, as veteranas se cruzaram algumas vezes. Décadas depois da Tupi, estrelaram juntas Rai­nha da Sucata (1990), em que Glória deu vida à implacável vilã Laurinha Figueroa, enquanto Laura chegou na reta final como a humilde Yolanda Maia. Folhetim clássico da Globo, a trama mostra onde a carreira das duas se diferencia: Glória ficou marcada, majoritariamente, por viver dondocas poderosas e protagonistas. Já Laura era uma autodeclarada “operária da atuação” e foi eternizada por mulheres de fibra e com forte apelo emocional, de mães carinhosas a avós divertidas.

DEDICADAS - Laura em Mulheres de Areia e Glória como a vilã ardilosa de Rainha da Sucata: versáteis
DEDICADAS – Laura em Mulheres de Areia e Glória como a vilã ardilosa de Rainha da Sucata: versáteis (Fotos/TV Globo)
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O perfil, é claro, não foi limitante: com talento extraordinário, fizeram de tudo um pouco na TV, com excelência, e ainda encontraram tempo para brilhar no teatro e no cinema. Nas novelas, o último encontro delas foi em Senhora do Destino (2004) — Laura como Luzitana, mãe de Nazaré Tedesco, e Glória na pele da Baronesa Laura. Em uma pegadinha da vida, as gigantes da teledramaturgia partiram da mesma forma, com algumas horas de diferença: Laura Cardoso morreu na noite da segunda-feira 17, aos 98 anos, e Glória Menezes, na tarde do dia seguinte, aos 91. Ambas de causas naturais, em casa, em paz e cercadas por suas respectivas famílias.

Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009

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